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O nome popular das plantas: o caso onze-horas

Perto da escola dos meus filhos, muitas onze-horas (Portulaca grandiflora) nasceram em alguns canteiros. Nesse período de pandemia, antes das férias, eu costumava ir até a escola semanalmente buscar as atividades do mais velho e sempre admirava essas plantas. Eu conversava com elas e dizia que elas estavam adiantadas, porque muitas vezes não era nem 10h da manhã e a florzinha já tinha aparecido. Sou dessas, a pandemia me deixou maluca (?) e provavelmente minha consciência da importância das plantas aumentou.

Portulaca grandiflora, a onze-horas. Fonte: Wikimedia commons

Essa florzinha é muito popular em jardins e há quem diga que presentear alguém com onze-horas é uma confissão de amor. Uma florzinha que gosta de bastante sol e relativamente fácil de cuidar, acredito que é um presentinho excelente para uma pessoa querida que ama plantas. Fica uma graça como “forragem” em qualquer jardim (leia isso com a voz da Ananda Apple).

A onze-horas é uma planta nativa do Centro-sul do Brasil, assim como da Argentina e do Uruguai. E ela atrai abelhas :). E para algumas pessoas, pelo o que li, a onze-horas também é chamada de beldroega (acompanhem, porque vocês vão entender a confusão que isso vai dar). Na verdade, beldroega é um nome bem genérico, dado para várias plantas. Por isso a gente tem que se atentar a descrição da planta e se for do interesse, aprender os nomes científicos.

Não encontrei nenhuma informação sobre uso alimentício ou medicinal da onze-horas. Mas, há uma parente da Portulaca grandiflora que é conhecida mundialmente: a Portulaca oleracea, cujas florzinhas amarelas também se abrem perto das 11h.

Portulaca oleracea. As florzinhas amarelas e as folhas de aspecto suculento que tem tamanho de 1-3cm são a principal característica da planta. Os ramos tem de 20-40cm de comprimento e ´podem ser consumidos junto com as folhas. Imagem de Wikimedia Commons

A Portulaca oleracea, amplamente conhecida como beldroega na língua portuguesa (falei que ia dar confusão rsrs), é utilizada na culinária de diversos países, sendo uma planta muito nutritiva e versátil. A beldroega vem sendo utilizada na alimentação humana desde a Antiguidade, com usos que vão desde a preparação de conservas, refogados, assados, saladas, dentre outros. Combina com carne moída (fica bem gostoso e enriquece o prato) e já li que combina com peixe também.

Aqui na minha rua a beldroega nasceu na sarjeta (comentei sobre isso quando falei da tanchagem). Peguei uma muda e tentei replantar, mas não deu certo no vaso que eu tinha disponível, uma pena. Infelizmente na casa que moro atualmente estou restrita para plantar, uma vez que não há uma área que não esteja impermeabilizada (lamentavelmente) e tenho que plantar as coisas em vasos. A beldroega, assim como sua parente onze-horas, também gosta de áreas ensolaradas e solos com boa drenagem.

A planta que aparece no centro é a tanchagem (Plantago major). Do lado esquerdo temos beldroega (Portulaca oleracea), porém infelizmente as flores amarelas não apareceram nessa foto (já era depois das 15h quando tirei a foto e as flores estavam fechadas – mas um observador atendo vai ver os botões). Do lado direito, bem próximo ao chão, podemos ver brilhantina (Pilea microphylla).

O que me motivou a escrever esse post é que encontrei em algumas de minhas leituras a informação de que a Portulaca oleracea (beldroega) também pode ser chamada de onze-horas, pois as florzinhas também nascem mais ou menos nesse horário. Agora imagine a confusão, com plantas possuindo o mesmo nome popular (o que não é incomum).

