Suicídios e meteorologia
Quando estava escrevendo o post sobre criminalidade e meteorologia, achei curioso não ter encontrado nenhum trabalho que relacione clima a criminalidade na cidade de São Paulo-SP. Digo curiosamente porque São Paulo é a maior cidade do país, e provavelmente uma das mais violentas também. Porém, encontrei um artigo na revista Ciência Hoje relacionando meteorologia e suicídios na cidade de São Paulo-SP. Decidi comentar este artigo aqui por que este é um outro mito muito comum em vários países, até falei brevemente sobre este assunto aqui.
Na tese de doutorado do médico psicoterapeuta Kennedy Nejar, ele verificou se existia uma correlação entre algumas variáveis meteorológicas (temperatura e irradiação solar) com a ocorrência de suicídios na cidade de São Paulo. Durante as pesquisas bibliográficas de Nejar, ele encontrou artigos publicados em que os autores relacionavam suicídios com condições meteorológicas. O trabalho de Nejar, no entanto, conclui que não é possível estabelecer relação entre meteorologia e suicídios.
Nejar apresentou uma conclusão muito positiva em seu trabalho: a quantidade de casos de suicídios caiu ao longo do período analisado, apesar do crescimento populacional. O gráfco abaixo, mostra a ocorrência de suicídios em São Paulo ao longo do período estudado por Nejar. Os suicídios são mais comuns na faixa entre os 20 e os 29 anos.
Suicídio é um tema muito polêmico e delicado. É um assunto que raramente é noticiado (exceto em casos de famosos, quando não há como esconder). É um assunto triste também, porque abala e marca a família da vítima. O CVV é um serviço gratuito de orientação emocional. Eles oferecem atendimento via chat e via telefone (141). É um trabalho voluntário maravilhoso, que busca oferecer apoio emocional a pessoas muito tristes, deprimidas, angustiadas e com pensamentos suicidas.
Eu nem queria escrever esse post. O assunto é muito triste, mas o trabalho de Nejar é bastante interessante. Agora vou contar para vocês uma curiosidade interessante, naquela linha de “Ouvi no Metrô”. Sim gente, eu presto atenção na conversa alheia (shame on me!), mas acabo aprendendo bastante com isso. Semanas atrás aprendi por que suicídios não são noticiados.
Na verdade, não há uma lei que proíba a divulgação. Eu já li notícias de suicídios, principalmente quando a vítima é famosa. Então ouvindo a conversa de algumas pessoas no metrô, soube de um tal Efeito Werther. E corri para pesquisar.
O nome Efeito Werther veio de um livro de Goethe, publicado no século XVIII. O romance chamava-se As desventuras do jovem Werther, que contava a história de um cara apaixonado por uma mulher comprometida. Como a paixão não podia se concretizar, o cara ficou infeliz e acabou se matando. Aparentemente o livro fez muito sucesso por toda a Europa e reza a lenda que ele influenciou o comportamento dos jovens. Houve uma epidemia de suicídios, o que fez com que o livro ficasse proibido em diversos países por muito tempo.
Aparentemente, o Efeito Werther é usado para explicar qualquer cópia de comportamento. Talvez as ombreiras, os cabelos repicados estilo Claudia Raia nos anos 80 e a modinha dos vampiros Crepúsculo possam ser também casos de Efeito Werther.
Existe um termo em inglês muito utilizado em criminologia chamado copycat. Não sei traduzir isso, mas a ideia é de copiar algo que já aconteceu, normalmente usado no contexto de copiar um crime brutal (usando as mesmas armas e rituais) ou de copiar suicídio (copiar as circunstâncias do suicídio, os locais, os métodos). Por isso, em inglês usa-se o termo copycat suicide. Para evitar que pessoas se inspirem no suicídio cometido por outras pessoas, normalmente a mídia não faz cobertura. É uma espécie de “lei do bom senso”, embora não haja uma lei proibindo notícias de suicídio (pelo menos aqui no Brasil, não tenho conhecimento).
Talvez algumas pessoas se perguntem: mas é possível alguém copiar um caso de suicídio? Sim, infelizmente. Claro que para isso a pessoa já deve estar com problemas que motivam este sentimento. Pessoas com a mente saudável não são “inspiradas” a cometerem suicídio por casos noticiados.
Consigo me lembrar de pelo menos dois casos relacionados com este assunto. Um deles é o da Floresta de Aokigahara, no Japão. Nessa floresta, a densidade de árvores é muito grande, ou seja, quase não há clareiras e o espaço entre uma árvore e outra é mínimo. Por isso o local também é conhecido como Mar de Árvores. O que seria um lugar interessante e bonito, infelizmente ficou famoso pelo alarmante número de suicídios que ocorrem no local. Ao que parece, tudo começou com uma novela chamada Seicho Matsumoto, que termina com dois amantes cometendo suicídio nessa floresta. Em 2003, 100 pessoas cometeram suicídios no local e o governo e a imprensa japonesa deixaram de noticiar suicídios, como tentativa de evitar que mais pessoas fossem influenciadas.

