Cansada mais uma vez: a intolerância e o pensamento anticientífico

Acho que todas as mães estão fisicamente e psicologicamente cansadas nessa pandemia. A essa altura, já se foram mais de seis meses de aulas online e crianças em casa o tempo todo. É uma situação bem difícil de administrar e é bem difícil manter a calma.
Enquanto escrevo, estou rapidamente fazendo um balanço do que eu sonhava para 2020 e do que 2020 se tornou. Eu realmente acreditei que em 2020 eu poderia estudar mais e me dedicar mais aos meus projetos, porque meu filho mais novo iria começar a escola. Quando as coisas estavam engrenando, com ele acostumado à escola, veio o fechamento.
Até agora eu já vivi todos os sentimentos possíveis nessa pandemia, uma avalanche de pensamentos e emoções muitas vezes num mesmo dia. Tentei fazer alguns cursos on-line (e fiz, foram bons). Fiquei exausta, me dediquei às artes. E tudo com muito esforço, não pensem que eu esbanjo tempo livre. Geralmente fico fazendo as minhas coisas depois das 22h, que é quando tenho tempo livre para gravar podcasts, escrever, assistir uma série, fazer colagens, etc. Eu faço isso por mim, porque sei que preciso fazer essas coisas para mim para me sentir mentalmente saudável. Mas eu também sei que preciso colocar meus filhos em primeiro lugar, principalmente a essa altura que eles já estão bem fragilizados pela falta de convivência com os amigos, tios e avós.
Eu instalo e desinstalo o app do Twitter freneticamente, essa rede social que me trouxe tantos contatos e oportunidades mas que também contribui para minha ansiedade. Eu fiquei uns 15 dias com ele desinstalado, foi bom. Voltei a instalar e agora tornei a desinstalar. Tem também grupos de WhatsApp que só dão rolo e confusão (mas que preciso me manter neles) e eu já silenciei. Eu estava percebendo que os momentos ruins e sombrios que vivi há alguns meses estavam retornando.
Algo que tem me incomodado muito desde antes da pandemia, porém parece que agora minha impressão se agravou, é a intolerância generalizada. É uma intolerância que como qualquer intolerância tem uma base forte de ignorância. Mas é uma intolerância agravada pela raiva, pelo cansaço, pela falta de esperança. Eu me percebo intolerante e percebo a intolerância nos outros. Tenho acompanhando manifestações de intolerância religiosa por parte de pessoas que nem se dão ao trabalho de conhecer a religião do outro. Fora outras intolerâncias relacionadas com diferentes estilos de vida e opiniões, de um modo geral. Veja, claro que a gente não pode passar pano para opiniões violentas, opressões e preconceitos. Mas eu não tenho que procurar pelo em ovo ou implicar com o outro porque ele tem uma opinião diferente da minha, embora respeitosa.
Tem outra coisa que sempre me incomodou, mas estamos vivendo um momento tão sui generis em que todo mundo que lida com divulgação científica deve também ter notado: é o pensamento anticientífico, que se espalhou muito nos últimos meses. Essa semana li que um dos candidatos à prefeitura de São Paulo disse que a vacina contra o COVID-19 deveria ser testada em pessoas doentes. Também li que o Presidente da República pensa que seria melhor procurar a cura do COVID-19 e não buscar por uma vacina. Ou seja, pessoas em cargos políticos que não sabem como uma vacina funciona. Tudo bem, elas não tem a obrigação de saber, mas elas tem a obrigação de cercarem-se de assessores que possam buscar essa informação e contar-lhes.
Para saber como uma vacina funciona, é preciso procurar informações recomendadas e/ou escritas por membros da comunidade científica que atuam nessa área. Assim como na minha área, digamos, alguém quer saber sobre furacões. Pode chegar aqui no Meteorópole, em outros blogs de pessoas igualmente dedicadas e informadas ou pode buscar em outros lugares, como no próprio NHC. Quanto mais fontes bacanas, bem referenciadas, melhor. E tem que ser assim em qualquer área. Você pode por exemplo começar na Wikipedia, lendo o verbete sobre o assunto e então clicar nas fontes do verbete para saber mais. Um bom artigo tem uma lista de boas fontes, então uma enciclopédia seria um lugar legal para começar.
