Como a interpretação literal da Bíblia atrapalhou toda a minha vida

Antes de escrever, eu gostaria de pedir que você escreva comentários nesse post apenas se você se identificar comigo e entender o que quero dizer. Comente se você também se sente ferido pela igreja.
Comentários agressivos, evangelizadores, blablabla teológico opressor e coisas semelhantes serão completamente ignorados.
Eu sei que preciso deixar esse aviso no início desse tipo de texto.
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Uma das cenas da minha infância que lembro bem é de meu avô, um homem muito íntegro e carinhoso, ensinando histórias de Gênesis. Ele tinha uma oratória perfeita e era um homem muito culto.
Ele mostrava imagens muito bonitas de um livro onde nós víamos o Paraíso, animais, Adão e Eva, etc. E claro, aquilo era ensinado de maneira completamente literal: Adão e Eva de fato existiram, assim como aquele jardim e todo o resto. Noé, claro, também existiu, assim como toda a arca repleta de animas, 40 dias navegando, homem de 600 anos, etc.
Meu avô foi o primeiro. Mas as professoras da Escola Dominical também repetiam isso. Demais parentes também. E eu, naquele anseio infantil em ser aceita e amada, acreditei em tudo. E foi muito fácil num primeiro momento, pois tudo era lindo: natureza, animais, ira de Deus, pessoas se afogando …. opa. Não muito tempo depois comecei a questionar a literalidade dessas coisas, mas eu tinha que ter fé e ter fé significava acreditar que seres humanos viviam mais de 600 anos e que o planeta foi criado em 7 dias.
Os anos passaram e novas informações me atingiram. Dinossauros? Milhões de anos? Bilhões de anos? Como assim todos os animais numa arca? Deus matou todo mundo afogado e só livrou a família de Noé – matou até as crianças das outras famílias? E com a leitura de outros livros bíblicos, outras dúvidas: o cara fez o Sol parar? Umas crianças foram devoradas por um urso só porque zoaram a careca do cara? Homem sobrevive depois de engolido por peixe grande (parece manchete do The Sun)?
Dentre outras coisas.
Estava ficando cada vez mais difícil acreditar que essas coisas aconteceram de verdade. Um bichinho chamado Ciências me picou e eu fique encantada. E esse bichinho faz a gente pensar cada vez mais. E a Bíblia literal parou de fazer sentido.
Não podia ser mitologia? Comecei a ler sobre mitologia grego-romana com uns 13 anos e pensei: Golias é um ser mitológico e deram uma inflada no negócio de Davi. Talvez quisessem mostrar que uma pessoa pequena, com muito esforço, pode vencer grandes dificuldades. Talvez fosse uma história inventada só para ensinar uma lição, como Jesus fazia ao ensinar as parábolas.
Eu não podia conversar essas coisas com as pessoas. Não podia falar sobre isso com meus tios. Não podia falar sobre isso com os irmãos da igreja.
Você está deixando o mundo entrar em você
Você está endemoniada.
O conhecimento dos homens confunde a gente.
Você não tem fé.
Todas as coisas que fariam com que eu me sentisse inadequada, deslocada. Eu ficava quieta porque não queria ouvir essas coisas. E eu sabia que ouviria. Não queria ficar desamparada, sem um grupo. Eu queria que minha avó tivesse orgulho de mim.
Eu fui me fechando e vivendo uma vida dupla na qual eu fingia acreditar. Hoje sei que isso me fez muito mal. Entendo a dor de quem passa por coisa muito pior do que isso para continuar sendo aceito pela família. Como a dor dos homossexuais, que vivem no armário e apresentam a pessoa amada para a família como se fosse apenas um amigo. Elas precisam negar uma parte essencial de suas vidas para se sentirem amadas pela família. Claro que meu caso não tem a mesma magnitude (não quero comparar nada na balança e estou apenas ilustrado), mas eu entendo uma pequena fração da dor.
Ocorre que não dá pra viver essa vida dupla plenamente pra sempre. A dissonância cognitiva mina nossa compreensão de todas as coisas do mundo. A história de fingir acreditar que várias partes bíblicas eram de fato literais me fez talvez acreditar que de fato eram: a razão e a estultícia se entranharam. Uma pessoa que merece parar no esgoto da História disse: “uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”. Eu nem queria citá-lo, mas o contexto é justamente manipulação das massas e paralelos são inevitáveis.
Ate hoje eu tenho dificuldades de entender poemas, obras de arte, figuras de linguagem ou enigmas. Pensar de maneira abstrata pode ser muito complicado pra mim. Quando eu tinha 14 anos, participei de uma peça de teatro na escola. A peça de teatro contava a história de uma princesa que derrotava o dragão que a aprisionava e então poderia viver livre e sozinha. Na época, eu não tinha condições de ver a mensagem importante dessa peça, que é bastante óbvia. Essa dificuldade certamente veio em parte da literalidade que me empurraram ao longo da vida.
