A Meteorologia e o letramento científico através de um causo antigo
Hoje vou editar um texto bem “Meteorópole 2014”. Vou explicar: há muitos anos eu mantenho uma pasta em meu drive com racunhos e esboços. Esse rascunho que estou editando e transformei nesse texto que publico hoje é de 2014 ou 2015. Eu editei, confirmei algumas coisas e resolvi publicar. Espero que gostem!

Todo meteorologista tem pelo menos uma história peculiar em seu currículo. A maior parcela de minhas histórias peculiares se desenrola quando revelo para uma pessoa que acabo de conhecer que sou meteorologista. É quase como uma identidade secreta, que quando revelada causa uma tempestade de perguntas.
Algumas histórias acontecem sem querer. Há muitos anos atrás, lembro que eu estava preenchendo uma passagem rodoviária. Meu marido, que eu acabara de encontrar na rodoviária, perguntava por que eu carregava minhas botas em uma sacola. Expliquei que eu tinha acordado muito cedo e que estava muito frio, mas que passei a sentir calor e portanto guardei as botas e coloquei os chinelos.
Uma senhora interativa, intrometida, atrás de mim na fila, quase que fungando no meu pescoço e aparentemente mal-humorada apareceu atrás de nós sem que eu percebesse, dizendo que meteorologistas sempre erram. Meu marido, que quis aproveitar a oportunidade, contou para a anônima que eu era meteorologista. Ela fez uma cara feia, resmungou alguma coisa e acho que se sentiu envergonhada e a conversa foi encerrada.
Nesse texto quero continuar a conversa que eu poderia ter tido se a mulher não fosse tão intrometida e nariz empinado. Ou a conversa que eu poderia ter tido com alguém genuinamente interessado em aprender a partir de outra pessoa sobre algo que não conhecem (isso está cada vez mais raro, não acham?).
A conversa que eu gostaria de ter tido é uma discussão sobre a pergunta: afinal, meteorologistas sempre erram?
Para responder essa pergunta, preciso levantar um ponto importante: os índices de letramento científico no Brasil são muito baixos, de acordo com um estudo realizado recentemente pelo Instituto Paulo Montenegro (braço social do Ibope), pela ONG Ação Educativa e pelo Instituto Abramundo. De acordo com esse estudo, 64% da população brasileira não consegue interpretar conceitos científicos muito básicos. Esses dados são de 2014 e eu não encontrei informações mais atualizadas, infelizmente. Eu gostaria de saber se tantos canais e perfis de divulgação científica que se tornaram aparentemente populares nos últimos 10 anos causaram algum tipo de impacto positivo. Também gostaria de saber se algo mudou depois da pandemia, depois da polarização científica, enfim 2014 me parece algo de um passado tão distante e diferente.
Mas voltando ao que eu gostaria de falar: uma nação de analfabetos científicos é uma nação em que pessoas caem em engodos de todo tipo (o canal Nunca vi 1 cientista fala de alguns desses engodos com frequência), que ignoram a necessidade de investir em tecnologia e desenvolvimento e desconhecem a ciência do cotidiano. E em minha profissão isso fica muito claro, quando ouço de muitos a ideia de que a meteorologia é envolta em uma aura de mistério, muitas vezes sendo associada com adivinhação ou premonição. Isso sem contar nas conversas cheias de ignorância a respeito das mudanças climáticas. Por essa razão, nesse post quero falar um pouco mais do caráter científico da profissão e dos desafios que encontramos ao longo do caminho, especialmente no que diz respeito à previsão do tempo.
Para a previsão do tempo chegar até a TV ou ao alcance de um smartphone, uma equipe de profissionais precisa analisar uma série de dados, chegar a uma conclusão e escrevê-la. Esse é um dos principais trabalhos de um meteorologista.
O meteorologista faz um curso de Bacharelado em Meteorologia. O curso é oferecido por algumas Universidades Federais e Estaduais. Ao longo do curso, o aluno aprende física, cálculo, química e programação computacional. Todas essas matérias serão ferramentas para estudar o tempo e o clima do passado, do presente e do futuro.
Para prever o tempo, os meteorologistas usam modelos meteorológicos. Os modelos são programas computacionais, desenvolvidos em grandes centros de pesquisa por meteorologistas, físicos, matemáticos e cientistas da computação. Esses programas são feitos para resolver equações bastante complicadas. Essas equações são tão complicadas que mesmo para resolvê-las no computador, é necessário fazer aproximações.
Com o tempo, essas aproximações começam a gerar erros de truncamento e esses erros vão se acumulando. Por isso que a previsão do tempo é mais certeira quanto mais próxima da data de interesse. Vamos supor que hoje seja segunda-feira e você esteja planejando um passeio para daqui 15 dias. Então, naturalmente você consulta a previsão do tempo em seu celular, que indica tempo bom para a data de interesse. Só que quando passam 15 dias e finalmente chega o dia do passeio, chove, e todos os planos vão por água abaixo (perdoem o trocadilho). A previsão do tempo errou? Não. É que 15 dias é tempo demais. Se você tivesse consultado a previsão do tempo uns 4 dias antes do passeio, certamente haveria um ícone indicando a probabilidade de chuva. Em 15 dias, muito erro se acumulou e aquela previsão do tempo antiga já não vale mais. Ou seja: saber como funciona a previsão do tempo ajuda a compreender as limitações dessa ferramenta.
Além disso, os computadores não substituem a experiência do profissional. Como qualquer programa de computador, os modelos meteorológicos são executados. Os resultados dessa execução são números, que então são organizados em mapas e gráficos para serem analisados por meteorologistas. Se o profissional conhece a região e é experiente em análise de dados, vai colaborar para que a previsão seja melhor.
A questão da validade da previsão do tempo é uma das fontes de erro, das limitações que nós meteorologistas encontramos em nosso trabalho. Outro problema é a escassez de dados observacionais. Para que os modelos meteorológicos simulem a atmosfera, é necessário ter informações sobre o presente, ou seja, é necessário ter dados observacionais. Os dados observacionais são dados de satélites meteorológicos, radares, estações meteorológicas de superfície, etc. São informações sobre a temperatura, nebulosidade, velocidade e direção do vento, umidade relativa, chuva e outras variáveis meteorológicas do momento presente. Quanto mais pontos de observação, ou seja, quanto mais informações da satélite e quanto mais estações de superfície espalhadas por diversas regiões, por exemplo, teremos uma melhor previsão do tempo.
A falta de dados observacionais é um grande obstáculo aqui no Brasil. Nosso país tem dimensões continentais e faltam estações em diversas regiões, principalmente as mais distantes das grandes cidades. Falta também uma centralização desses dados, além de um maior compartilhamento dos mesmos.
Sendo assim, a previsão do tempo apresentada na TV ou divulgada na internet é o produto final de uma série de procedimentos realizados por meteorologistas e outros profissionais de apoio. Para saber a melhor forma de usar a previsão do tempo, é necessário conhecer suas limitações. Conhecendo a Meteorologia, podemos compreender melhor a necessidade de se investir nessa área.
Imagem que abre o post: Imagem de Mohamed Hassan por Pixabay
