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O medo de sofrer esculacho

Se você é um leitor que fala português europeu ou africano, talvez não esteja familiarizado com a palavra esculacho. Além disso, o Brasil é bem grande e essa palavra pode ser desconhecida por alguns ou até mesmo ter outros significados.

Esculacho (para mim, para nos entendermos nesse post) é uma gíria que significa bronca severa, humilhação, desaforo, enfim, qualquer ato relacionado com destruir ou desmoralizar alguém.

Recentemente eu precisei mandar um e-mail para uma pessoa que eu não conheço, um acadêmico muito respeitado de outra universidade. Eu precisava fazer umas perguntas que para mim eram muito importantes, mas eu sentia uma insegurança muito grande em fazê-las. Eu sei, Feynman disse que não existe pergunta idiota. Na teoria é isso mesmo, mas será que eu vivi isso na prática a todo momento ao longo dos meus eternos anos como aluna?

A resposta é não.

Eu me refiro especialmente aos tempos de educação básica e do bacharelado em Meteorologia. Quando eu era bem pequena, digamos, até uns 11 anos, eu perguntava até que bastante. Depois disso, perguntar tornou-se um desafio. Eu diria que parte disso é sim aquela arrogância que nos acompanha na adolescência e no começo da idade adulta, porque a gente fica querendo provar tudo a todo momento e porque com essa máscara a gente esconde insegurança. No entanto, acho não era só essa coisa intrínseca.

Hoje percebo que eu estive em ambientes onde perguntar era visto como uma atitude inconveniente (lá vai ela de novo falar) ou sinônimo de imbecilidade (como assim ela não entendeu esse tópico tão fácil?). Eu tinha tanto medo de fazer uma pergunta idiota que eu simplesmente não fazia.

Mas tinha mais uma coisa!

Infelizmente convivi com docentes que não tornavam o ambiente propício para questionamentos. No ensino médio e no técnico, por exemplo, tive professores que praticavam bullying com alunos muito nerds. Outros não tinham paciência para responder e outros guardavam dentro de si uma insegurança tão grande que quando algum aluno começava a fazer perguntas, era visto como alguém que queria mostrar que sabia mais que o professor. Para vocês terem uma ideia do buraco, eu tive um professor no ensino técnico que era racista e tinha falas preconceituosas contra mulheres, japoneses e portugueses. Como que eu iria perguntar qualquer coisa para uma pessoa assim?

Se você é muito jovem e chegou até aqui e está se perguntando porque não denunciávamos esse professor, pois bem, saibam que eram outros tempos. Estamos falando aqui dos anos 1990.

Na minha casa e na igreja, muitos assuntos eram tabu. Eu não podia perguntar sobre qualquer coisa, tinha que tomar cuidado com os assuntos abordados. Ora, então era melhor nem perguntar nada para evitar mal entendidos.

Resumindo: essas situações tóxicas me impediam de fazer perguntas. Agora, vou contar para vocês o que passou pela minha cabeça quando fui mandar o e-mail para o pesquisador que mencionei. Eu achei que ele iria parar de me responder, que eu ficaria ‘queimada’ no meio acadêmico (ah lá a burrona) e que ele poderia até me prejudicar em alguma situação por ter pego ‘birra’ de mim.

Foram exatamente esses os pensamentos disfuncionais que passaram pela minha cabeça e eu sei que eles não surgiram do nada, quero dizer, não surgiram porque sou ‘doida’ e tenho mania de perseguição. Eles apareceram na minha cabeça porque em vários momentos da vida eu testemunhei padrões que me fizeram acreditar que a roda roda desse jeito. Que a roda tem que rodar desse jeito, pois é inevitável. Porque no mundo em que os homens estão na maior parte dos postos de poder, o poder é manifestado com sarcasmo e com esculacho.

Dia desses li um texto escrito por Laura Quintana e Allison B. Wolf, professoras de filosofia da Universidade dos Andes em Bogotá. Elas não são as únicas a argumentar que reverter o machismo não é simplesmente colocar as mulheres nas posições de poder ocupadas por homens. Elas afirmam:

O feminismo propõe-se a reverter esse esquema. Mas ele não faz isso pela simples inversão. Não é, portanto, uma questão de agora outorgar às mulheres o poder de que os homens tradicionalmente desfrutam como um privilégio. 

Mary Beard, professora de estudos clássicos na Universidade de Cambridge e autora de Mulheres e Poder: um manifesto também argumenta que não basta apenas colocar mais mulheres em posições de poder se o modelo de poder continuar sendo o mesmo, ou seja, um modelo masculino, baseado no prestígio individual e na dominação. A autora propõe pensar o poder não como uma posse (algo que se tem), mas como um atributo (o ‘poder fazer’) com o qual se pode gerar mudanças e defende a ideia de poder colaborativo.

Certamente outras autoras (e talvez até autores homens) defendem que o poder colaborativo é a transformação que gostaríamos de ver no mundo. Como ensinou a Alferes Samantha Wildman pra sua filhinha, Naomi, em Star Trek VOY: “coperação é mais importante do que competição”.

Se a gente conseguisse pensar em poder dessa forma, teríamos ambientes muito mais saudáveis e justos: empresas, escolas, universidades, etc. Eu já vejo muitas transformações. Fiquei mais de 20 anos fora da sala de aula e retomei meus estudos em 2024, quando entrei para um programa de pós-graduação de uma universidade federal. Eu estou testemunhando ambientes mais colaborativos, onde a escuta de fato ocorre, onde alunos tem espaço para fazer perguntas e até fazerem denúncias. A coordenação do programa é muito transparente com os discentes. Quando comparo a atualidade com essas experiências do passado, eu noto transformações positivas no ambiente e em mim.

Imagem que abre o post: Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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2 Comentários

  1. Pois é, diante de sua pergunta percebi que deixei de lado uma parte interessante da história toda.
    Ele me respondeu de maneira educada e muito cortês, solucionando a maior parte das minhas ‘duvidas idiotas’. Muitas vezes o problema está só em nossa cabeça.

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