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A nuvem vagiforme de Bursa

Nuvem incomum apareceu nos céus de Bursa, na Turquia — Foto: REUTERS/G1

Vamos falar daquela nuvem estranha em Bursa, na Turquia, registrada em 19/01/2023. As imagens viralizaram nas redes sociais e foram assunto em vários portais de notícia. Sua aparência vagiforme chamou a atenção (seria o sinal do fim do patriarcado?). Alguns falaram que a nuvem na verdade parecia um disco voador. Afinal de contas, que nuvem é essa?

Antes eu preciso contar para meus leitores que estão chegando aqui agora que as nuvens possuem nomes. Desde a Antiguidade tenta-se classificar nuvens, agrupando-as de acordo com seus formatos, alturas aparentes e com a ocorrência ou não de precipitação. A classificação que usamos hoje começou a ser moldada no comecinho do século XIX, através do trabalho de um naturalista britânico chamado Luke Howard. Howard usou palavras em latim para se referir às nuvens, de modo que:

– “Cirrus”, que significa tufo de cabelo;

–  “Cumulus”, que significa amontoado;

– “Stratus”, que significa camada;

– “Nimbus”, que significa chuva

Esses nomes em latim são utilizados até hoje para classificar as nuvens. Em algumas situações, esses nomes aparecem juntos.

A classificação proposta por Howard foi popularizada por ninguém menos que Goethe, o escritor alemão que tinha as Ciências como inspiração na escrita de suas narrativas e poemas. Goethe começou a se corresponder com Howard e fez até poesia com os nomes das nuvens.

Ao longo do século XIX esse sistema de classificação de nuvens foi se estruturando e no século XX foi criada a Organização Meteorológica Mundial (OMM), que padroniza várias atividades realizadas na observação meteorológica. A OMM possui um Atlas Internacional de Nuvens que é publicado em novas edições periodicamente, com imagens e descrições que ajudam os observadores meteorológicos a classificarem as nuvens.

Atualmente, o Atlas Internacional de nuvens apresenta 10 gêneros básicos de nuvens (seus prenomes) algumas dezenas de combinações de espécies e variedades de nuvens (que vamos chamar de sobrenomes).

A nuvem da Turquia é uma nuvem Altocumulus lenticularis (Altocumulus seria o prenome e lenticularis seria seu sobrenome). O sobrenome da nuvem é sempre escrito em letras minúsculas e o prenome é escrito com a primeira letra usando letra maíuscula. Pode parecer preciosismo, mas dentro da comunicação científica é importante manter uma padronização internacional. É como o Sistema de Classificação de Espécies, proposto por Lineu no século XVIII e que foi aperfeiçoado e padronizado e é usado até hoje na Biologia.

O nome lenticularis vem de lente, pois remete à aparência da nuvem, que se assemelha à uma lente. Pelos portais de notícia vocês devem ter lido apenas o termo nuvem lenticular, que é uma maneira popular de se referir à nuvem.

Nuvens lenticulares se formam em ambientes linearmente estratificados, ou seja, em camadas. A atmosfera forma camadas de ar de diferentes densidades, mas nós não conseguimos enxergar essas camadas, já que o ar (a mistura de gases que compõe a atmosfera) é invisível.

Em circunstâncias normais, essas camadas permanecem separadas. Mas se uma obstrução ou obstáculo (como uma montanha) se estende por várias dessas camadas, o ar de baixo pode ser forçado para cima, interrompendo o ambiente perfeitamente estratificado. Isso ocorre quando os ventos mais próximos do solo empurram parcelas de ar em direção ao terreno ascendente da montanha, de modo que elas não têm outra opção a não ser subir também.

Como o ar próximo ao solo normalmente retém mais umidade do que o ar acima dele, essa parcela de ar que foi forçada a subir acaba sendo mais úmida que o ar circundante no alto da montanha. E como as temperaturas do ar esfriam com a altura, essa parcela de ar pode ser resfriada até seu ponto de orvalho à medida que sobe. Quando isso acontece, ocorre a saturação e a nuvem se forma.

Mas a influência da montanha não dura para sempre. Depois que a parcela de ar passa sobre a montanha, ela desce para o outro lado e volta ao seu nível de altura original, aquecendo, secando e dissipando a nuvem. Assim, a nuvem está presente apenas sobre o topo da montanha e apenas a favor do vento, formando essa nuvem em forma de chapéu ou de lente que geralmente é circular.

Mesmo que as nuvens lenticulares pareçam permanecer estacionárias no topo da montanha, elas são formadas em ambientes com muito vento, já que é necessário existir vento para forçar a parcela de ar montanha acima.

Se vocês pesquisarem, verão vários exemplos de Altocumulus lenticularis em diversas montanhas pelo mundo. O Monte Rainier, que fica nos Estados Unidos, e no Monte Fuji, que fica no Japão, são exemplos de lugares em que esse tipo de nuvem se forma com bastante frequência. É possível até que nuvens lenticulares muito tênues se formem no Monte Olympus, em marte.

A cidade de Bursa, na Turquia, fica localizada aproximadamente 30km ao sul da cidade de Istambul. Está localizada aos pés do Monte Uludag, que tem uma altitude de 2543m. Ou seja, a presença dessa montanha em Bursa favoreceu a ocorrência de nuvens.

Outro ponto a se colocar é que a aparência das nuvens tem também relação com a posição do observador com relação à nuvem, além da hora de ocorrência. Em Bursa, percebemos um alaranjado ou avermelhado, pois a nuvem se formou ao nascer do sol. Vocês vão encontrar por aí nuvens lenticulares bem branquinhas, que provavelmente foram fotografadas a uma distância maior e no meio do dia.

Fontes:

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