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O que eu pensava em 2008?

Caderno de anotações, croissant e café, dispostos em uma mesa. Imagem apenas decorativa.

Há pouco tempo li Rastejando até Belém, de Joan Didion. Escrevi uma resenha aqui, caso estejam interessados. O livro é uma seleção de alguns ensaios que a autora escreveu quando tinha entre 20-30 anos (década de 60). Hoje Didion tem mais de 80 anos e imagino que para ela seja um exercício interessante ler as coisas que ela escreveu quando mais nova.

Longe de mim querer me comparar com esse incrível ícone do Novo Jornalismo, seria uma heresia ou no mínimo total falta de bom senso. É que eu pensei nela enquanto revisitava alguns de meus textos antigos. Eu estou numa jornada de querer ter paz comigo mesma e quero aprender a amar aquela mocinha adolescente e a jovem adulta de 20 e poucos anos, por isso tenho lido coisas que escrevi no passado. Infelizmente joguei fora tudo da época de adolescente (cadernos, agendas, etc). Ainda vou dar mais uma vasculhada lá na casa dos meus pais, mas é quase certeza que foi tudo para o lixo.

Sobre o início da vida adulta, eu tive blogs. Eu escrevo em blogs desde 2004, mas eu tenho em arquivo coisas de 2008 em diante. Eu perdi muitas coisas, vários sites que hospedavam blogs deixaram de existir. Essas coisas de 2008 foram publicadas num blog que tive chamado Ajuda Eu, que começou com um post em que eu comparava a Mulher Melancia com uma estrela e a colocava no diagrama de Hertzsprung-Russel. Foi um post extremamente imbecil, mas que deu origem a muitos visitantes que caíram de paraquedas depois de buscarem de fotos da Mulher Melancia pelada (que eu não tinha). Fui escrevendo um monte de bobagem no blog, anos depois tirei ele do ar e ele ficou esquecido em meus arquivos. Recentemente abri esses arquivos e comecei a relê-los.

Vamos procurar um pouco de esperança naquela moça sem noção? Venha comigo nessa jornada que é muito sobre rir de si mesma.

Deixa o povo ser noob. E na medida do possível, explique com educação, seja educado e ajude a construir uma ‘sociedade’ virtual melhor.

 O que quero dizer com explicar com educação?  Sabe, dar aqueles toques sobre etiqueta virtual? Por exemplo, o adolescente chega em um forum, escrevendo em miguxês. Diga que no forum mensagens assim não são permitidas, porque torna a leitura difícil. O cara chega escrevendo em caixa alta: explique que é ruim, demonstra um tom de agressividade. Coisas assim, entende? Não custa falar e exercer a paciência. Eu acredito que nao maior parte das vezes, as pessoas não sabem que estão sendo incovenientes.

Texto de 2008.

Nesse trecho eu me vejo em vários criadores de thread do Twitter, que no alto de seus 20 e poucos anos se acham donos da razão e falando nesse tom, com essa propriedade. A gente muda! E tira das nossas costas o peso de querer ser dono da verdade, e tira essa coisa Girafalesca de querer explicar tudo pra todo mundo de maneira arrogante.

A gente não encerra assunto nenhum e eu tinha essa ideia autoritária. Quando escrevo algum post aqui no Meteorópole, principalmente nos últimos anos, é porque quero aguçar a curiosidade dos leitores. Aqui é um dos pontos de partida, por isso apresento as referências bibliográficas, outros sites e outras fontes. Com opinião é assim também. Acho que a gente não tem que seguir um guru (odeio esse termo). Temos que ler, ouvir uma porção de gente educada e culta que apresenta opiniões diversas e então essa exposição deveria nos ajudar a formar nossas próprias ideias.

O pior é que eu me lembro bem é que eu não era nada disso que eu estava aconselhando no trecho que destaco. Eu revirava os olhos por qualquer coisa, não tinha paciência nenhuma. E olha esse tom paternalista no texto, quanta arrogância.

Reler essas coisas é como ter uma máquina do tempo. Eu me imagino do lado da Samantha de 2008, querendo rir dessa doida e abraçá-la, tudo ao mesmo tempo.

Só sei que não gosto muito de São Paulo, queria mudar e tal. Mas eu gosto de reclamar, é provavel que eu reclamasse de outro local também. Em uma cidade menor, eu reclamaria das marias-fofoqueiras, tenho certeza disso. Odeio gente intrometida. Em cidade pequena tem muito de se meter na vida dos outros, né? Você coloca uma meia-calça roxa, um oxford e um vestido e te chamam de louca. Falam mal do seu cabelo, etc. Em São Paulo também tem, mas menos. 

Texto de 2008

Meu Deus, que garota chata hahahahahaha. Veste o que você quiser, minha filha.

