Somos todas Bruna

Eu cresci em Itaquera e morei no bairro durante toda minha graduação em Meteorologia, na USP (no CUASO, lá no Butantã). Até hoje me lembro da primeira vez que vi o campus. Eu estava com minha mãe e foi no dia da matrícula. Pois é, eu me inscrevi no vestibular sem conhecer o campus, eu nem tinha ideia de como chegar lá.
Nesse dia que fui na USP pela primeira vez, eu me sentia em um mundo completamente diferente. Eu já havia saído de Itaquera outras vezes, pois eu estudei meu ensino médio na Penha e na Armênia. Também conhecia bem o centro de São Paulo, pois meu pai trabalhava na região. Só que a USP era uma coisa completamente diferente, porque era uma espécie de Parque do Carmo com várias edificações diferentes, um campus universitário evidentemente, mas eu nunca havia visto um lugar como aquele.
Foi evidente para mim notar que vários colegas que conheci na USP já conheciam aquele campus antes mesmo de se matricularem, muitos já conheciam outras universidades e conheciam até outros países. Eu era uma moça simples de um bairro pobre: Itaquera, mais especificamente, Vila Carmosina.
Logo fui me habituando, conheci por lá pessoas de outras periferias desse mundo. Não fui morar no Butantã durante a graduação, o que me fazia enfrentar horas de viagens diárias. Felizmente eu tive muitas vezes a ajuda de meu pai e de amigos e amigas, que faziam aquele volume de gente no ponto de ônibus para nos protegermos. Só que quando eu chegava no Terminal Itaquera lá pelas 22h, eu não tinha mais ninguém. Meus amigos todos eram de outros bairros ou outras cidades e eu tinha companhia somente até o Tatuapé, onde morava minha amiga Camila.
Ali, esperando o ônibus que me levaria até a Vila Carmosina, eu estava sozinha. Não havia Uber naquele tempo e às vezes meu pai me buscava lá no metrô, o que também era complicado, uma vez que eu precisava sair do Terminal Itaquera para pegar a carona, já que carros não entravam ali na área dos ônibus.
Naquele tempo (cerca de 20 anos atrás), não havia Shopping, FATEC, UPA ou Estádio do Corinthians. Era tudo muito ermo, cheio de terrenos baldios. Conheço pessoas que foram assaltadas na região; uma delas, um rapaz, também teve toda sua roupa roubada e precisou pedir ajuda na guarita do pátio de manobras no metrô.
Todas as vezes que eu chegava tarde no Terminal Itaquera para esperar o ônibus, eu sentia medo.
Hoje há todas essas instalações que mencionei anteriormente, o que faz alguns pensarem que isso deixou a região mais movimentada. Não, não deixou. Ainda são muitas áreas vazias, essas construções são muito amplas e um tanto distante uma das outras, no ponto de vista de uma pedestre. Depois da UPA, você ainda precisa andar bastante pra sair dos trechos mais ermos, há muitos lotes vazios, usuários de drogas, lotes sujos e toda degradação que vemos em diversos pontos da cidade de São Paulo.
Além disso, quase não há policiamento ou câmeras de segurança. Uma área tão grande como aquela precisa de muito policiamento. Saber que nada mudou nos últimos 20 anos, com certeza é desolador. A violência é sempre maior contra as mulheres, pelo nosso porte físico e também porque a violência nos mostra outras faces.
Bruna era uma aluna da USP, como eu fui. Ela estudava na EACH, outro campus da USP na capital, que fica perto da Penha, na Zona Leste. Fez graduação e era estudante de mestrado na mesma unidade. Havia também trabalhado em uma agência de turismo, já que essa era sua formação. Era uma mãe jovem, de 28 anos, que tinha um filho de menos de 10 anos. Eu sou bem mais velha do que ela, mas sou parecida.
Quando olho para a história e até para o seu rosto, penso que Bruna e eu temos muito em comum. Ela também era uma mulher batalhadora da Vila Carmosina, como tantas outras mulheres, que saem cedo de casa para trabalhar ou estudar, que almejam realizar os seus sonhos, que vivem cansadas, que sentem medo no Terminal Itaquera, que sentem medo de assédio nos vagões do metrô, que sentem medo de andar nas ruas tarde da noite, que aguentam chefes horríveis, que ficam cansadas o tempo todo mas que fazem tudo isso porque não há outra alternativa. Porque nós sonhamos. Porque nós sobrevivemos.
A Bruna sonhava. Seus sonhos foram roubados, sua família e amigos perderam a presença dessa moça brilhante que acreditava que podia mudar o mundo e que estava fazendo sua parte. Ela voltava do Butantã, voltava da casa do namorado que morava nesse bairro. Eu também tinha um namorado que morava no Butantã, eu ia para o Butantã todo dia, eu também queria chegar logo na minha casa, eu também fico sem dinheiro às vezes, meu celular também fica sem bateria em momentos complicados.
A Bruna sou eu.
Eu quero justiça.
Eu tenho acompanhado esse caso nos meios de comunicação. Tenho lido o julgamento ignorante de quem aparentemente nunca errou, de quem não conhece a região, de quem sempre perde a oportunidade de ficar calado, de quem não tem respeito, de quem se deixou calejar por tanta violência e já não consegue mais analisar as situações com empatia.
Eu só quero justiça.
Um abraço nos pais da Bruna, pois poderiam ser meus pais. Um abraço em seu filhinho e em seus amigos. Que a justiça venha. Que hajam mudanças.
