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Quando um pastor resolve dar sua opinião

Talvez alguém apareça aqui nesse texto e me conte que não consegue embasar a opinião de que o Jimin é o mais charmoso do BTS, porque paixão é algo que simplesmente acontece. Mas eu também sei que se a gente conversar sobre o Jimin você terá mil coisas bonitas para falar sobre ele,que respaldariam sua opinião. Você talvez tenha um arsenal de fotos lindas e notícias que mostram que o astro é super simpático e gentil. E se alguém criticar Jimin duramente, você vai ter vários argumentos para mostrar o contrário. Você talvez não saiba, mas está tentando basear sua opinião de que o Jimin é maravilhoso.

Não sou army, mas conheço muita gente que é, então resolvi fazer desse caso um exemplo e para tornar o post mais leve. Além disso, tem opiniões que não necessitam justificativa, porque são coisas muito pessoais, particulares e que envolvem muitas sutilezas. São opiniões que não contrariam os Direitos Humanos, não ameaçam a Democracia, não prejudicam o tratamento de saúde de alguém, etc. É nessa categoria que está dizer qual sua cor favorita, qual sua comida favorita, qual seu astro de rock favorito, qual seu BTS favorito, etc.

O que vou falar a partir de agora é sobre opiniões irresponsáveis, que são opiniões que atacam os Direitos Humanos, ameaçam a democracia, prejudicam o tratamento de saúde de alguém, etc. Vou usar como exemplo algo que vivenciei recentemente. Dia desses, uma pessoa da minha família criou um post todo chamativo no Facebook para afirmar que as eleições haviam sido fraudadas.

Essa pessoa é um homem branco de meia idade, mora em um país onde o Brasil exerce um certo domínio ou poder geopolítico e para completar o quadro, ele é pastor. Os leitores talvez já tenham compreendido que o que esse homem fala de fato tem um poder de influência sobre muita gente. Entretanto, ele não apresentou qualquer fonte para justificar sua afirmação. Ele provavelmente acha que nem precisa disso.

Eu tenho certeza que pessoas que seguem meu parente vão repetir por aí o que ele disse simplesmente porque foi ele quem disse. Não vão verificar as fontes e nem nada. É uma enorme irresponsabilidade da parte de meu parente, pois como disse Stan Lee na voz do Homem Aranha: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades“.

A gente aprende desde cedo que quando desejamos fazer uma acusação, precisamos de provas. Lembro uma vez na escola, quando sumiu o chocolate de uma amiguinha e todos acusaram um outro amiguinho. A professora disse que nós não tínhamos como provar e não deveríamos acusá-lo. Eu nem lembro o desfecho da história, mas lembro da lição. E se não temos provas sobre o que estamos acusando, estamos cometendo o crime de falso testemunho (artigo 342 do Código Penal Brasileiro). Se você é pastor, você deveria saber que além de crime é pecado (Êxodo 20:16 e 23:7, Lucas 3:14, etc). E esse negócio de pecado parece ser um buraco mais embaixo do que crime, porque é pra se entender com Deus. Tem também aquela história do pai da mentira

Em Ciências, nós aprendemos a provar o que estamos afirmando. E a mostrar todo a metodologia quando vamos publicar um estudo, porque seu estudo precisa ser reprodutível. Reprodutibilidade significa que se um cientista de outra instituição resolver fazer um estudo semelhante ao seu, ele vai ter que conseguir e os resultados precisam ser semelhantes. Se não forem semelhantes, o que aconteceu? Algum erro de metodologia? Alguém se enganou? Esse engano foi deliberado ou foi acidental? Por isso a reprodutibilidade é um dos pilares do método científico. E claro, se você afirma algo muito grandioso no seu texto científico, precisa dizer de onde veio essa afirmação. Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, já disse Carl Sagan.

O que quero dizer? Assim como no método científico, quando vamos dar nossas opiniões, precisamos ser transparentes. Precisamos falar de onde tiramos aquela afirmação. Quem disse, onde disse, por que disse e como disse? E precisamos também estar abertos a críticas (como na Ciência). Sim, eu posso criticar sua fonte. Sua fonte é enviesada? Ou você só escolheu essa fonte apenas porque ela corrobora com o que você já acredita?

Nós não sabemos ouvir críticas e não sabemos criticar. Precisamos perder o medo e praticar as duas artes. Não é preciso sair criticando todo o feed do seu Facebook (eu nem recomendaria), mas critique para você. Com seus amigos, em um espaço seguro. Se a opinião te atinge diretamente, critique sim.

Imagine, será que um pastor está acostumado a ouvir críticas? A igreja o blinda, o coloca como supremo ungido do Senhor. Quem criticá-lo, automaticamente está fora da bênção ou qualquer ameaça que inventem, dependendo da denominação e da clientela. O sistema eclesiástico é todo moldado de uma forma a evitar críticas ao pastor. Por muito tempo frequentei uma igreja cujo pastor só ia para o púlpito na hora da pregação. Ele aparecia lá no alto, como a estrela da noite dando sua palestra.

Por isso é tão perigoso ver um pastor dando suas opiniões não-embasadas e que ameaçam a democracia. As pessoas simplesmente acreditam nele. E quem tenta ser mais racional, não consegue argumentar. E fica doente e cansado, porque tenta mostrar para o crédulo que ele está errado. E não consegue. E é ofendido. E a tal história de jogar xadrez com pombos…

Termino com as frases de duas pessoas incríveis:

Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.

Carl Sagan

Inteligência e fanatismo não moram na mesma casa

Ariano suassuna

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