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A mulher que queria participar

Eu passei alguns anos apenas trabalhando em casa, quero dizer, cuidando de meus filhos pequenos e dos afazeres domésticos. Apesar de terem sido momentos valiosos para meu autoconhecimento e para prover os cuidados que meus filhos precisavam (principalmente durante a pandemia), eu sentia que eu estava desaparecendo.

Fiz alguns cursos nesse período, li alguns livros e refleti bastante sobre meus sonhos e sobre minha trajetória profissional. Participei algumas vezes do Scicast e escrevi textos para o blog. Mas eu sabia que essas coisas não evitariam meu desaparecimento.

Então voltei para o mundo acadêmico.

Estou aprendendo coisas novas, conhecendo pessoas interessantes e participando de ótimas discussões. Eu sei que muita coisa ainda vai acontecer. Vou continuar me surpreendendo comigo mesma e com as coisas que tenho descoberto. Sei também que vou me frustrar em alguns momentos, sei que vou desanimar. Mas sei que não posso desistir.

Obrigada pela foto, Rafaela.

Essa na foto aí de cima sou eu aprendendo a usar uma Estação Total. Fizemos medições com esse equipamento (que mede ângulos e distâncias) e também com um Receptor GNSS (que após alguns cálculos, fornece a latitude e a longitude). O objetivo é relacionar os dois sistemas de coordenadas. Para isso, estamos fazendo um pós-processamento que envolve programação.

Bom, toda vez que penso em programação, penso em Ada Lovelace, a primeira programadora do mundo. Um dia escrevo sobre ela, um grande exemplo de representatividade. Enquanto não escrevo, deixo esse onde post eu conto um pouco sobre como nós fomos as pioneiras nesse campo da programação.

Hoje especificamente quero falar de Mary Sommerville, que foi tutora de matemática da Ada Lovelace. Uma mulher que nasceu no final do século XVIII e que apesar de ter sido há tanto tempo, eu me identifiquei com alguns pontos de sua biografia.

Mary foi uma criança curiosa que aprendeu a ler muito cedo e começou a se interessar por matemática e outras áreas do conhecimento. Casou com um primo distante muito tosco, que acreditava que mulheres tinham baixa capacidade intelectual. Ficou viúva aos 28 anos, com dois filhos, quando casou-se novamente com outro primo distante, William Sommerville. Esse era um cara que gostava de ciência, com quem compartilhava várias conversas interessantes e que tinha orgulho de ter uma esposa inteligente. Com ele, ela teve mais 4 filhos.

Os Sommerville eram amigos de cientistas da época, como o pioneiro da computação Charles Babagge. Eles frequentavam eventos científicos com Michael Faraday e Alexander Von Humboldt. Como era fluente em francês, Mary traduziu trabalhos de Laplace.

Com William, Mary ainda teve mais 4 filhos. Sua carreira como escritora científica deslanchou quando ela tinha quase 50 anos. Sua escrita era considerada clara e tornou-se muito popular no século XIX. Ela influenciou muita gente, incluindo nomes como James Clerk Maxwell. Publicou também trabalhos na área de Geografia, ganhou a admiração de Humboldt e ainda lutou pelo direito das mulheres participarem da vida pública, exercendo o direito ao voto. Viveu até os 92 anos e como vocês podem imaginar, fez coisa pra caramba ao longo de todas essas décadas. Tem cratera na Lua com o nome dela, ela discutiu a existência de um planeta depois de Urano (o que permitiu que John Couch Adams buscasse e encontrasse Netuno), foi eleita como “a rainha da Ciência do século XIX”, enfim, ela foi reconhecida enquanto ainda estava viva e continuou fazendo sucesso décadas depois de sua morte, em 1872.

***

Eu não sou nenhuma jovenzinha. Como early millenial que sou, já vivi muitas experiências. Tomei decisões acertadas e outras nem tanto. Eu acredito na reinvenção, na capacidade de fazer do limão uma limonada. Não sou otimista o tempo todo, mas hoje consigo entender que os momentos difíceis passam. Muitas mulheres lutaram antes de mim. Lutaram muito para que eu pudesse votar, dirigir, estudar e participar da vida pública. Elas também lutaram para não desaparecer.

Nós ainda lutamos. A jovem iraniana que recentemente protestou contra às imposições relacionadas com as roupas que as mulheres devem vestir no Irã. Ela foi taxada de desequilibrada, como tantas de nós já fomos. Nós nem sabemos o nome dela, assim como não sabemos os nomes de muitas mulheres que lutaram e não gravaram seu nome na História. Temos em nossas famílias histórias de mulheres que foram corajosas, que se divorciaram quando não era algo bem visto, que desafiaram dogmas, que questionaram e que lutaram para não desaparecer.

Vamos continuar lutando.

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