Dra Gladys West – uma das mentes por trás do GPS

Nesse mês de março, mês das mulheres, eu pensei em escrever sobre uma cientista que obteve reconhecimento apenas mais tarde em sua vida, quando já estava aposentada e curtindo seus netinhos. Estou falando da Dra. Gladys West, cuja história está presente na autobiografia It Began With a Dream. Eu gostaria muito que esse livro fosse traduzido para o português, para que a história da Dra. West alcance ainda mais pessoas.
Gladys Mae Brown nasceu em uma pequena comunidade rural da Virginia, EUA. Sua família possuía poucos recursos. Plantavam tabaco para vender e tinha horta, tinha criação de animais, essas coisinhas que muitos do brasileiros que também tiveram sua infância na roça conhecem bem. Sua família era bem estruturada, com pais muito éticos e trabalhadores que lhe ensinaram os valores e habilidades necessários para viver em um mundo desigual e injusto.
Ela nasceu em 1930 num país oficialmente segregado, o que significa que Gladys, uma menina negra, não podia conviver com crianças brancas e nem ter as mesmas oportunidades. Ela estudava em uma escola precária, com apenas uma sala, onde alunos de várias idades estudavam juntos. A professora, também negra, era sobrecarregada e ganhava menos que os professores brancos. Muito aplicada nos estudos, ao longo dos anos os professores perceberam que ela poderia ir para a Universidade. Sua dedicação rendeu frutos e ela conseguiu uma bolsa para cursar Matemática na Virginia State University (VSU).
A bolsa pagava os cursos na Universidade, mas não a moradia. Seus pais se esforçaram para pagar a moradia universitária no primeiro ano, porém em seu segundo ano de universidade ela foi acolhida por uma de suas professoras, a Dra Louise Hunter, a primeira mulher negra a se graduar na University of Virginia (UVA). Essa professora lhe deu um emprego e moradia, enquanto Gladys concluía sua graduação. Ao longo de sua biografia, Dra. West demonstra enorme admiração e gratidão pela Dra. Hunter e seu marido.
Gladys concluiu a graduação e foi lecionar Matemática (em um colégio segregado). Pouco tempo depois, ela voltou para fazer mestrado na VSU. Após concluir o mestrado, continuou lecionando matemática para o ensino médio. Ela foi chamada para fazer uma entrevista de emprego em uma instalação da marinha norte-americana, a Naval Proving Ground em Dahlgren (atualmente Naval Surface Warfare Center), também na Virginia. Ela ficou receosa e não foi na entrevista, pois acreditava que não a contratariam por ser negra. Semanas depois, ela recebe uma correspondência dizendo que seria contratada sem a necessidade de entrevista, só com base em seu currículo. Ela aceitou a oferta de emprego, sobretudo porque o salário era superior ao de professora. Assim que pôs os pés na base naval, ficou admirada porque o porteiro, um homem branco, a chamou de senhora. Ela era a quarta pessoa negra a trabalhar no lugar, sendo um dos outros o matemático Ira West, que se tornou seu grande amigo e marido, anos depois. Foi nesse lugar que ela morou por muito tempo e começou a criar seus filhos, já que havia alojamento e uma pequena vila de casas para os funcionários com famílias, com mercadinho e escola de ensino fundamental.
Na autobiografia, Gladys fala de todos os projetos que participou ao longo de várias décadas nessa base naval. Ela fala também de sua vida pessoal, de seu lindo relacionamento com Ira West e da adoção de seus três filhos. Como mulher, eu me identifiquei em vários momentos quando ela narra o gerenciamento da vida como mãe e como profissional. O que ela conta de sua vida pessoal e também quando ela fala de sua fé em Deus, enriquece o livro e incentiva os leitores na busca por alcançar seus próprios sonhos.
Em alguns dos projetos que contaram com a contribuição de Gladys, ela fala dos que estão relacionados com os cálculos para a determinação do geoide a partir de dados de satélite. Esses cálculos contribuíram para o desenvolvimento do GPS (Global Positioning System), que a gente usa todos os dias. O pessoal lá do Parque Cientec escreveu um texto sobre a Dra. Gladys West para o Dia do Matemático, destacando suas contribuições nessa área, principalmente na aplicação da matemática para a compreensão do formato da Terra e das órbitas dos primeiros satélites lançados, antes do primeiro norte-americano alcançar o espaço.
Quando aposentada, Gladys chegou a participar de eventos com Margot Lee Shetterly, autora de Hidden Figures (adaptado para o cinema: Estrelas Além do Tempo). Infelizmente Mary Jackson, Dorothy Vaughan e Katherine Johnson faleceram há alguns anos, mas foram eternizadas no livro de Shetterly e no lindo filme (que assisti com meus filhos e eles gostaram bastante). As estrelas além do tempo não chegaram a trabalhar como Gladys, que fala com muito carinho delas. Elas não chegaram a trabalhar juntas, pois Jackson, Vaughan e Johnson trabalhavam na NASA. Lembrem-se que naquele tempo não havia internet e muitos dos trabalhos que todas essas mulheres realizaram eram confidenciais. Além disso, elas eram “invisíveis”, seus nomes nem figuravam em artigos científicos e materiais técnicos produzidos pelas instituições onde trabalhavam. Elas faziam o trabalho pesado dos cálculos, mas quem recebia os créditos era geralmente um homem branco.
A biografia da Dra. Gladys West sem dúvidas nos traz uma história de vida de muita injustiça, dificuldade, resiliência, dignidade, força de vontade e fé. A bondade dela e de seu marido (que faleceu no final de 2024) é tão grande que ela conta uma história de um colega de doutorado (ela concluiu o doutorado quando já estava aposentada, por volta dos anos 2000), que foi criado no sul dos EUA por uma família racista. Ao conviver com os West, ele percebeu o erro no qual viveu a vida inteira. Gladys e seu marido não tinham nenhuma obrigação de ensinar e nem fizeram isso, mas Gladys (que atualmente tem 95 anos) acredita que as pessoas podem mudar suas concepções preconceituosas se conviverem com a diversidade. Eu também acredito nisso! Ao longo do texto ela também conta das dificuldades que os afroamericanos enfrentavam até mais o menos os anos 60/70, quando a segregação era institucionalizada. Por exemplo, os West tiveram que procurar um financiador específico para construírem sua casa nova, uma vez quem nem todos as agencias de financiamento forneciam empréstimos para pessoas negras. Ela também mostrava preocupação com seu irmão, que lhe dava carona ocasionalmente, e por segurança não deveria ficar dirigindo durante a noite. Sabemos que algumas dessas preocupações persistem até hoje nos EUA e no Brasil também.
Por fim, são muitas camadas de inspiração e aprendizado ao longo do livro. Uma história de dificuldades e conquistas, sem florear ou transformar tudo em uma epopeia no qual a protagonista é responsável por tudo. A Dra West transmite muita sinceridade em seu texto, mostra muita gratidão pelo reconhecimento e exalta o trabalho em equipe, sem deixar de valorizar sua própria contribuição.
Recomendo também essa reportagem da BBC que traça um perfil dessa mulher inspiradora.