Por isso é preciso conhecer a aparência da planta e seus usos e se for de interesse, conhecer também a nomenclatura científica. Falar sobre plantas é muito gostoso e exige paciência e carinho, pois você precisa descrevê-las pra confirmar se você e seu interlocutor estão falando da mesma plantinha. Termos científicos são legais na Academia ou mesmo se você está estudando Botânica de maneira amadora. No entanto, a descrição básica e os nomes populares são valiosíssimos para aprendermos mais com os mais velhos e para espalhar a importância das plantas.

Bom, beldroega me faz pensar em beldroegão (Talinum paniculatum). O beldroegão é uma planta que eu tenho usado bastante porque ela se deu muito bem no meu quintal. É importante destacar que o beldroegão é da família Talinaceae, enquanto a beldroega e a onze-horas são da família Portulacaceae. Apesar de não serem “aparentadas” e nem serem semelhantes, a beldroega e o beldroegão tem usos culinários muito semelhantes e são ambas muito versáteis na preparação de pratos.

Talinum paniculatum, ou beldroegão (também major-gomes, maria-gomes, etc). Uma planta que nasce e cresce muito bem no Centro-Sul do Brasil, onde o clima possui estação seca e chuvosa bem definida. As folhas são grandes (5-11cm) quando comparadas às da beldroega (Portulaca oleracea). As florzinhas são lilás e são muito graciosas. Imagem de Herbarium-Unirio

E olha só uma coisa: dois sinônimos botânicos do beldroegão são Portulaca paniculata ou Portulaca patens (de acordo com as descrições de outros botânicos). Houve no passado, portanto, uma observação de uma ligeira semelhança entre as duas plantas: apesar de bem diferentes, ambas possuem folhas bem brilhantes e vistosas (a do beldroegão sendo maior) e são ambas comestíveis. Depois de organizarem a classificação e com outros métodos, identificou-se que elas não eram parentes, pertencendo cada uma a uma família botânica distinta, conforme comentamos.

Vamos portanto resumir aqui:

meme da nazaré pensando com fórmulas matemáticas ao fundo
  • Portulaca grandiflora é a onze-horas, planta popular usada em jardinagem. Para algumas pessoas, é chamada de beldroega também;
  • Só que beldroega é o nome popular da Portulaca oleracea, considerada PANC (planta alimentícia não convencional) e que faz parte da alimentação humana desde a Antiguidade e algumas pessoas chamam Portulaca oleracea de onze-horas também;
  • existe ainda o beldroegão, a Talinum paniculatum, que tem por sinônimo botânico Portulaca paniculata ou Portulaca patens. É uma PANC bastante utilizada e que nasce super bem em boa parte do Brasil.

Sendo assim…

Falar de plantas é assim. Uma planta puxa o assunto de outra planta. E quem gosta de pesquisar sobre plantas e ler sobre elas, como é meu caso, sempre aprende enquanto escreve, Procuro informar os nomes científicos corretos, mas claro, não é minha formação. Faço isso de maneira amadoras: caso você seja um leitor chegando agora, sou Meteorologista, faço Licenciatura e estudo botânica de maneira amadora. Se por algum acaso algum Biólogo chegar até esse post e observar algo para corrigir, informe nos comentários para que todos nós possamos aprender.

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Referências bibliográficas

Minha maior referência foi o livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil. Sempre indico esse livro no blog pois ele me ajuda bastante a identificar espécies de PANC. Mas eu também peguei imagens e descrições dos seguintes textos:

Radar Meteorópole

No Radar Meteorópole (nome sugerido pelo Vinícius) eu dou algumas dicas de coisas interessantes que vi por aí.

  • Por falar em Vinícius, ele comentou no meu post mais recente sobre cabeça dágua dando a dica de um vídeo incrível feito por um drone que registrou uma cabeça d’água no Havaí. Veja aqui.
  • A Bruna escreveu sobre as nuvens de gafanhoto pelo mundo durante o ano de 2020. Vamos aprender por que elas se formam e o que isso tem a ver com mudanças climáticas. Leia aqui.
  • Acho que já indiquei mas vale a pena comentar de novo: esse site do IBB-UNESP com plantas medicinais do Cerrado.

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