“Eu não gosto de paulistas” e o ódio gratuito nas redes sociais

Virou modinha odiar São Paulo e fazer piada com paulistas. Não é algo novo, é na verdade o tipo de comportamento que ocorre em ondas. No twitter, tive a impressão que estamos vivendo uma onda nesse momento. Desde troças com o farialimer até dizer que cuscuz paulista é uma comida nojenta. Eu já li de tudo. Quando é humor, é uma piadinha engraçada e dá pra notar (como o Boça). Mas quando é somente um ódio gratuito, realmente não entendo.
As piadas são mais direcionadas aos paulistanos (da capital). A cidade de São Paulo é uma macrocefalia urbana, tem mais de 12 milhões de habitantes. Se consideramos todas as cidades da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) são 21 milhões de pessoas. São pessoas das mais diversas origens. Muitos hoje são netos ou bisnetos de migrantes nordestinos ou de imigrantes dos mais diversos países. Há ainda imigrantes mais recentes, vindos de todas as Regiões do Brasil e do mundo.
São Paulo é uma cidade com muitas oportunidades, mesmo hoje em tempos difíceis. Pessoas chegam até lá para estudar, empreender, trabalhar, etc. Por ser uma cidade muito grande, tem muitas coisas para se fazer. É isso que seduz a maioria das pessoas que gostam de agitação ou tem objetivos de se aprimorar profissionalmente. Percebo que muitos dos comentários preconceituosos partem de pessoas que não tiveram uma experiência boa com a cidade ou que simplesmente criticam por modinha (e nem a conhecem). Sobre o primeiro caso, penso que é muito comum as pessoas acreditarem que suas experiências e valores pessoais traduzem o todo e são iguais para os outros. Isso se chama efeito de falso consenso e é comum, temos que prestar atenção nele porque ele é o que faz você ser o chato das rodas de conversa.
É evidente que há paulistanos que possuem preconceito com relação a outras regiões do país, assim como há baianos, mineiros e etc que também são preconceituosos. Esse preconceito, na minha opinião, vai se desconstruindo quando vamos conhecendo pessoas provenientes de outras regiões, quando viajamos, enfim, quando nos informamos.
Minha família materna é da Bahia. Eu convivi com baianos e outros nordestinos a vida toda, mas ainda assim eu ouvia e reproduzia preconceitos quando era mais nova. O mesmo com relação aos outros Estados: quando eu não conhecia nada a respeito, eu era muito mais preconceituosa. Esse preconceito se desmancha na medida em que conheço pessoas de outras regiões do Brasil, viajo, tenho contato com a cultura e com a culinária, leio a respeito, etc. A informação nos transforma numa pessoa melhor, creio muito nesse potencial.
Você que fala que paulista é nojento, também é preconceituoso. Você criou um estereótipo em sua cabeça e o está reproduzindo. Isso é preconceito e não é bonito ou descolado falar só porque é com paulista.
Atualmente moro em Minas Gerais e já fui vítima de um preconceito bem soft pelo meu sotaque. Eu sei que nordestinos sofrem muito mais preconceito, pois ainda há uma intersecção com estereótipos criados sobre nordestinos (a seca, a pobreza, a miséria, etc) e aqui não quero propor um supertrunfo de opressão. Apenas penso que não se paga preconceito com preconceito, se esse for o caso. Eu me coloco no lugar de uma pessoa como eu, que chega em um lugar diferente e quer se relacionar com novas pessoas. Que também foi o lugar dos meus avós, quando chegaram em São Paulo vindos da Bahia. As pessoas te olham de maneira desconfiada por não ser do lugar, algumas fazem comentários sobre seu sotaque, sobre sua comida ou maneira de se vestir. E esses comentários geralmente não são nem um pouco educados.
Sei que é difícil se abrir ao novo, mas precisamos enxergar além de estereótipos e suposições. Só assim vamos conseguir vencer preconceitos e realmente conhecer as pessoas.
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Eu não consegui inserir esse relato no post, então separei a história. Minha mãe, quando chegou em São Paulo, me disse que em duas ocasiões pessoas perguntaram para ela:
_ De que nação você é?
Minha mãe não viu nenhum sentido na pergunta e respondia:
_ Nação brasileira.
Acho que hoje consigo encontrar sentido nessa pergunta esquisita. É comum você encontrar paulistanos cujos avós ou bisavós vieram de outros países. Quando minha mãe chegou em São Paulo na década de 1970, muitos desses idosos estrangeiros ainda estavam por aí. A velocidade da informação não era como hoje, enfim, um mundo analógico e sólido. Perguntaram para minha mãe em tom de curiosidade. Preconceito embutido, talvez? Não sei dizer. Mas São Paulo era assim naquele tempo.
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Conteúdos por aí
Agora não tem mais nada a ver com o assunto do post, mas eu quero divulgar dois mini-áudios que gravei recentemente:
