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Milho-de-grilo e as plantas que a gente não percebe mais

Eu gosto muito de atividades ao ar livre e de aprender sobre plantas. Vez ou outra escrevo sobre esse assunto aqui no blog e hoje vai ser uma dessas vezes.

Outro dia fui visitar uma querida amiga. Nossos filhos são amigos e eles estavam brincando no quintal da casa dela, que tem um espaço muito gostoso. Foi quando eu vi essa plantinha que fotografei. Um pequeno arbusto cujos frutos consistem nesses pequenos cachos com bolinhas lilás. As flores são bem pequenininhas, em ramos, também roxinhas. Minha amiga disse que eram comestíveis e comentou que era muito comum procurar por esses frutos quando era criança. Eu peguei um punhado, senti um cheirinho muito gostosinho de uma infusão de chá (ou tisana, de alguma maneira me lembrou erva doce misturada com erva cidreira, algo assim). Além do odor, elas tinham um sabor igualmente agradável.

Aprendi que o nome da planta é milho-de-grilo. Cheguei em casa curiosa e fui fazer algumas pesquisas. Descobri que o nome científico dela é Lantana trifolia. Existem muitas espécies do gênero Lantana, quem gosta de plantas certamente já conhece as florzinhas da Lantana camara. Algumas das plantas desse gênero são medicinais e muito conhecidas. O livro Plantas Medicinais no Brasil lista a Lantana camara e Lantana geminata com exemplos de plantas medicinais. Inclusive a Lantana geminata é a popular melissa, acredito que muita gente já tomou chá dessa planta, que é muito agradável.

Enquanto pesquisava sobre o milho-de-grilo, aprendi coisas muito interessantes sobre a cidade de São Paulo. Antes, deixa eu explicar que moro no bioma Cerrado e essa amiga também. A cidade de São Paulo entra nessa história porque aprendi um pouco mais sobre a paisagem da cidade em que nasci antes de ela existir. No território em que atualmente situa-se essa grande metrópole, existiu uma vegetação muito diversa que consistia em um ecótono (zona de transição entre diferentes vegetações). Tinha araucária, tinha campos cerrados e tinha Mata Atlântica, tinha áreas pantanosas, enfim, havia uma vegetação muito diversa que é bem explicada e exemplificada nesse texto.

Nesse contexto, uma das plantinhas que podiam ser encontradas com certa abundância era o milho-de-grilo. Na verdade, elas ainda podem ser encontradas. Descobri isso porque conheci esse site lindo, um projeto artístico-científico chamado Gvia de campo dos campos de Piratininga. Há fotos muito bonitas da planta e o autor conta que encontrou lá perto da Arena Corinthians. Ou seja, ainda tem milho-de-grilo e certamente um monte de outras plantinhas que a maior parte dos moradores da cidade de São Paulo não nota em seu dia-a-dia corrido. Essas plantas ainda resistem, apesar do concreto, do asfalto, das enchentes e das áreas verdes reduzidas ou inexistentes em bairros periféricos. Mesmo em áreas verdes de parques ou casarões, a opção ultrapassada de usar plantas ornamentais exóticas ainda deixa suas marcas na paisagem. Dessa maneira, conhecemos pouco do que o território era antes da metrópole. A paisagem atual consiste em tantas transformações causadas pelo ser humano que tornou-se difícil observar seus elementos naturais.

No site do projeto, seu autor, Daniel Caballero descreve:

“A tentativa é desprogramar os territórios da cidade e devolver a terra a um marco zero — cultivando o ócio, o baldio e o biodiverso. Misturam-se plantas, animais e pessoas no gesto de recuperar a memória do lugar habitado e invocar o paraíso paulistano perdido, com sua natureza riquíssima: delicados campos de cerrado, várzeas pantaneiras e a exuberante floresta atlântica.”

Por exemplo, onde hoje é o Shopping Aricanduva já foi uma área de pântano e havia muitas lagoas. Meu pai chegou a pescar e caçar rãs por aquela região. Se você perguntar para um jovem da região, ele talvez nem suspeite que a vida por ali já foi assim. Talvez ele nem imagine que a vida já foi mais calma, ditada por um ritmo mais paciente e gentil, mais próximo do ritmo das plantas.

Podemos aprender tanto com a natureza. São muitas camadas e possibilidades de aprendizagem. Esse post, creio que é um exemplo disso. Através de uma planta que conheci no quintal de uma amiga, aprendi várias coisas sobre a cidade que nasci, um lugar que está há algumas centenas de quilômetros.

Bibliografia adiconal

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