Geada: ocorrências recentes em São Paulo e artigo sobre o assunto
No post anterior, falei sobre o frio dos últimos dias na Região Sul, Região Sudeste e Região Centro-Oeste (clique aqui) e mencionei as ocorrências de geada. Também fiz uma breve revisão bibliográfica sobre condições favoráveis para a ocorrência de geada, por isso confira o post anterior antes de ler este.
Outro post interessante para quem gosta de geada é esse, que traz definições e outros conceitos relacionados.
No dia 13/06/2016, quando foi observada temperatura mínima de apenas 1,3°C na Estação Meteorológica do IAG-USP (veja notícia aqui), foi também registrado o fenômeno de geada. O técnico Willians Garcia tirou algumas fotografias, mostrando boa parte da área do Cercado Meteorológico coberta por gelo.

Numa noite sem nuvens, a superfície da Terra perde bastante radiação de onda longa. Então a superfície vai ficando cada vez mais fria, de modo que ela fica mais fria que o ar que está logo acima dela. O vapor d’água contido nesse ar, em contato com a superfície fria, acaba passando para o estado líquido (condensação). Dessa maneira forma-se o orvalho, que é outro fenômeno meteorológico bem conhecido e bem típico do outono e do inverno. Só que se estiver realmente muito frio, com a temperatura do solo por volta dos 0°C, as gotinhas que formam o orvalho acabam passando para o estado sólido (solidificação). E também ocorre geada quando o vapor d’água existente no ar sublima (passa do estado gasoso direto para o estado sólido, sem passar pelo líquido). Temos dessa forma a geada de radiação, porque houve perda radiativa por parte da superfície. A geada de advecção acontece quando ar bem frio é injetado na superfície, normalmente em decorrência de uma queda abrupta de temperatura, por exemplo, devido a aproximação de uma frente fria. Em geral, as geadas são resultado dos dois processos atuando simultaneamente (geada mista).

No artigo de Funari et al (2010), são mencionadas algumas condições favoráveis para a formação de geada:
a) Temperatura do ponto de orvalho inferior a 0°C, nas superfícies ativas;
A temperatura de ponto de orvalho é a temperatura a que o ar deveria ser resfriado à pressão constante para ficar saturado e esse valor é variável, pois depende da concentração de vapor d’agua e da temperatura da parcela de ar. De acordo com esse material da Professora Alice Grimm da UFPR: O termo ponto de orvalho provém do fato de que durante a noite objetos próximos à superfície da Terra freqüentemente se resfriam abaixo da temperatura de ponto de orvalho. O ar em contato com estas superfícies também se resfria por condução até tornar-se saturado e o orvalho começar a formar-se. Quando a temperatura de ponto de orvalho está abaixo da temperatura de congelamento, o vapor d’água é depositado como geada. Quanto mais alto o ponto de orvalho, maior a concentração de vapor d’água.
b) Intensa perda de radiação noturna, permitindo que a temperatura do solo, ou da vegetação caia abaixo do ponto de orvalho. Tal radiação será, tanto mais intensa, quanto menor a tensão do vapor. Isso acontece com as invasões da massa polar atlântica ou massa polar continental;
Lembrando que a condição mencionada acima está relacionada com noites e madrugadas sem nuvens. As nuvens dificultam a perda de radiação infravermelha (calor) para o espaço, atuando como um cobertor para a atmosfera, ou seja, mantendo o calor aprisionado na atmosfera. Algumas massas de ar possuem características que dificultam a formação de nuvens, portanto favorecem a perda radiativa.
c) Céu claro com ausência de nuvens;
d) Há maior freqüência nos vales e partes mais baixas do relevo, que acumulam o ar frio (drenagem noturna de ar frio);
e) Nos topos elevados das altas das montanhas, normalmente acima de 800 metros (SERRA, 1977).
f) Ausência, ou pouco vento.
O artigo de Funari et al (2010) também ressalta a importância de se estudar a geada, pois ela é responsável por prejuízos a diversas culturas agrícolas, como o café. O artigo, que usou dados da Estação Meteorológica do IAG-USP, teve como objetivo estudar a frequência de geada na cidade de São Paulo. Como conclusões, verificaram uma redução no total anual de dias com ocorrência de geada.
Em São Paulo-SP, a ocorrência de geada é maior nos meses de inverno (junho, julho e agosto). Constatou-se também que a maior frequência de geada ocorre em dias com umidade relativa em torno de 97% e temperatura variando de -1,2 °C a até 5,8 °C. Dessa maneira, a quantidade de dias com geada diminuiu porque houve uma tendência de elevação nas temperaturas mínimas nos últimos 80 anos (a Estação Meteorológica do IAG-USP opera desde 1933). Atualmente, temos menos dias com manhãs frias. No passado, manhãs frias eram mais comuns (como discuti no post anterior).
Na figura abaixo, a linha azul representa a temperatura média mínima anual ao longo desses 83 anos de funcionamento da instituição e a linha preta representa a reta de tendência, apresentando uma tendência de aumento de temperatura. Claro que devemos destacar que há uma flutuação natural comparando um ano com o outro. Há anos que em média são mais quentes ou mais frios, dependendo da atuação de fenômenos interanuais como o El Niño, por exemplo. Mas a tendência (apesar dessas flutuações) é de aumento da temperatura mínima média anual.

O artigo mencionado nesse texto foi apresentado no IX Simpósio Brasileiro de Climatologia Geográfica:
Frederico Luiz FUNARI , Gustavo ARMANI, Márcia Elizabeth HAEGELY (2010): FREQÜÊNCIA DE GEADAS NA CIDADE DE SÃO PAULO. Anais do IX Simpósio Brasileiro de Climatologia Geográfica (2010)
