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Previsão de calor extremo para o Brasil no final de setembro de 2023: domo de calor

Quem mora no Centro-Sul do Brasil já sabe que lá pro final de agosto e setembro – um pouco antes da estação chuvosa chegar de fato – , o calor é muito intenso! Os recordes de temperatura em São Paulo-SP, por exemplo, geralmente ocorrem em setembro e outubro.

Trabalhei muitos anos na Estação Meteorológica do IAG-USP e a última vez que essa tabela foi atualizada por mim, o recorde absoluto de temperatura de acordo com os registros dessa estação era de 37,2ºC em 17 de outubro de 2014. Eu tenho quase certeza que esse recorde foi quebrado anos depois, já que 2020 por exemplo foi um ano bastante quente também.

O que quero dizer é que podemos encontrar temperaturas máximas mais altas durante o outono e no começo do verão e não no alto verão (janeiro ou fevereiro), como talvez o senso comum nos levaria a acreditar. Estou falando do Centro-Sul do Brasil, só pra deixar claro!

Isso ocorre porque durante o verão, temos muita nebulosidade e muitas chuvas, principalmente no período da tarde. Isso faz com que a temperatura máxima (que acontece geralmente no período da tarde) não suba tanto durante os dias de verão mais chuvosos.

Após introduzir o assunto, vamos falar do calor extremo que está previsto para o final de setembro de 2023 em boa parte do Brasil. Observe abaixo a previsão do modelo europeu, ou seja, o modelo do ECMWF (European Centre for Medium-Range Weather Forecasts – Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo):

A imagem apresenta uma previsão de temperatura próxima da superfície, mostrando que boa parte do território brasileiro apresentará temperaturas acima de 40ºC. Observem que em rosa mais claro aparecem áreas no Tocantins, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e oeste de Minas Gerais. Nessas regiões a preocupação é ainda maior, pois as temperaturas podem subir ainda mais.

A previsão exibida na imagem é para o período de 17 a 25 de setembro. Ou seja, ao longo desse período poderemos ter recordes absolutos de temperatura no Brasil. Quando escrevi esse post sobre recordes há alguns anos, o recorde absoluto de temperatura no Brasil era 44,7ºC em Bom Jesus-PI no dia 21/11/2005. Só que estamos vivendo o aquecimento global e recordes são quebrados a todo momento no século XXI: eu soube que a maior temperatura já registrada no Brasil é de 44,8ºC em Nova Maringá-MT nos dias 4 e 5 de novembro de 2020. Com essa onda de calor, esse recorde e outros recordes estaduais poderão ser quebrado.

O que temos que deixar bem claro aqui é a importância de manter a hidratação e evitar atividades físicas entre às 10h-16h, período mais quente do dia. Se você puder, reforce isso na escola de seus filhos, no clube que você frequenta, em seu local de trabalho e em seu condomínio. Mande meu texto e também essa matéria do MetSul para as pessoas entenderem o quanto isso é sério. Calor extremo pode matar!

Alguns portais de notícias tem usado o termo domo de calor para se referir à essa situação prevista pelo ECMWF e outros modelos meteorológicos.

Efeito domo de calor

Um domo de calor (em inglês, heat dome) ocorre quando uma área de alta pressão fica sobre a mesma região por vários dias e até por várias semanas. O ar quente fica preso dentro dessa área, que atua como se fosse um domo, uma tampa. Áreas de alta pressão são locais onde o ar tem dificuldade para subir, ou seja, são áreas onde a formação de nuvens é dificultada.

Quando observamos a imagem que abre esse texto (a previsão do ECMWF), podemos observar que a área mais quente está entre o Paraguai e o Centro-Oeste do Brasil. Dizemos que esse é o centro desse domo de calor.

Quando massas de ar quente se elevam verticalmente na atmosfera, elas criam uma área de alta pressão que desvia sistemas meteorológicos, como frentes frias, ao seu redor. À medida que esse sistema de alta pressão se estabelece em uma determinada região, o ar abaixo aquece a atmosfera e dispersa a cobertura de nuvens. Durante o verão, o ângulo elevado do sol, juntamente com um céu claro ou com poucas nuvens, intensifica ainda mais o aquecimento do solo.

Há estudos que indicam que o aquecimento global está aumentando a frequência e a intensidade dos eventos domo de calor, empurrando-os para altitudes mais elevadas na atmosfera, “como se adicionássemos mais ar quente a um balão já aquecido” (conforme foi muito bem pontuado pela Estael Sias da MetSul). A consequência disso é que estamos vivenciando ondas de calor mais intensas, que duram mais tempo e ocorrem com maior frequência, tanto no Brasil quanto em todo o mundo. Um exemplo notável foi a onda de calor histórica no final de junho de 2021 no Oeste da América do Norte, causada por um grande domo de calor, que quebrou muitos recordes de temperatura máxima, com diferenças significativas em relação aos registros anteriores, algo sem precedentes no histórico de observações.

Em outras palavras: o tal domo de calor é um fenômeno que já acontecia antes de termos alterado o clima em escala global. Ocorre que agora que estamos aprisionando mais calor na atmosfera em decorrência da presença de gases de efeito estufa, a frequência e a duração de eventos do tipo domo de calor poderá ser maior.

Relação com o El Niño

Estamos vivendo condições de El Niño e como comentei anteriormente, esse fenômeno favorece a presença de uma área de alta pressão sobre a Região Norte e Região Nordeste. Portanto, o domo de calor e o El Niño podem estar relacionados.

Sensação de calor

Precisamos lembrar que o que medimos no termômetro é diferente daquilo que experimentamos em nossos corpos. Quando falamos de sensação de frio, usamos a expressão sensação térmica. Por outro lado, quando nos referimos ao calor usamos a expressão índice de calor. Também falei sobre índice de calor quando escrevi sobre a metodologia do exército norte-americano para avaliar o calor durante exercícios militares.

Importante!

Além do que coloquei como hiperlink ao longo do texto, cabe destacar:

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3 Comentários

  1. O chaaaato voltou.

    O link para a sua tabela da Estação IAG apresentou erro. Parece que tem um caracter (%5d = ]) no final.

    De resto um texto ótimo.
    Continuo a aprender meteorologia com você.

  2. Aqui no Sul já tivemos diversos dias de calor fora do normal, e os ciclones estão literalmente acabando com várias cidades, quando o vento não atinge diretamente, joga tanta chuva que inundou dezenas de cidades

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