O Racismo ambiental e o bulverismo

Recentemente a ministra Anielle Franco usou o termo racismo ambiental para se referir às consequências das chuvas no Rio de Janeiro, que deixaram 12 pessoas mortas e cerca de 600 desabrigadas.
Muita gente não conhecia a expressão e pensou que a ministra estava sugerindo que o ambiente pratica racismo contra pessoas, o que não faz nenhum sentido. Algumas pessoas nem tentaram compreender o que ela queria dizer simplesmente porque não possuem afinidade ideológica com a ministra. Nesse caso temos uma falácia lógica chamada bulverismo no qual eu já assumo que o oponente está errado porque não concordo com uma ideologia que defende, com a fé que professa ou com qualquer outra característica sua.
A expressão racismo ambiental foi mencionada pela primeira vez no início dos anos 80, quando o ativista norte-americano Benjamin Chavis protestava contra o despejo de substâncias tóxicas em um bairro pobre de uma cidade norte-americana. A maior parte das pessoas que viviam nesse bairro afetado por esses resíduos químicos perigosos eram negras, por isso o uso da palavra racismo. Portanto Chavis e outros ativistas chamavam a atenção para o fato de que pessoas que já eram pobres e moravam em locais precários que não recebiam a devida atenção das autoridades são as mais afetadas por questões relacionadas à poluição.
Observem que no início dos aos 80 a discussão sobre mudança climática era mínima, porém a discussão sobre outras questões ambientais estava muito efervescente. As legislações ambientais de cada país começaram a surgir e se fortalecer, começou-se a entender que não adiantava tentar consertar o ambiente quando o estrago já estava feito e por isso as legislações estavam começando a focar em questões relacionadas à prevenção de desastres. Com a produção científica na área de mudança climática, os especialistas começaram a alertar para o aquecimento global e suas consequências. Em posse dessas informações, ativistas começaram a entender que pessoas que já vivem em locais precários e possuem moradias inseguras serão (e já são) as mais afetadas pelas consequências do aquecimento global.
Um exemplo é o que recentemente ocorreu no Rio de Janeiro, em que as pessoas que já moravam em áreas de risco foram as mais afetadas pelas chuvas. Essas pessoas também são aquelas que terão mais dificuldade de reconstruir suas casas e comprar novos eletrodomésticos.
As pessoas que moram nessas áreas mais vulneráveis em sua maioria são negras. Negros tem em média salários mais baixos do que os brancos e são a maioria da população desempregada, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com essas informações, podemos compreender melhor o que significa o termo racismo ambiental (ou racismo climático, como tem sido usado para o caso específico da crise climática).
Evidentemente existem pessoas brancas pobres e periféricas, como foi meu caso ao longo de minha infância em adolescência. No entanto, somos minoria nas periferias. Por outro lado, se você vai a um bairro de classe média alta de qualquer grande cidade brasileira, vai encontrar mais moradores brancos do que moradores negros.
Para dizer a verdade, eu me sinto como um disco riscado relatando essas coisas porque essa é a realidade material do nosso país, não é preciso distorcer nenhum dado para chegar na conclusão de que a maioria dos pobres brasileiros é composta por pessoas negras. Pessoas pobres vivem nas favelas, em encostas, beiras de córregos e outros lugares que não oferecem condições seguras para se viver.
Além disso, a mudança climática amplifica as desigualdades que já existem, uma vez que pessoas ricas podem se mudar, investir em moradias de melhor qualidade e comprar qualquer solução tecnológica que prometa enfrentar a mudança climática. Podemos dizer o mesmo sobre países ricos. Por exemplo, quando um furacão atinge os EUA, a reconstrução é bem mais rápida do que quando atinge países pobres da América Central.
Não devemos ignorar um termo ou expressão que não conhecemos simplesmente porque não gostamos de quem a citou. Numa discussão tão séria que é a da vulnerabilidade das pessoas diante da catástrofe climática, é preciso compreender o que as autoridades estão fazendo para evitar seus efeitos destruidores. Talvez a ministra usou a expressão acreditando que todos já conhecessem e foi mal compreendida. Esse é muitas vezes o mal das autoridades (e dos acadêmicos), que frequentemente usam palavras e expressões difíceis e que são desconhecidas pela maioria das pessoas. Acredito que o caminho melhor é o de sempre simplificar esses discursos para ampliar o alcance.
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Não tem nada a ver com esse texto, mas recentemente falei sobre SIG (Sistema de Informação Geográfica) lá no Portal Deviante. Também quero indicar o texto da psicóloga Anna Rita Erthal que fala como a mudança climática pode afetar o comportamento das pessoas.