Conforme fui ficando mais velha, cheguei a participar de estudos bíblicos em grupo e de palestras com pessoas tipo Adauto Lourenço que queriam mostrar que os cientistas mentem e apenas eles, pessoas muitas vezes com currículo questionável, poderiam nos mostrar de que haviam sim evidências científicas que provariam que Terra tinha menos de 10 mil anos. Ouvi pérolas bizarras como “dinossauros não foram salvos do dilúvio pois não cabiam na arca” ou “havia uma camada de água bem fininha em torno da Terra e ela caiu toda no dilúvio”. Era uma quantidade enorme de justificativas inventadas para atestar que o livro de Gênesis era completamente literal. Perder meu tempo com toda essa porcaria me fez deixar de ler livros importantes (que li depois), como livros de Carl Sagan, Stephen Hawking e outros divulgadores científicos.
Hoje eu entendo que minha fé não depende desses calços mentirosos e mal feitos que só servem para manipular as pessoas e fazer com que elas acreditem em qualquer coisa. Sabe Terra plana? Se a pessoa acredita nisso e faz parte de grupos com essa temática, o Facebook começa a recomendar grupos com teorias da conspiração de chip em vacina e outras aberrações. A Terra plana é um agente balizador. Acreditar que a Terra foi criada em 7 dias também: se o pastor te convence disso, te convence que uma pessoa como Bolsonaro pode ser um presidente decente.
Eu acredito em Jesus Cristo e não fico refletindo sob as circunstâncias de sua concepção ou seu aspecto divino. A figura de Jesus me inspira, porque me faz querer ser uma pessoa melhor todos os dias. Quando leio os Evangelhos, eu me sinto inspirada a querer viver de uma maneira diferente. O que Ele fez e o que Ele ensinou, norteiam minha vida. É isso que importa pra mim. Dessa maneira, Jesus me salva todos os dias.
E quando compreendi a beleza das diversas camadas de uma história, entendi como ela pode ser inspiradora, não precisa ser uma história literal. Eu adoro a história da arca de Noé, sempre conto aos meus filhos. Conto que foi uma história inventada lá no passado pra nos divertir e nos ensinar alguma coisa, como a história da Chapeuzinho Vermelho. A história da Chapeuzinho Vermelho serve pra ensinar que, por exemplo, crianças não devem falar com estranhos. A história da arca de Noé mostra a persistência de um homem idoso, o cuidado com os animais, a confiança e a esperança. O arco-íris representa a diversidade e a esperança para todos, por isso acho maravilhoso que seja o símbolo do movimento LGBTQIA+. Além disso, negar a história da Arca de Noé aos meus filhos é impedir que eles conheçam parte da cultura ocidental na qual estamos inseridos. Não nego livros ou histórias, apenas problematizamos juntos.
Ao longo de minha adolescência, perdi momentos onde eu poderia extrair camadas e mais camadas interessantes de histórias que li. Mas eu aprendi anos depois, eu tive oportunidade e sou grata por isso. Hoje posso encher a boca e dizer que eu sou sim de Jesus, porque ele aceita quem quiser sentar na mesa dele (e nem precisa morar junto pra sempre, pode passar quando quiser só pra dar um oi e morar em outra casa). Posso encher meu peito e dizer que tenho fé sim e que é o que está segurando meus caquinhos nessa pandemia. Essa fé gostosa que me dá esperança, sim, eu tenho. Não preciso das mentiras antigas que me empurraram.
Emancipate yourselves from mental slavery
Redemption Song – Bob Marley
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy
‘Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look? Ooh
Some say it’s just a part of it
We’ve got to fullfil the book

Fico triste pelo que você passou. Eu leio a Bíblia. E tenho pontos de vistas diferentes do que as igrejas ensinam. Por meio de provas que eu mesmo fui atrás, posso lhe dizer que tenho certeza de que a Bíblia e a ciência se harmonizam. Mas é preciso olhar mais a fundo pra ver isso. E fazer o que você faz: questionar sempre! Isso é importantíssimo! Nuca parar de questionar. Parabéns.
Eu discordo que a Ciência e a Bíblia se harmonizam. A não ser que você faça uma interpretação muito subjetiva e entender que muitos pontos se tratam de mitos.
Obrigada pelo comentário.
Como me identifiquei com seu texto! Cada palavra, cada parágrafo! Jesus veio mostrar aos homens através das parábolas, uma nova forma de se relacionar com o divino.
Marisa, querida!
Que legal ver você por aqui, fiquei muito feliz.
Sintetizou tudo, concordo contigo. Jesus era um grande professor, uma inspiração pra gente.
Beijos
Minha orientadora era da Igreja Presbiteriana e alguns alunos evangélicos perguntavam a ela sobre o “conflito” entre ciência e religião e como ela conciliava a vida de cientistas e de crente. E ela dizia que não havia conflito. O conflito veio de pessoas que não entendiam como a ciência funcionava e achavam que ela era uma oposição à crença no divino. E que ela conseguia ver a beleza da criação em cada fóssil que encontrava.
Nem todo aluno aceitava essa explicação, é claro, mas ela ao menos mostrava que para ela não havia conflito.
Entendo o que você passou. Tive problemas semelhantes em fé e ciência. Aliás entre fé e fé – por exemplo não acho que Judas Iscariotes seja o tão grande traidor, sem ele não teríamos Jesus.
E uma pequena correção: o símbolo não é o arco-íris mas uma bandeira com 8 faixas de cores. Elas representam as 8 estruturas sexuais – macho / fêmea no aspecto biológico- que seriam hetero, homo, bi e asexual. Como acharam difícil fazer com 8 faixas mudaram para 6.