Meu marido assina a Revista FAPESP e eu também leio e sempre noto o primor com que os jornalistas escrevem os textos, ouvindo especialistas e indicando, ao final de cada reportagem, os estudos científicos publicados pelos autores ouvidos e que tem relação com o tema das reportagens. Ficar bem informada, sem o ruído das redes sociais, é algo que tem me ajudado bastante a controlar a ansiedade.
E é sobre esse ruído que quero escrever também, porque é ele que me incomoda. Se você for uma pessoa bem disciplinada e que segue apenas alguns perfis bem direcionados e confiáveis de informação, provavelmente terá pouco ruído. Mas ainda assim, observe a quantidade de posts e tweets que são publicados diariamente em redes sociais e que poderiam ser condensados em um texto mais bem elaborado ao final do dia ou ao final da semana. Quero dizer, mesmo boas fontes de informação criam ruido, intencionalmente ou não. E eu observei que esse ruído não me faz bem.
Penso que parte do meu sentimento de cansaço tenha relação com esses ruídos e com essa intolerância. Claro que eu já me sinto normalmente cansada, com todas as tarefas e necessidades do cotidiano. Mas eu percebo que essa vida da “informação o tempo todo” tem me feito muito mal, os ruídos estão por todos os lados o tempo todo. Escrever essas coisas me fez mais uma vez repensar a existência de meus perfis em redes sociais. É tão bom poder sentar com calma, ler, escrever, pensar, pesquisar, refletir, colocar em palavras como boa logofílica que sou. As redes sociais passam essa sensação de urgência, a necessidade de correr para estar por dentro do assunto e pegar logo o bonde. É como se não pudéssemos opinar sobre as coisas depois, depois de ler mais a respeito e com calma, depois de refletir, depois de conversar com bons amigos, etc. E prosseguindo ainda mais profundamente: é como se as redes sociais dessem um sentimento de necessidade de opinar sobre tudo e a gente não precisa ter uma opinião sobre tudo, porque tem assunto que não nos interessa ou porque tem assuntos que necessitam de um conhecimento técnico tão aprofundado que eu simplesmente não tenho (e que demoraria bastante tempo para obter).
Eu gosto de me informar. Sempre gostei. Lembro quando meu pai comprava o jornal aos domingos ou trazia as revistas da semana anterior, que iriam ser jogadas no lixo lá no escritório que ele trabalhava. Eu sempre gostei de saber das coisas, mas eram como eu disse anteriormente: textos escritos, pensados, após o desenrolar dos acontecimentos. Acho que não está me fazendo bem saber das coisas que não tem relação direta comigo no exato momento em que elas acontecem. Eu acredito que preciso mudar minha relação com a informação.
Radar Meteorópole
- Participei de uma live do Teolabcast em que falamos sobre teorias da conspiração gospel, que são aquelas que se propagam no interior das comunidades evangélicas. É engraçado, porém preocupante. Foi live, mas a gente tem salvo lá no canal do Youtube.
- E por falar em live, há pouco mais de um mês participei de uma live do Projeto Redomas e nós falamos de slowblogging. Como tem tudo a ver com o que escrevi, deixo o link para vocês acompanharem. Participar dessa live foi muito importante pra mim, pois gerou reflexões durante e depois da participação. E o link para ouvir está aqui.
- Sigam meu perfil de colagem lá no Instagram, onde apresento um pouco das coisas que estou fazendo com papel: junk journal, verse journal e coisas relacionadas.
- Carência afetiva e dependência emocional. Post excelente de Psicologia lá do Monolito Nimbus. Como mãe, gostei muito do texto porque resgata as raízes da questão, falando da Teoria do Apego na primeira infância. Um texto extremamente informativo.
- Texto da Sybylla sobre os blogs. Andam dizendo por aí que eles vão voltar e que a tal era de ouro dos blogs pode ressurgir. Será? Os blogs sempre estiveram por aí e continuam firmes e fortes, temos o Meteorópole e o Momentum Saga como exemplos de que isso é verdade.
