Here (2024) e o conceito de espaço geográfico e de lugar

O filme Here (2024) foi recentemente disponibilizado no Amazon Prime era bastante aguardado, pois reúne nomes de peso — Robert Zemeckis, Robin Wright e Tom Hanks — que já haviam trabalhado juntos no clássico Forrest Gump (1994). Inspirado na graphic novel homônima de Richard McGuire, o longa se desenrola inteiramente no mesmo ponto do espaço geográfico, permitindo que o espectador observe os acontecimentos como se estivesse diante de um palco eterno. portanto, eu diria que o verdadeiro protagonista da obra é o tempo.
A proposta do filme me fez refletir sobre dois conceitos fundamentais da Geografia: o espaço geográfico e o lugar. Vamos explorá-los a seguir.
O conceito de espaço geográfico e o de lugar são centrais para a compreensão da abordagem contemporânea da Geografia, especialmente a partir das contribuições do geógrafo brasileiro Milton Santos. Embora estejam interligados, esses conceitos apresentam diferenças significativas quanto à escala, ao enfoque e à forma como se manifestam na vida social.
O espaço geográfico pode ser compreendido como o espaço produzido pela ação humana, fruto da interação entre natureza e sociedade. Ele abrange tanto os elementos naturais quanto os técnicos, sendo formado por redes, fluxos, objetos construídos e pelas ações que os mobilizam. Milton Santos o definiu como o “conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações”, ou seja, um espaço que incorpora tanto as estruturas materiais (rodovias, edifícios, redes digitais) quanto as práticas sociais, econômicas e políticas que nele ocorrem. É um conceito de amplitude maior, que permite compreender desde a organização de uma cidade até os efeitos da globalização em escala planetária.
No filme Here, a transformação do espaço geográfico se desenrola diante de nossos olhos. O cenário é como um palco onde se manifestam, ao longo do tempo, as diversas interações entre pessoas e meio. A paisagem se modifica continuamente: no início, dominada apenas por elementos naturais como plantas e animais; depois, com a chegada do ser humano, o espaço passa a ser transformado progressivamente, à medida que novas técnicas são desenvolvidas e aplicadas.
Por outro lado, o lugar é uma categoria mais concreta e vivida, relacionada ao espaço onde as pessoas constroem vínculos afetivos, memórias e identidades. Está diretamente ligado à experiência cotidiana e à dimensão subjetiva do espaço. Para Milton Santos, o lugar é o ponto de encontro entre o global e o local, o palco onde as transformações econômicas, políticas e tecnológicas globais se concretizam na vida diária das pessoas. Em sua obra Por uma outra globalização, ele defende que é a partir do lugar que se pode construir uma globalização mais justa e humana, centrada nas necessidades e nos saberes das populações locais.
No filme, o conceito de lugar é evidenciado pela maneira como diferentes personagens, ao longo do tempo, se relacionam afetivamente com aquele espaço. Mesmo antes da construção da casa, já havia ali significados atribuídos pelas pessoas que por ali passaram. Cada indivíduo, em seu tempo, atribui um sentido singular ao lugar, demonstrando como diferentes subjetividades e relações humanas se entrelaçam naquele mesmo ponto do espaço.
Assim, enquanto o espaço geográfico remete a uma totalidade mais abstrata e estruturada — como o terreno em si, a casa vazia, a paisagem em constante transformação —, o lugar se manifesta quando há presença, sentimento, vivência. Mesmo nos momentos em que a casa está desabitada, ela carrega a história dos que ali viveram. O espaço só se torna um lugar quando ganha significado através das experiências humanas.
Por fim, é importante destacar que espaço geográfico e lugar são conceitos complementares: o primeiro nos ajuda a compreender as estruturas e dinâmicas globais; o segundo nos conecta com a realidade concreta e vivida, revelando as contradições do mundo e as possibilidades de mudança.
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