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Rockhopper Cooper – Resenha

Gosto muito de ler sobre ilhas, lugares remotos e navegação. Há alguns anos escrevi um texto sobre o arquipélago de Tristão da Cunha e desde então o livro Rockhopper Cooper- the life and times of the people of the most remote inhabited island on Earth estava na minha lista de leituras. Bom, agora não está mais porque eu o li e vou falar um pouco sobre isso para vocês.

“For on Tristan, the weather reigns supreme. It dictates whether it’s a day for fishing, offloading the cargo, going to Nightingale or re-roofing a house or working at The Patches.”

Conrad Glass – Rockhopper Cooper- the life and times of the people of the most remote inhabited island on Earth
Capa de Rockhopper Cooper- the life and times of the people of the most remote inhabited island on Earth . Para facilitar, ao longo do texto vou chamar o livro apenas de Rockhopper Cooper.

Rockhopper Cooper foi escrito por Conrad Glass, que é policial em Tristão da Cunha, mas também já foi dirigente da ilha (Chief Islander), ou seja, líder do Tristão da Cunha Island Council. No livro, um pouco dessa organização administrativa de Tristão da Cunha é explicada: há as lideranças locais e há também um adminstrador desginado pelo Reino Unido da Grã-Bretanha, uma vez que a ilha é um dos vários territórios além-mar do Reino Unido.

E o que faz um policial na ilha mais remota do mundo e com menos de 300 habitantes? Glass fala um pouco de sua experiência em solucionar conflitos entre vizinhos (nada sério, todos parecem se dar bem). São conflitos como descobrir qual cachorro de qual vizinho está atacando as ovelhas dos outros vizinhos. O trabalho de Glass, conforme ele narra, vai além do policiamento. Ele também atua em questões alfandegárias, inspecionando bagagens e passaportes dos visitantes e moradores da ilha quando entram e quando saem. Glass ainda atua no conservacionismo e no trabalho educativo com as crianças da ilha. Suas atividades pessoais ainda envolvem os trabalhos nos campos de batatas (The Patches, como os tristanianos chamam) e pesca. O tristaniano desenvolve múltiplas habilidades para desempenhar inúmeras tarefas, o que é bem próximo daquilo que a gente vê em pequenos vilarejos rurais daqui do Brasil, onde o morador do lugar precisa ser forte, resiliente e criativo para resolver seus problemas cotidianos.

Rockhopper Copper não é uma narrativa linear ou que trata de um único assunto. Conrad Glass oferece sua própria visão sobre a ilha, sendo ele descendente direto de um dos pioneiros da ilha, William Glass. William Glass chegou na ilha em meados do século XIX onde teve 15 filhos, sendo Glass o sobrenome mais comum da ilha atualmente.

No começo do texto falo em arquipélago de Tristão da Cunha e depois passo a me referir apenas como a ilha. É que o arquipélago de Tristão da Cunha tem como ilha principal a ilha de Tristão da Cunha, onde fica a vila de Edimbugo dos Sete Mares. Essa vila é onde todos moram, embora os moradores também tenham cabanas na área do campo de batatas e os homens tenham cabanas de pesca na Ilha Nightingale, que é outra ilha que compõe o arquipélago.

O arquipélago de Tristão da Cunha é composto pelas ilha Tristão da Cunha, ilha Inacessível, ilha Nightingale e ilha Gough (ilha Gonçalo Álvares). A ilha Tristão da Cunha, como mencionei, é habitada. A ilha Inacessível é desabitada, sendo uma reserva natural. A ilha Nightingale é desabitada na maior parte do tempo (exceto quando os tristanianos usam as cabanas de pesca) e a ilha Gonçalo Álvares é habitada por meteorologistas sulafricanos – e isso exige um post especial.

O trabalho de conservacionismo de Glass e outros tristanianos envolve o monitoramento da população de pinguins e seus ninhos e de outras espécies que moram no arquipélago. Quando li rapidamente sobre Rockhopper Cooper pela primeira vez achei que se tratasse de um livro de conservacionismo, uma vez que rockhopper é o nome de uma espécie de pinguim. Então li o título do livro completo ( Rockhopper Cooper- the life and times of the people of the most remote inhabited island on Earth ) e li algumas resenhas e entendi que o livro é mais do que isso e que o conservacionismo é apenas um dos capítulos do livro.

Rockhopper, espécie de pinguim que fica pulando de rocha em rocha. Collins dictionary.

O tristaniano precisa ser forte e corajoso, já que viagens de barco fazem parte de seu cotidiano. E o mar não é nada calmo por aquela região. Tanto que alguns visitantes que chegam lá por navio não conseguem desembarcar na ilha, pois precisam fazê-lo usando barcos menores e nem sempre as condições do mar permitem esse trajeto com segurança. Muitos dos relatos em Rockhopper Cooper tratam de aventuras no mar vividas por Glass, por outros tristanianos ou por visitantes. Algumas dessas aventuras infelizmente terminaram em tragédias, como numa ocasião há algumas décadas em que vários homens tristanianos morreram quando uma pequena embarcação desapareceu.

O livro também menciona os desastres naturais que atingiram a ilha e o impacto desses acontecimentos na vida dos tristanianos. A propósito, o livro começa falando da erupção vulcânica de 1961, quando os moradores da ilha foram re-alocados para viverem no Reino Unido, onde ficaram por cerca de 2 anos e depois retornaram. Além do vulcão, o livro menciona o furacão que atingiu a ilha em 2001 e sobre o incêndio que atingiu a fábrica de pescados em 2008. O lema de Tristão da Cunha é “Our faith is our strenght” (Nossa fé é nossa força) e isso fica muito claro, pois o tristaniano age com muita resiliência diante dessas catástrofes. Além disso, Glass narra sobre a solidariedade na ilha, pois durante a erupção vulcânica e o furacão ficou claro o quanto um morador ajuda o outro, dando atenção às crianças e idosos.

Tem muita coisa positiva para falar sobre esse livro e eu aprendi muita coisa durante a leitura. Se quiser saber sobre Tristão de Cunha, realmente é um excelente livro pois é a narrativa de um morador da ilha. Uma das coisas que Glass menciona no capítulo final é o paternalismo e preconceito com que alguns estrangeiros tratam os moradores da ilha. Com isso, Glass sugeriu que muitos dos livros sobre a ilha não tratam os ilhéus com respeito, mesmo que não intencionalmente. São relatos de pessoas que não viveram lá, muitas sequer visitaram o local.

Por falar nisso, visitar tristão da Cunha exige paciência: uma semana de viagem da África do Sul até o arquipélago, pois não há aeroporto por lá. Não há hotéis na ilha, então o turista vai se hospedar em alguma casa de hóspedes ou até mesmo na casa de algum morador, o que é arranjado com antecedêmncia e com muita generosidade. Os cruzeiros especializados que chegam até lá normalmente fazem passeios de um dia nas ilhas e nem sempre é possível desembarcar, como mencionei. Glass dá algumas informações turísticas no livro, mas é sempre importante checar o site da ilha. No site há também diversas informações sobre filatelia, já que há muitos colecionadores que procuram selos do arquipélago.

Gostei muito do livro e aprendi bastante com ele. Não é um livro especializado em vida selvagem, Geologia ou Geografia. Por exemplo, se você quiser ler sobre a erupção vulcânica de 1961 do ponto de vista geológico ou sobre a conservação de espécies de pinguins, não é um livro que trate apenas de um desses temas. Glass fala de suas vivências, da história de sua família, de seus pontos de vista e narra com muito carinho e respeito a vida e a história de sua ilha.

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