A mulher piadista

Aconteceu uma coisa que me fez pensar em muitas outras coisas.
Fiquei pensando que para mim uma grande fonte de ansiedade é ter que lidar com muita gente. E principalmente lidar com muitas pessoas com quem não conheço. Só que eu me envolvo demais em situações em que acabo me relacionando com pessoas que não conheço. Acho que encontrei uma maneira de lidar com isso: eu só tenho que fechar minha boca. Invejo os introvertidos.
Recentemente, num grupo composto por pessoas com quem não me relaciono pessoalmente ou particularmente, fiz uma piada pesada sobre pessoas que votam no Partido Novo e anarcocapitalistas. Hoje não quero argumentar sobre a viabilidade dessas coisas e nem quero criticá-las. Só quero falar de minha piada. Uma pessoa, que não conheço, se sentiu ofendida com a piada. Eu fiquei constrangida, porque eu queria sim criticar um certo grupo de pessoas. No entanto, sou contra agressões, como minha piadinha sugeria. E o contexto parecia bem claro que se tratava de uma piada, mas como eu disse, eu não conheço as pessoas do grupo. Talvez algumas pessoas não tenham compreendido a piada, eu não as conheço e elas não me conhecem. Portanto, elas não sabem que eu não sou uma pessoa agressiva.
E há ainda uma outra questão que preciso levar em conta que é a questão geracional. Pessoas mais velhas ou mais novas do que eu talvez encarem o humor de uma outra maneira. A geração que atualmente está nos seus 20 e poucos e que é mais progressista abomina várias piadas que para mim e para as pessoas mais velhas do que eu eram (ou ainda são) normais. Eu não acho que os mais novos estão de mimimi ou frescura, realmente piadas horríveis e eram feitas livremente quando eu era mais nova. No entanto, eu realmente acho que algumas as sutilezas se perderam pelo caminho.
Muitas piadas possuem o exagero como recurso: prefiro uma traqueostomia do que ir ao show do Gusttavo Lima. Porra, óbvio que quem faz uma piada dessas não quer fazer uma traqueostomia. É só um exagero para mostrar que não gostaria de ir em um show do artista. Eu também não quero matar ou agredir anarcocapitalistas ou pessoas que votam no Partido Novo. Só que quem lê minha piada – e ainda há as limitações da comunicação escrita – e não me conhece, pode achar que quero sim a morte de um determinado grupo de pessoas (que não é uma minoria historicamente perseguida).
Disso tudo, eu concluí algumas coisas:
- não quero mais entrar em grupos de pessoas que não conheço;
- se eu precisar entrar em grupos desse tipo, vou ficar de bico calado (invejo os introvertidos, já disse);
- devo guardar minhas piadas imbecis para meus amigos que me conhecem e sabem que é meu jeitinho e essas piadas devem preferencialmente ser feitas presencialmente;
- ser vigilante sempre com minha boquinha, pois sou professora e me relaciono com muitas pessoas de gerações diferentes da minha.
Não me sinto culpada pelo o que aconteceu, o post não se trata disso. Mas eu quis realmente aproveitar esse incidente para pensar. Não me importo em ser ou não cancelada, mas eu não quero magoar ninguém. A sociedade muda e meu discurso precisa estar atento, pois eu não quero ser como aquelas pessoas que dizem que “hoje não pode fazer piada com nada”.
