Parasita (2019) e a desigualdade climática

Parasita (2019), filme sul-coreano aclamado pela crítica, nos permite discutir vários temas. Eu gostaria de destacar como um evento meteorológico extremo afeta pessoas de diferentes classes sociais de maneira distinta.
A partir daqui, caro leitor, teremos alguns spoilers. Se você ainda não assistiu ao filme, ele está disponível no momento através do streaming Prime Video. Assista e depois volte aqui no blog para continuar a leitura.
Num certo momento da história, uma chuva intensa cai durante a noite toda. Essa chuva afeta os planos da família rica, que estava em um acampamento e retorna antecipadamente para sua casa elegante em um bairro que fica em um local mais elevado da cidade. A família pobre, que fazia um banquete secreto na casa dos ricos, precisa fugir às pressas devido ao retorno prematuro da família rica. Eles pegam metrô e depois correm pela chuva, descendo muitas escadas até chegar em seu bairro pobre. A moradia precária, que fica em um nível abaixo da rua, é tomada pela inundação, com a água de esgoto retornando pelo encanamento.
Como consequência desse estrago todo, a família pobre fica desabrigada e vai para um ginásio cheio de outros desabrigados, situação que também vemos muito no Brasil na época das chuvas, onde escolas, igrejas e quadras se tornam moradias improvisadas até que as águas baixem e as famílias retornem para contabilizar os estragos.
Sem chuva, na manhã seguinte, que seria folga dos membros da família pobre, a família rica os convoca para trabalhar, pois haverá uma festa de aniversário para o menino mimado, já que o acampamento não deu certo. Como são ricos, conseguem organizar um evento maravilhoso de última hora. A mulher rica diz ao motorista pobre, agora desabrigado devido à chuva, que o evento meteorológico foi até uma coisa boa, já que limpou a poluição do céu. A patroa desconhece e ignora toda a situação do motorista e nem se informa sobre os estragos da chuva que, considerando a magnitude, deve ter sido notícia.
O gramado da casa dos ricos está impecável, mesmo após a chuva torrencial. O menino rico passou a noite numa cabaninha no gramado, chateado porque o acampamento não deu certo. A mulher rica não se preocupa com o acampamento improvisado do menino, pois a cabana é boa por ser fabricada nos Estados Unidos. Aqui temos um detalhe importante sobre a história da Península Coreana: embora a divisão entre o norte e o sul tenha se consolidado durante a Guerra da Coreia (1950-1953), ela teve início em 1945, após a ocupação japonesa, sob influência das zonas de controle soviética e estadunidense. Atualmente, essa hegemonia estadunidense se reflete de maneira cultural, como exemplificado no filme pela exaltação da qualidade da cabana e pela preferência por nomes ocidentais, como Kevin e Jessica. Essa preferência também é ligada ao prestígio associado a uma formação universitária nos EUA, reflexo de uma admiração por valores ocidentais que ainda permeia parte da sociedade sul-coreana.
Voltando à questão da chuva, fica claro que, enquanto os pobres estão desabrigados e preocupados em limpar toda a sujeira após a enchente, o evento meteorológico em nada afetou os ricos, que estão organizando grandes festas de última hora sem nenhuma dificuldade.
Reflexão sobre vulnerabilidade climática:
Este contraste entre as classes sociais destacado em Parasita é uma realidade em diversas partes do mundo. Dados da ONU mostram que comunidades vulneráveis, especialmente em países em desenvolvimento, são desproporcionalmente afetadas por eventos climáticos extremos, como enchentes, secas e furacões. No Brasil, as enchentes têm devastado populações em áreas periféricas, como ocorreu em São Sebastião (SP) em fevereiro de 2023, quando mais de 50 pessoas morreram em deslizamentos de terra após chuvas recordes. Já no mundo, países como Paquistão enfrentaram tragédias como as inundações de 2022, que deixaram mais de 1.700 mortos e milhões desabrigados.
A desigualdade social e econômica amplifica a vulnerabilidade climática. Enquanto os ricos podem se proteger com infraestrutura, seguros e recursos, os mais pobres enfrentam perdas irreparáveis. É essencial que políticas públicas e investimentos sejam direcionados para mitigar os impactos em comunidades mais frágeis, promovendo justiça climática e garantindo que os mais vulneráveis não sejam deixados para trás.
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