O furacão na filmagem de Jurassic Park

Eu comecei a assistr uma série de documentários da Neflix chamada Filmes que Marcaram Época. O terceiro episódio da primeira temporada fala sobre o icônico Jurassic Park, que foi um marco na indústria cinematográfica. O filme inaugura a era digital do cinema e o episódio conta como designers talentosos e ambiciosos da ILM (empresa que também fez os efeitos especiais de diversos filmes, incluindo Exterminador do Futuro 2 e de O Segredo do Abismo) criaram o primeiro dinossauro no computador. A partir desse filme, o uso de efeitos computacionais pela industria cinematográfica virou algo muito comum e recorrente na medida que os computadores melhoraram sua capacidade de processamento ao longo dos anos.
Além dos incríveis efeitos visuais e do esforço para criar dinossauros com aparência e movimentos realistas, a história do furacão de Jurassic Park atraiu minha atenção. A equipe de Spielberg aproveitou que um furacão iria passar pelo Havaí e fez algumas filmagens que foram usadas no filme. O furacão em questão foi o Iniki, que se formou e se dissipou entre 5 e 13 de setembro de 1992. Em outras palavras, a tempestade retratada no filme aconteceu de verdade.
Filmagens no Havaí? Isso mesmo que você leu! A história de Michael Crichton adaptada por Steven Spielberg para o cinema se passa em uma ilha fictícia (Isla Nublar) localizada na costa pacífica da Costa Rica. Quem viu o segundo filme da franquia percebeu isso, uma vez que o Tiranossauro Rex é levado de navio até San Diego. E como não há nenhuma menção ao Canal do Panamá, suponho que as ilhas costarriquenhas mencionadas em todos os filmes da franquia estejam localizadas na costa pacífica desse país.
As filmagens, no entanto, não foram realizadas na América Central, pois não havia boa infraestrutura. As locações foram então no Havaí e em estúdios nos Estados Unidos continental (na Califórnia). Já quase na conclusão das filmagens no Havaí, havia a previsão da passagem do furacão Iniki. Ao invés de evacuar toda a equipe o mais rapidamente possível, o maluco Spielberg decidiu fazer algumas filmagens para aproveitar no filme. E para defender Spielberg, em 1992 a previsão do tempo não era tão acurada como é hoje eo furacão Iniki mudou sua trajetória inesperadamente e passou mais próximo da ilha de Kaua’i.
As filmagens haviam começado em 24 de agosto de 1992 e o furacão passou pela ilha de Kaua’i no dia 11 de setembro de 1992. Faltava apenas um dia para a conclusão das filmagens. A cena da correria dos Galimimus teve que ser filmada em novembro de 1992, quando a equipe retornou para o Havaí, porém fez a tomada em Oahu, outra ilha do arquipélago, já que Kaua’i infelizmente ainda tinha muitos resquícios da destruição.
Agora vamos falar alguns detalhes técnicos sobre o furacão Iniki e depois voltaremos para mais curiosidades sobre o filme.
O furacão Iniki
Se você chegou até esse post porque é fã de Jurassic Park mas agora está interessado em furacões, talvez queira saber como os furacões são formados e eu falo sobre isso nesse texto.

Curiosidade: a palavra Iniki, em havaiano, significa “vento preciso e perfurante”.
O furacão Iniki se formou no dia 5 de setembro de 1992 por volta de 2500km à sudoeste da Baja California, como uma depressão tropical. Esse sistema estava sendo monintorado pelo NHC por vários dias, pois havia uma área de perturbação tropical importante na região já no final de agosto.
Essa depressão tropical evoluiu para furacão no dia 06 de setembro de 1992, quando já tinha um olho (região central sem nuvens) e ventos intensos. Por volta do dia 08 de setembro de 1992, chegou a apresentar ventos de 230km/h, que representam categoria 4 na escala Saffir-Simpson (uma escala usada para classificar um furacão de acordo com seu vento máximo e que vai de 1 até 5). O que ajudou Iniki a se fortalecer foi tão rapidamente é que aquele era ano de El Niño e a temperatura da superfície do mar estava um pouco acima da média. Furacões dependem do calor da água do mar para obterem sua energia (calor latente de evaporação). Iniki também encontrou uma situação que favoreceu seu deslocamento próximo da ilha de Kaua’i, já que havia um “canal de ventos” formado pela presença de uma área de pressão mais alta ao lado de uma área de pressão mais baixa. Isso foi um pouco inesperado, já que as previsões indicavam que Iniki passaria mais distante de Kaua’i.
No dia 11 de setembro de 1992, o furacão passou pelo sul da ilha de Kaua’i e foi um momento de pânico, como naturalmente ocorre durante a passagem de furacões. O pessoal do filme ficou no hotel durante a passagem do furacão e para manter alguma segurança, o hotel onde todos estavam hospedados teve as janelas e portas reforçadas para suportar a força dos ventos e da água do mar. A equipe ficou toda em um salão de baile do hotel, uma área considerada mais segura e que foi usada como abrigo. A atriz Ariana Richards, a menina do grito, contou que Spielberg entretia as crianças com jogos de cartas e contação de histórias.
Horas antes da chegada de Iniki, com o vento já muito forte e as águas muito agitadas, uma pequena e corajosa equipe de filmagem saiu para fazer algumas tomadas. Essas cenas foram usadas no filme. Em seguida, um funcionário do hotel mandou todo mundo entrar e buscar abrigo.
Lembrando que era 1992 e não havia internet e acesso tão rápido a informação como temos hoje. Gary Hymes, coordenador de dublês, conseguia informar a todos sobre a trajetória do furacão usando um pequeno rádio de pilha. Ele teve que sair do abrigo e ir ao ar livre para conseguir sinal de rádio. Para isso, ele foi amarrado numa espécie de equipamento de escalada para não ser carregado pela força dos ventos.
Quando a equipe pode sair do abrigo, observou a ilha de Kaua’i completamente destruída. O que havia sido construído para o filme foi completamente destruído e a sorte é que faltava apenas um dia para a conclusão das filmagens no Havaí. A equipe retornou ao Havaí em novembro para a conclusão de algumas cenas ao ar livre.
Iniki causou prejuízos em torno de $3.1 bilhões de dólares (cotação de 1992) em danos e infelizmente causou a morte de 6 pessoas (nenhuma que trabalhasse diretamente na equipe de filmagens).
Fontes (além das citadas ao longo do texto)
- Jurassic Park – Wikipedia
- Furacão Iniki – Wikipedia
- Ciclones tropicais no Pacífico Central em 1992 – NHC/NOAA
- Storm Stories – Jurassic Park Hurricane – Weather Channel
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Que interessante essa história! Eu vi esse documentário também, essa semana. Por conta disso que descobri o Storm Stories do Theo Weather Channel. No canal do YouTube deles tem alguns episódioos inclusive esse do Jurassic park. Assim que der um tempo aqui vou maratonar rsrs
Ah, que bom que vc curtiu 🙂
Esse Storm Stories é ótimo mesmo, muita coisa bastante curiosa.
Eu sei que Richard Attenborough não se abalou com o furacão e dormiu praticamente o tempo todo. Ele disse que passou por coisa pior durante a Segunda Guerra Mundial. ?
hahahaha com toda certeza passou
obrigada pela visita 🙂