Não consigo receber a gentileza

Numa conversa com amigos, lembrei de algumas vivências do passado, lá em São Paulo. Aqui eu me refiro a vivências com certos colegas em certas situações de trabalho, certos conhecidos, certos professores, certos vizinhos e outras pessoas que foram desagradáveis. Quando digo desagradáveis, quero dizer desde hostis e mal educadas (o vizinho que não responde a um bom dia) até pessoas que realmente ferraram comigo. Vou falar especificamente de situações envolvendo vizinhos.
Deixando claro que obviamente a maior parte dos meus amigos está em São Paulo até porque vivi a maior parte de minha vida por lá, mas infelizmente também vivi muitas situações péssimas. Nem quero dar detalhes, porque não sei quem lê esse blog. Mas para vocês terem uma ideia do que já vivi por lá, vou contar duas histórias envolvendo pessoas da minha primeira vizinhança.
A primeira foi sobre o sumiço de dois cachorrinhos que eu tinha. Eles apenas sumiram, nunca mais os encontrei. Procurei por toda a vizinhança e ninguém viu nada, até que um moço disse ter visto uma moça carregando os cachorros. Nada foi comprovado, mas ele disse que essa moça é uma das personagens da próxima história.
Eram duas irmãs que implicavam gratuitamente comigo. Em uma certa ocasião, quando eu tinha 14 anos (e elas cerca de 16 e 19), elas me ofenderam na rua e também disseram algumas coisas sobre minha família. Eu fiquei irritada, ofendi a mãe delas e elas me agrediram. Penso especialmente na fracassada de 19 anos, que deveria estar trabalhando ou estudando nessa idade, mas estava arrumando briga na rua com uma menina de 14 anos e eu juro que nunca vou entender isso.
Depois de adulta, fui morar em outro bairro em São Paulo, tive alguns vizinhos escandalosos, reclamões e/ou que viviam com o que chamo de energia ruim. Aqui não quero ser mística e nem misturar com o conceito de energia da Física, pelo amor de dadá. Quero só dizer que são pessoas que te encontram e não respondem seu bom dia, pessoas que vivem carrancudas, que fingem não te ver, que quando te encontram casualmente no elevador fazem comentários absurdos sobre política ou ciência, etc. Enfim, pessoas simplesmente desagradáveis.
Esses acontecimentos (e muitos outros, geralmente envolvendo as mesmas pessoas) me marcaram até hoje. Eu tenho dificuldade de confiar em vizinhos. Obviamente não estou esperando encontrar melhores amigos em minha vizinhança. Apenas não consigo estar aberta, tenho dificuldade de aceitar uma ajuda simples, por exemplo. Outro dia uma vizinha recebeu um pacote pra mim e eu fiquei dois dias sem encontrá-la. Fiquei preocupada, já achei que levei um golpe. Noutro dia, outra vizinha simpática pediu um pouco de hortelã e disse que regaria minhas plantas se eu precisasse viajar. Viajei e não quis pedir. Foram muitas situações bacanas ao longo desses anos vivendo em Minas Gerais, desde desconhecidos me chamando pra tomar café em suas casas até mulheres incríveis me ajudando no grupo de mães. Acho que só não recebo mais gentilezas porque sou uma pessoa fechada devido essas experiências ruins do passado.
Em tudo isso, percebi que tenho dificuldade em receber gentilezas. Talvez Minas Gerais esteja curando essa dificuldade, permitindo que eu tenha algo novo. Quero aceitar com sabedoria, obrigada.

Quando a gente leva umas rasteiras da vida é quase que inavitável criar uma casca pra se proteger no futuro. Penso que essa casca não é ruim a priori. Ela só não pode turvar nossa visão. Achar esse equilíbrio é difícil (falo por experiência). Fico contente que, cada uma a seu modo, estamos conseguindo achar nossos próprios equilibrios entre autopreservação e aceitar as gentilezas cotidianas que atravessam nossos caminhos. Feliz 2025 pra ti, Samantha!
Izabel, suas palavras sintetizaram a essência desse post. Encontrar esse equilíbrio é muito importante, mas nem sempre é fácil. Também fico orgulhosa que estamos conseguindo. Feliz 2025 para você também <3 e obrigada pela visita.