Eu hoje moro numa cidade pequena, acho que nunca gostei de São Paulo de verdade. Nunca gostei do movimento e do amontoado de gente. É inegável que São Paulo tem uma diversidade incrível e muitas facilidades, mas é cheia pra burro.

Tenho o maior carinho por essa cidade em que moro atualmente e pelas pessoas que vivem aqui. Fui acolhida com muito carinho pelos meus vizinhos e comunidade escolar. Quando vou em algum comércio, sou muito bem recebida. As pessoas lembram umas das outras pelo nome e tentam dar sempre um excelente atendimento. Gosto daqui, o que está me machucando no momento é a pandemia e a saudade dos meus pais e do meu irmão (assunto para outro post: a pandemia está nos machucando).

Nunca passei por uma situação de fofoca aqui, vivo minha vida de maneira bem discreta. Se alguém comenta alguma coisa, eu realmente não estou sabendo e não tem problema. Todo mundo fala dos outros e tem suas opiniões. Quem nunca emitiu opiniões que atire a primeira pedra. Seria chato se alguém espalhasse calúnias sobre mim, mas isso nunca aconteceu aqui. Fofoca normal (emitir opiniões, dar pareceres, ser membro da platéia do Casos de Família) todo mundo faz! Isso não quer dizer que você tem uma opinião inteligente, daí é outra discussão…

E a propriedade no falar, que demonstro no trecho que destaquei? Eu achava que eu tinha certeza de tudo. Que engraçado. Hoje tenho certeza que não tenho certeza de nada.

Daí eu me contradigo e penso que até gosto de São Paulo. Porque a vida é menos chata aqui, sob esse aspecto. Tem pessoas com diferentes estilos, tem movimento, tem novidade… Ninguém te enche o saco. Então eu fico confusa. :-/

Claro que eu não sou tão vazia assim a ponto de achar que só essas tolices devem ser levadas em consideração ao dizer que se prefere ou não determinada cidade. É que eu estava pensando exatamente sobre isso nos últimos tempos.

Texto de 2008

As pessoas enchem o saco em São Paulo, tem gente chata em todo lugar. Daí eu arremato dizendo que “não sou tão vazia assim”. Amiga, tenho uma coisa pra te falar hahahahahah.

Minha querida Samantha de 2008, eu te amo. Mas você era muito chata, crendiospai

****

Acho que vou fazer isso mais vezes: vou selecionar mais outras coisas que escrevi em 2008 e comentar por aqui mais vezes. Foi um exercício bem curioso pra mim. Conquistei muitas coisas que eu almejava, mesmo que eu as almejasse por motivos equivocados. Estou aprendendo a viver, aprendendo a ser uma pessoa melhor, numa jornada que só tem fim quando a gente parte para a Eternidade. Estou respeitando meus erros, meus defeitos, minhas limitações. É um processo muito difícil, mas que está sendo muito bom. Estou aprendendo a dizer não, estou tentando me enxergar além das máscaras.

E tenho procurado enxergar além de mim.

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2 Comentários

  1. Foi muito interessante ler esse texto porque eu também tinha um blog lá em 2008 e eu gosto de fazer esse exercício de reler a Lorena daquela época. Algumas coisas me surpreendem positivamente, mas com outras acontece como aconteceu com você, eu fico com vergonha alheia de mim mesma ahahahaha! Mas eu tento me desculpar porque, afinal, eu era muito jovem (23 anos, na época). Eu pensava e falava muita bobagem. Assim como você, eu achava que sabia muito, minhas opiniões eram cheias de autoridade e eu achava que tinha que mostrar um lado muito seguro de mim, muito certa de quem eu era. Mas é tão bom não ter certeza de muita coisa, né?? Adoro essa sensação de liberdade que a maturidade traz, de que a gente não precisa provar muita coisa pra muita gente (não vou dizer “nada pra ninguém” porque acho que a gente ainda tenta dar algumas provas da gente, sim, somos humanas) e pode só ser, sem pensar muito no que a gente é.

    Eu tenho saudades de ser jovem porque a vida parecia mais descomplicada, mas quando penso na pessoinha que eu era em 2008, eu gosto muito da que eu sou hoje em 2021, viu??

    Adorei ver que não sou só eu que releio esses registros com um carinho constrangido!

    🙂

  2. Oi Lorena, sempre amo quando você lê meus posts. Eu tenho procurado aproveitar e alimentar essa sensação de liberdade que a maturidade traz. Você começa a perceber que o mundo é bem mais complexo do que você imaginava. Muito mais complexo… Só que ao menos pra mim, isso não me deixa perturbada ou em parafusos. Isso me faz constatar que eu não tenho certeza de nada e que há muitas coisas que é uma questão de percepção mesmo.

    Agora vamos lá, eu amei a expressão “carinho constrangido”. É bem isso, querida amiga hahahaha
    Beijos

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