O outro local relacionado com este assunto é a The Gap, penhasco localizado nas proximidades de Sidney, Australia. Cerca de 50 pessoas, anualmente, cometem suicídio neste penhasco. Don Ritchie diz que salvou mais de 400 pessoas no local, usando muita conversa, amor e paciência. No local, uma famosa modelo australiana foi assassinada (por muito temo acreditou-se que foi suicídio, antes de concluírem o inquérito e prenderem seu namorado) e uma jornalista local cometeu suicídio. Especula-se que estes casos tenham feito com que outras pessoas decidissem cometer suicídio no mesmo local. O problema é tão sério que levou as autoridades e instalarem uma cerca no local:

Esse é um post com informações sobre curiosidades. Era para falar sobre a relação entre suicídios e meteorologia e acabei falando sobre assuntos relacionados (ou nem tão relacionados assim), o que sempre acontece quando escrevo.
Finalizo, pedindo o seguinte: se você está com pensamentos ruins em sua mente, com mágoas, depressão e angústias, procure o CVV. É uma entidade que realiza um trabalho lindo, sem fins lucrativos, com o real objetivo de ajudar quem passa por estes problemas. Por isso aproveito este post para divulgar o trabalho deles.


Também já li estudos que tentavam relacionar as estações do ano na Europa com o número de suicídios. Mas esta é a pior maneira possível de terminar a vida, independentemente de você acreditar ou não em vida após a morte.
A vida está corrida, as pessoas se esquecem de algo muito importante que é o autoconhecimento e com isso vão acumulando tristezas e mágoas. Algumas acabam entrando na depressão, que é o gatilho decisivo para os pensamentos de autodestruição. Este site é realmente muito bom, que bom que o mundo ainda tem pessoas que colaboram com o trabalho voluntário no bem.
Sua hipótese sobre o efeito Werther (que eu não conhecia) está correta. Estima-se que pelo menos uma vez por semana no Metrô um usuário se jogue intencionalmente na linha (o famoso “usuário na via” que eles anunciam), resultando em morte ou não. Isso causa transtornos enormes, pois a via tem de ser desenergizada para o resgate, e todos sabemos que 5 minutos de trens parados são suficientes para causar um caos e o SPTV noticiar o tumulto. Não há acordo formal que impeça a imprensa de noticiar os casos de suicídio, mas justamente para evitar esses transtornos há um acordo tácito, para não estimular alguém já fragilizado a imitar o ato.
É verdade :(: a pior forma de terminar a vida. È muito triste. Conheço pessoas que perderam familiares desta forma e a luta diária é muito difícil para elas. O trabalho do CVV é lindo, admiro muito. É valoroso que existam pessoas dispostas a ouvir o outro e a evitar tragédias.
Obrigada pela visita e em breve publicarei suas fotos 🙂
O interessante foi que ouvi sobre este efeito quando estava no metrô e duas pessoas desconhecidas falavam sobre o tema rs. Quando cheguei em casa, fui pesquisar.
É muito curioso ver até que ponto uma pessoa pode ser influenciada. Se ela já está fragilizada, triste, angustiada ou deprimida, creio que essa influẽncia pode ser ainda maior!
Obrigada pela visita 🙂
Abs