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Sinto falta dos erros de português

Há muitos anos existia um blog que hoje entendo como um lugar tóxico. Esse blog se dedicava a debochar de blogueiras, o que era feito de acordo com vários critérios: ser uma blogueira sem noção que estava ostentando, vestir-se de uma maneira “cafona”, ser pega na mentira ou escrever mal, por exemplo.

Como chamávamos naquele tempo, era um blog de “xoxação” ou “gongação”, palavras essas que aparentemente caíram em desuso, mas que significam zombar ou debochar. A dona do blog debochava das gafes das outras blogueiras e também suas seguidoras, nos comentários.

Não vou mentir, eu também era leitora desse blog. Com o tempo, o conteúdo começou a me incomodar, principalmente quando envolvia debochar de blogueiras fora do padrão estético europeu ou blogueiras que escreviam mal. Além disso, a identidade da dona do blog foi descoberta e a coisa toda esfriou.

Quero focar aqui especificamente na questão escrever mal. Ser fluente na escrita é algo que exige muita leitura, exige acesso à educação de qualidade e exige também gostar de escrever. Por exemplo, eu gosto de escrever, embora eu saiba que eu tenha minhas deficiências nisso e esteja constantemente aprendendo.

Recentemente, tenho visto poucos posts em blogs, trabalhos escolares e trabalhos científicos mal escritos. Antes era comum ir a um evento científico e ver pôsteres com alguns erros, alguma coisinha ali de concordância verbal que passou e o orientador e os colegas da equipe não observaram. Hoje em dia, tudo está escrito muito certinho. Eu desconfio (com quase total certeza) que os modelos de linguagem (IA generativa, tipo ChatGPT) tem um importante papel nisso. Se você escreve mal, o modelo de linguagem te ajuda. Ele te ajuda com erros simples de concordância e também te ajuda se você é pouco fluente na escrita. A questão é que ele te ajuda, ele faz para você, porém aprender depende de cada um e tenho a impressão que essa ferramenta pode nos deixar preguiçoso. Também tenho a impressão que essas ferramentas homogeneízam a escrita pois o estilo pessoal fica diluído em meio a tantas correções.

Nesse contexto, eu sinto falta dos erros de português. Eles são tão humanos, eles nos permitem melhorar e entender melhor nosso idioma. Quando a gente corrige um trabalho escolar e vê um erro de português, sabe que ali um aluno está tentando. Hoje em dia, não dá nem pra saber se o aluno pelo menos tentou. Eu penso que tudo isso é muito desafiador, talvez vai chegar em um ponto onde as avaliações serão mais orais. Eu mesma fiz algumas disciplinas da pós onde haviam seminários, concluí que os professores já estavam nos preparando para a qualificação e para a defesa. Talvez esse tipo de avaliação oral vai ser a norma no futuro.

Imagem em destaque: Imagem de Chen por Pixabay

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