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Mapa comemorativo da COP 30 causa furor entre adeptos da burrice voluntária

Vamos supor que você esteja tendo contato com algo que você já conhece, porém apresentado sob uma nova perspectiva por uma pessoa que é especializada no assunto. Qual é a sua primeira atitude? Você critica e apedreja ou procura entender?

Há alguns meses, o IBGE lançou um mapa-múndi com o Brasil no centro e com a orientação cartográfica de modo a posicionar o Pólo Sul voltado para cima da folha. Falei sobre esse mapa nesse post e vou apresentá-lo aqui novamente:

Claro que é um mapa-múndi completamente diferente do que eu via no atlas escolar que usei em minhas aulas de Geografia no ensino básico. Como professora de Geografia, tenho aqui comigo um atlas que comprei há uns 3 anos e ele ainda possui representações da Terra feitas de maneira tradicional: Europa no centro do mapa e Pólo Norte voltado para cima da folha. O próprio IBGE disponibiliza gratuitamente mapas em alta resolução com a apresentação tradicional, como esse.

Qual a função de um mapa “de cabeça pra baixo”? Há uma intenção nesse mapa: mostrar, que do ponto de vista de nós brasileiros, o Brasil está no centro. Desenhe um mapa do que está ao redor de sua casa e você desenhará sua casa no centro. No espaço, não existe “em cima” ou “em baixo”. Inclusive há muitas imagens do espaço com o Pólo Sul para cima, imagens essas que muitas vezes são invertidas para a orientação tradicional somente para agradar o norte global, principal detentor das tecnologias que permitem atividades espaciais. Um exemplo clássico é a imagem Blue Marble, que originalmente foi obtida com o Pólo Sul pra cima, mas foi invertida porque foi obtida em uma missão estadounidense (NASA).

Um mapa é uma representação da realidade e não a própria realidade. É uma pintura, uma simplificação das complexidades desse mundo. Um ‘mapa invertido’ pode causar alguma estranheza, porque foge dos padrões colonialistas aos quais fomos submetidos. Em outras palavras: a gente aprende na escola que o mapa-múndi tem uma cara, vimos essa imagem muitas e muitas vezes e simplesmente aceitamos que é assim. A Lady Sybylla, que também é professora de Geografia, publicou há muitos anos um texto que gosto muito, intitulado “A visão eurocêntrica nos mapas“. Num determinado trecho, ela cita:

“A visão incomoda pois o nosso lugar no mundo é deslocado. Ficamos com a sensação de termos perdido a direção e isso é natural. Não é porque a bússola aponta para o norte que os mapas foram feitos, pois antes mesmo de descobrir esta força, os mapas eram confeccionados, cada um ao modo da época. Para o império romano, Roma era o centro do mundo. Em alguns lugares da Oceania não havia o conceito de norte.

Dessa forma, antes de declarar apaixonadamente sua opinião sem ter o domínio do que se fala, como se não houvesse amanhã, faça como muitos leitores fazem: poste a dúvida de maneira educada, perguntando o porque daquilo, sem agressão nem ideias pré-concebidas ou faça uma pesquisa por si próprio para entender o porque dos mapas terem uma convenção, que não é errada, mas ela deve ser sim discutida pois essa visão não é nossa, ela foi imposta e é preciso saber o porque desta imposição.”

Experimente pegar seu celular e acessar o Google Maps. Aproxime para sua casa. Você vai ver que pode girar a bússola e colocar o mapa na posição que você quiser, quero dizer, colocando o leste para cima, oeste para baixo, etc. Todo mapa precisa ter alguns elementos cartográficos e a rosa-dos-ventos é um desses elementos essenciais (geralmente ela fica no canto superior direito). Geralmente a seta indica o norte (N) para cima, mas poderia ser girada, com o N apontando para o lado direito ou até mesmo para baixo, como é o caso do mapa que o IBGE lançou.

Relançamento do mapa para a COP30

O IBGE lançou uma nova versão do mapa ‘polêmico’, colocando o Pará em destaque em atenção à COP 30. O mapa faz todo sentido, até porque todos os olhos do mundo estão voltados para Belém, que sedia essa conferência. Lá estão sendo discutidos assuntos de extrema relevância para o futuro do planeta, onde representantes de diversos países apresentam o que tem feito para controlar o aquecimento global.

Ainda não encontrei uma versão em alta resolução do mapa no site do IBGE, vi somente a versão no Instagram oficial.

Reprodução do Instagram do IBGE, com informações do Portal Terra

E a partir de agora vocês vão compreender o título do post e o tom inicial do texto. Quando li os comentários da publicação (eu não sei porque faço isso, devo gostar de sofrer) eu pude ver a burrice em estado bruto, aquela ignorância maldosa e voluntária, sabem? Se não sabem do que estou falando, leiam os comentários.

Não são pessoas apenas surpresas com a orientação incomum do mapa. Nem são pessoas que acham o mapa feio (isso é opinião particular). Também não são pessoas genuinamente tentando entender porque o mapa é dessa maneira. São pessoas criticando o IBGE, falando que o mapa está errado e falando um monte de baboseira para se justificar. Caros leitores, eu tenho conhecimento nessa área e toda vez que vou escrever qualquer texto aqui no blog, eu procuro fundamentar o que estou dizendo, trazendo links relevantes e que complementam minha fala. Eu sinceramente não consigo entender como existem pessoas que simplesmente saem por aí falando o que aparece na cabeça, sem qualquer tipo de filtro, sem qualquer tipo de compreensão da própria ignorância.

Sim, caros leitores. Tem cara que acha que sabe mais de cartografia do que o IBGE, que possui cartógrafos e geógrafos (além de outros profissionais) em seu quadro técnico.

Ainda tem aqueles que começam a falar de partido político, que começam a “delirar no esquerdismo do Brasil comunista sei lá o quê”. São pessoas beócias que sabemos muito bem em quem votaram.

Algumas pessoas ainda são capazes de dizer que eu ou qualquer outra pessoa que chamam pessoas assim de burras somos arrogantes. Eu sou uma pessoa calma que procuro explicar tudo o que sei quando dou aulas ou escrevo textos aqui na internet, repito se for preciso, tento explicar de outra forma, etc. Eu não sou dona da razão e também há inúmeras coisas que ainda estou aprendendo nessa vida. O que não consigo aceitar são pessoas completamente mal educadas e mal intencionadas que acham que sabem tudo, que são extremamente preconceituosas e mal informadas e desmerecem o trabalho e o conhecimento compartilhado.

Toda vez que o IBGE aparecer em suas redes sociais com esse mapa, esses comentários vão se repetir. Concluo que o brasileiro médio também precisa de alfabetização cartográfica, além da necessidade urgente de se livrar de preconceitos e de respeitar os saberes alheio.

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Recomento esse material de Introdução à Cartografia, muito completo. Também peço uma ajudinha, caso tenha gostado de meu conteúdo. Doe qualquer valor via pix para samanthansm@gmail.com.

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