Aliciamento de crianças e adolescentes: todo professor precisa saber disso

O título desse post é pesado, mas eu acredito que precisamos falar sobre isso. Na verdade, é o tipo de informação que toda sociedade precisa ter. Vou falar de algumas histórias para vocês entenderem um pouco como funciona o aliciamento de crianças e adolescentes pela internet. Esse texto é um alerta para pais, tios, avós, educadores, etc. Ou seja, todo mundo que está realmente interessado no futuro das nossas crianças.
Claro que uma criança corre o risco de ser aliciada pessoalmente, por adultos mal intencionados que ganham sua confiança na vizinhança, perto da escola, etc. Isso é o que acontece com as crianças que são aliciadas pelo tráfico de drogas, por exemplo. Mas é preciso sempre reforçar que o perigo também está na tela do celular e talvez até um perigo maior, porque através da internet podemos nos comunicar com um número maior de pessoas.
A primeira história que vou contar é a do filho de uma ex-colega de trabalho. O menino na época da história tinha 13 anos, adorava futebol e participava de vários grupos no Facebook sobre esse esporte. A mãe tinha acesso ao perfil do filho e de vez enquando fazia uma espécie de ronda. Um dia ela viu uma mensagem que o filho tinha recebido e ficou com vergonha de contar para ela. Era um homem, que usava como foto de perfil o escudo de um time de futebol, e que já estava puxando assunto com o adolescente há algum tempo. Nas mensagens mais recentes, o cara pedia fotos nuas do adolescente. O menino ficou com vergonha da mensagem que recebeu, não respondeu ao homem e não contou para a mãe. A mãe chegou a me mostrar o perfil do criminoso, que sugeria trabalhar com as famosas “peneiras” de times grandes de futebol. Provavelmente ele nem trabalhava com isso, mas usava essa informação falsa para aliciar meninos que sonham em ser jogadores.
Quando a mãe contou a história para mim e para outros colegas, ela estava transtornada. Por orientação de outras pessoas, ela abriu um boletim de ocorrência. Conversou com o filho sobre o ocorrido e o menino disse que não mandou nada para o homem e o bloqueou.
A próxima história é contada pela Danny Boggione do Sobrevivendo na Turquia. Nessa história, uma menina de 16 anos é aliciada por um homem que foi à loja onde ela trabalhava e prometeu-lhe uma carreira de modelo. A menina escapou da situação através de sua esperteza e porque ela tinha uma rede sólida: uma família unida, uma amiga que a acompanhou, etc. A menina também foi muito perspicaz e identificou o perigo. Se essa menina tivesse uma rede fragilizada e uma família desestruturada, teria sido aliciada.
Já essa outra garota que foi aliciada e viveu o horror da prostituição forçada, não tinha essa mesma estrutura familiar. Nessa história, também contada pela Danny, percebe-se que a vítima tinha uma família desestruturada, uma convivência difícil com familiares, havia passado por situações de violência doméstica e viu no aliciador alguém que estava disposto a cuidar dela.
Em outra história contada também pela Danny , uma adolescente com problemas de convivência com a mãe quase desaparece. Através da perspicácia da prima, que percebeu que ela estava no aeroporto durante um telefonema, essa menina foi salva. O aliciador fez juras de amor para ela, dizendo que cuidaria dela e que morariam na Europa. Chegou a pedir exames de sangue para a garota (que namorado pede isso?) argumentando que queria cuidar dela e ter a certeza que ela não teria nenhum problema de saúde. Isso pode ser muito bizarro para você que é adulto ou um adolescente criado num ambiente onde há mais diálogo e estruturação, mas para uma adolescente carente e apaixonada pode significar uma prova de amor e cuidado. Nesse caso, antes de ocorrer a fuga, a menina começou a ter notas baixas na escola porque ficava a madrugada inteira conversando com o aliciador (que ela julgava ser o amor de sua vida).
Esse tipo de crime sempre tem um aspecto comum: o criminoso tenta estabelecer um vínculo de confiança com a vítima. E ele consegue, de modo que a vítima foge de casa com as próprias pernas ou toma decisões erradas acreditando serem certas (como mandar os tais nudes). Vocês entenderam? A vítima sai de casa com suas próprias pernas, porque foi convencida a isso. Não é a “van branca de janelas insulfilmadas” que sequestra o adolescente à luz do dia: é o adolescente que é convencido a fazer sua malinha e sair de casa.
Eu acredito que precisamos falar disso. A manicure precisa saber. A professora precisa saber. As enfermeiras do postinho precisam saber. A senhora que vende sorvete na esquina precisa saber. A comunidade toda precisa saber! Porque adolescente não se contém, ele fala, ele se empolga. E se a gente souber pescar algumas informações que eles falam ou ler o que eles querem mostrar, podemos ajudá-los.
E na minha opinião também é necessário falar sobre isso nas escolas, nas igrejas, nos centros comunitários, etc. Tem que ter palestras sobre isso, sobre não falar com estranhos em hipótese alguma, não confiar na foto de perfil, não ter conversas que envolvam informações pessoais, etc. Há pastores que falam tanta besteira no púlpito, porque não aproveitam esse espaço para alertar os irmãos?
Há pais que se sentem tranquilos porque os filhos são caseiros, mas a criança ou adolescente está o tempo todo no celular. Além de não fazer bem para a saúde (sedentarismo, problemas de concentração, problemas oftalmológicos, etc), o conteudo que está sendo consumido é preocupante e as pessoas com quem se conversam também pode ser. Porque sua criança pode estar se abrindo com um total estranho e pior, mal intencionado. E isso pode acontecer até em jogos online que possuem possibilidade de interação via bate-papo ou voz.
Meus pais instalaram a internet lá em casa quando eu tinha 15 anos. Eles sempre gostaram de tecnologia e na época havia um discador gratuito (sou desse tempo) e podíamos que usar apenas nos fins de semana (sábado depois das 14h). Naquele tempo eu acessava bate-papo Uol, tinha IRC, batia papo em inglês nuns bate-papos da Englishtown. Eu falava com muita gente mais velha do que eu, de vários lugares do mundo e tive contato com conteúdo impróprio. Quando eu recebia coisas assim, por medo eu já parava de responder à pessoa, já sabia que aquilo não era adequado. Talvez porque eu sou de uma família estruturada, pode ser. Sei que tive uma base para conseguir identificar esses conteúdos como inadequados. Mas esses conteúdos chegaram até mim e eu fui desrespeitada. Eu poderia ter sido aliciada se alguém se aproximasse de mim como amigo e soubesse tocar no ponto certo (porque quem alicia, sabe). Eu poderia ter sido aliciada se estivesse me sentindo muito carente, se tivesse problemas sérios de auto-estima, se não tivesse objetivos claros na minha vida, etc. Pensando bem, isso não aconteceu por sorte e por esse pouco de base que tive, mas hoje em dia as coisas mudaram muito. A internet democratizou-se (o que é bom) e as chances de encontrarmos mais pessoas mal intencionadas aumentou, claro.
Gostaria de acrescentar que eu vejo com maus olhos que o conceito de sugar daddy tenha se tornado algo relativamente trivial (em uma das histórias da Danny que mencionei anteriormente, a garota procurava um daddy). Eu já acho o termo monstruoso, porque associa a figura paterna (daddy) a algo erótico. Da mesma maneira, fico perplexa com a banalidade que serviços como only fans e de cam girls são tratados. É como se uma garota de 18 anos simplesmente pudesse ver nessas possibilidades algo para adquirir sucesso material, como uma oportunidade de carreira. Talvez haja um pensamento um pouco conservador de minha parte, porque sou de outra época. Mas acho que meu conservadorismo aqui é válido, não estou usando para oprimir ninguém e essa visão pode agregar. Será que uma garota de 18 anos tem condições de lidar com o tipo de interação que acontece nesses serviços? Há muita coisa negativa, muita coisa degradante e humilhante. Pesquisem a respeito, há muitos relatos assustadores de ex cam girls. Esses serviços podem ser a oportunidade de ouro para aliciadores, que prometem cuidar das moças e rapazes mais jovens. Isso não é tão colorido e tranquilo quanto muitas pessoas pintam.
Termino dizendo que nós educadores e pais precisamos estar atentos para ter conversas francas e verdadeiras com nossas crianças. Escutar atentamente e com acolhimento, porque o perigo pode estar escondido nas entrelinhas do que o adolescente está contando ou mostrando. E como eu disse anteriormente, acho que a sociedade precisa estar atenta como um todo. Porque às vezes é a manicure que vai salvar a moça que está prestes a fazer as malas e ir embora de casa para supostamente viver uma história de amor com um desconhecido ou para cair em outras armadilhas semelhantes.
Não deixem de ouvir as histórias do canal da Danny. Conhecendo algumas coisas que acontecem por aí, podemos até salvar vidas!
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E eu também escrevo sobre Meteorologia, Geografia, Literatura, Artes, etc. Eu tenho vários interesses e gosto de compartilhar por aqui. Recentemente escrevi também no Portal Deviante, onde falei sobre geada.
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Imagem de destaque do post: bichinho de pelúcia parado na linha do trem. Pixabay
