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O medo de alguém ler seu diário

Muita gente mantém registros pessoais e particulares. Alguns ainda os mantém de forma analógica, em cadernos, diários tradicionais. Outros os mantém em arquivos digitais. Seja qual for a maneira escolhida para manter seus registros pessoais, sempre há o temor de que alguém leia esse importante material.

Ler o diário alheio é uma violação de privacidade e para mim está no mesmo nível de ler os e-mails ou as mensagens alheias. Já ler o diário depois da morte do autor é outra discussão (que não é o objetivo desse texto). Frequentemente me pego imaginando uma situação dessas de violação de privacidade. Além do medo de que pessoas tenham acesso aos meus segredos (que nem são tantos assim), talvez meu maior medo seriam os equívocos de interpretação.

O que eu escrevo nos meus registros particulares faz sentido pra mim e eu não posso garantir que outras pessoas tenham a mesma interpretação do que eu. Afinal, é a minha vivência. Muitas vezes reflete algo do momento ou um desabafo. Em um dia que estou frustrada com alguma situação ou com alguém, claro que vou acabar com aquela pessoa nos meus escritos. E pode ser que dias depois, com a raiva esvanecida, eu tenha uma opinião completamente diferente. Pode ser que eu tenha escrito diante de um rompante de ódio ampliado pela TPM ou simplesmente por viver no Brasil.

Vamos supor que a vítima do meu rant de um certo dia qualquer leia os registros exatamente daquele dia. A vítima pode ser um familiar ou amigo. Talvez ela fique chateada se ler aquele registro isoladamente. Não vai ser responsabilidade minha, mas sim dela de ter lido um registro pessoal e violado minha privacidade. Algo semelhante já me aconteceu, porém com um texto público, quando certa vez escrevi um texto sobre visitas à recém-nascidos e uma pessoa querida se sentiu atingida. Na época me senti mal por ter chateado essa pessoa, mas hoje compreendo que a interpretação do texto e a tal história de “vestir a carapuça” são responsabilidade dela. De qualquer maneira, já há algum tempo tenho tido certo cuidado com o que publico para tentar evitar essas situações, de modo que certos registros tenho procurado manter em maneira privada. Quando estou triste ou com raiva, ou mesmo tomada por qualquer sentimento mais ampliado, tenho procurado me recolher e pensar com mais tranquilidade antes de qualquer decisão mais pública.

Talvez manter um arquivo eletrônico com senha ou o uso de um app de diário seja mais adequado para evitar bisbilhoteiros. Escrever da maneira antiga, em um caderno, pode ser um problema se você mora com outras pessoas. Talvez gavetas ou armários com tranca sejam uma opção. Quem dera viver numa sociedade em que a privacidade fosse respeitada! E em um mundo onde todo mundo quer expor tudo sobre sua própria vida, muitas vezes capitalizando em cima disso, querer manter certos fatos e conclusões para si mesma parece um exercício de resistência.

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Capa: entrada do diário de Theodore Roosevelt, no dia em que sua esposa faleceu com a frase “The light has gone out of my life” (A luz foi embora da minha vida). Fonte: Library of Congress

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Ainda sobre diários, recomendo o perfil @diarioantigo, do Instagram. A Jamile publica tudo sobre esse universo, com curiosidades históricas e dicas.

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