As bem-aventuranças modernas

Talvez o Sermão da Montanha seja sobre Jesus abençoando de modo extravagante as pessoas ao redor dele naquela montanha, a quem o mundo dele – assim como o nosso – não pareciam ter muito tempo para lidar: gente ferida, gente que trabalha pela paz em vez do lucro, gente que exercita a misericórdia em vez de vingança.
Talvez Jesus estivesse simplesmente abençoando aqueles à volta dele que não haviam sido abençoados de qualquer forma, e que acreditavam que, para eles, bênçãos eram como cartas fora do baralho. Pensem comigo: isso não soa como algo que Jesus faria? Lançando bênçãos de modo extravagante como se elas fossem frutas maduras nas árvores?
Então, eu imagino Jesus de pé, no meio de nós, oferecendo algumas novas bem-aventuranças:
Bem-aventurados são os agnósticos.
Bem-aventurados são os que duvidam. Aqueles que não tem certeza e que ainda podem ser surpreendidos.
Bem-aventurados são aqueles que estão empobrecidos espiritualmente e, portanto, não tem tanta certeza sobre tudo a ponto de não aceitarem nenhuma nova informação.
Bem-aventurados são aqueles que não tem nada a oferecer. Bem-aventuradas as crianças pequenas que furam a fila da Eucaristia. Bem-aventurados são os pobres de espírito. Vocês são do céu e Jesus os abençoa.
Bem-aventurados aqueles para quem a morte não é uma coisa abstrata.
Bem-aventurados aqueles que enterraram a quem mais amavam, e cujas lágrimas poderiam encher um oceano.
Bem-aventurados aqueles que amaram o suficiente para saber o que a perda significa.
Bem-aventuradas as mães cujas gestações não se completaram.
Bem-aventurados aqueles que não tem mais o luxo de ter as coisas como garantidas.
Bem-aventurados aqueles que não podem desmoronar porque tem que ficar firmes para todos os outros.
Bem-aventurados aqueles que “ainda não superaram”.
Bem-aventurados aqueles que lamentam. Vocês são do céu e Jesus os abençoa.
Bem-aventurados aqueles que ninguém nota. Os jovens que sentam sozinhos na hora do lanche do recreio. Os lavadores de roupas nos hospitais. As prostitutas e aqueles que limpam as ruas no turno da noite.
Bem-aventurados os esquecidos. Bem-aventurados aqueles que estão no armário.
Bem-aventurados os desempregados, aqueles que não se destacam, os sub-representados.
Bem-aventurados são os jovens que tem que dar um jeito para esconder os novos cortes em seus braços.
Bem-aventurados os mansos.
Vocês são do céu e Jesus os abençoa.
Bem-aventurados são aqueles falsamente acusados, aqueles que nunca tem uma pausa, aqueles cuja vida é difícil, pois Jesus escolheu se cercar de pessoas que nem vocês.
Bem-aventurados são os imigrantes sem documentos. Bem-aventurados são aqueles pra quem ninguém faz lobby no Congresso.
Bem-aventuradas são as crianças adotadas, as que precisam de educação especial e todas as crianças que só querem se sentir seguras e amadas.
Bem-aventurados aqueles que fazem péssimas decisões comerciais visando o bem de outras pessoas.
Bem-aventurados os assistentes sociais esgotados, os professores sobrecarregados e os advogados que aceitam defender clientes sem cobrar nada.
Bem-aventurados os atletas de bom coração e as esposas-troféu que arrecadam dinheiro para boas causas.
Bem-aventuradas as crianças que se colocam entre os valentões e as crianças vulneráveis. Bem-aventurados aqueles que já ouviram que foram perdoados.
Bem-aventurados todos que me perdoaram quando eu não merecia.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles realmente entenderam.
Eu imagino Jesus em pé aqui, abençoando a todos nós porque eu creio que esse é o caráter do Senhor. Afinal, foi Jesus quem teve todos os poderes do Universo a seu dispor mas não considerou sua igualdade com Deus Pai algo que ele pudesse explorar. Ao invés disso, Ele veio até nós do jeito mais vulnerável o possível, como um recém-nascido de carne e osso, impotente. É como se Ele dissesse: ‘Vocês podem odiar seus corpos, mas Eu abençoo todas as pessoas e seus corpos. Vocês podem admirar o poder e a força, mas Eu abençoo todas as fraquezas humanas. Vocês talvez busquem poder, mas Eu estou abençoando a vulnerabilidade humana.” Este Jesus a quem nós seguimos chorou diante do túmulo de seu amigo, deu a outra face e perdoou àqueles que o penduraram numa cruz. Porque ele *era* a Bem-aventurança de Deus – a bênção de Deus aos fracos em um mundo que só admira os fortes.
Deus os abençoe.
Notas:
- Fonte: https://nadiabolzweber.substack.com/p/blessed-are-the-agnostics
- O texto apresentado no post é uma tradução do texto da Nadia Bolz-Weber, que indiquei anteriormente. A tradução foi feita pelo amigo Cedric Graebin, do TeoLabCast. Agradeço também por ter ele ter permitido a publicação de sua tradução aqui no Meteorópole.
- Fonte da imagem de abertura do post: Pixabay
- O texto foi originalmente narrado por mim lá no TeoLabCast, no zip 22.
