As enchentes na Líbia e um termo meteorológico novo: medicane

Em 10 de setembro de 2023, uma tempestade de baixa pressão trouxe fortes chuvas ao nordeste da Líbia, causando inundações mortais e devastação em cidades ao longo da costa do Mediterrâneo.
Na costa da região líbia de Cirenaica, a localidade de Al Bayda registou 414mm de chuva num dia. Perto dali, a cidade portuária de Derna recebeu mais de 100mm durante a tempestade, o que excede em muito a precipitação média mensal da cidade em setembro, de menos de 1,5 mm.
Derna fica no final de um vale longo e estreito que fica seco durante a maior parte do ano. As inundações provocaram o colapso de duas barragens, o que carregou água e lama para a cidade. De acordo com reportagens, as enchentes destruíram estradas e bairros inteiros.
As águas mediterrâneas estão muito quentes desde julho e isso refletiu nas ondas de calor na Europa que foram noticiadas nos últimos meses. Há anomalias de mais de +5ºC na Temperatura da Superfície do Mar: ou seja, estão mais quentes que a média.

Essas águas mais quentes que a média contribuíram para o desenvolvimento de um sistema de baixa pressão que o serviço meteorológico grego (o Serviço Meteorológico Nacional Helênico – Εθνική Μετεωρολογική Υπηρεσία – EMY) denominou Tempestade Daniel. Essa tempestade inundou partes da Grécia, Turquia e Bulgária. À medida que a tempestade se aproximava da Líbia, desenvolveu características de um ciclone tropical, ou “medicane”, com ventos medindo cerca de 70km/h a 80km/h.
O que são medicanes?
Medicane é a junção da palavra Mediterranean + hurricane. Ou seja, um furacão (ciclone tropical) no Mediterrâneo. Só que os medicanes são diferentes dos furacões do vizinho Oceano Atlântico. Eles são menores e duram menos tempo, porque no Mar Mediterrâneo temos uma limitação espacial.
Os furacões no Oceano Atlântico começam sua vida na costa da África, como um distúrbio tropical. A medida que se deslocam com a rotação da Terra, vão chegando próximos das águas quentes do Golfo do México e ganham força, podendo evoluir até o estágio de furacão. Esse processo todo pode durar mais de 1 semana, já que os furacões tem bastante espaço para se deslocarem pelo Atlântico sem trombar com nenhuma porção de terra.
No entanto, lá no Mediterrâneo há menos espaço. Isso faz com que os medicanes se formem e rapidamente atinjam uma porção de terra. Além disso, a limitação espacial também faz com que os medicanes sejam menores que os furacões (geralmente metade do tamanho).
De acordo com a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), apenas um ou dois medicanes se formam por ano.
Observações finais
Em 13 de setembro, as autoridades ainda conduziam operações de busca e salvamento na região. Derna ainda estava praticamente inacessível, tornando difícil avaliar o impacto total da inundação. Notícias que li falam em mais de 20 mil mortos.
A Líbia é um país que vive uma grande instabilidade política. Após a morte de Gaddafi, grupos rivais reivindicam a liderança do país. Esse quadro de instabilidade sem dúvida dificulta operações de resgate e de ajuda externa.
Fontes
Além do que já foi colocado como link ao longo do texto:
