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Sobre pânico e boatos

Aconteceu uma coisa aqui na cidade outro dia que nem é algo novo ou único, mas que me fez pensar em algumas coisas (mesmas coisas) novamente.

Nos grupos da cidade, alguém compartilhou alguns prints de stories de um perfil do Instagram. Esse perfil era de uma moradora aqui da cidade que dizia, preocupada, que em certa ocasião o filho dela estava brincando no quintal de casa e um estranho mexeu no portão, quis interagir com o menino. Ela associou esse acontecimento a um desaparecimento de criança que teria supostamente ocorrido numa cidade vizinha, teria inclusive sido notícia num site dessa cidade, porém, segundo ela, essa notícia fora misteriosamente apagada. Essa mesma mulher ainda informava sobre uma suposta pessoa que trajava uma camiseta de uma empresa local e foi presa, por razões aparentemente relacionadas à sequestro de crianças.

Depois dos prints do perfil dessa mulher, tinha uma mensagem de áudio de um homem não identificado dizendo que estava sumindo criança no Brasil todo e aqui na cidade e que todo cuidado era pouco. Ou seja, a mensagem dava força aos prints. Eu gostaria de destacar também essa sequência interessante na qual a voz de um homem (frequentemente associada à autoridade) dava força ao boato, porque é como se a história fosse validada. Tem um quê machista aqui, mas não consigo elaborar mais do que isso.

Continuando.

Não havia nada concreto, apenas o relato da mulher que misturava um acontecimento familiar assustador com uma suposta notícia removida de um site. O homem do áudio não se identificava, não dava detalhes sobre investigações em andamento ou coisa assim. Pouco depois apareceu um vídeo dessa mulher se explicando, dizendo que não queria ter causado pânico, que estava relatando uma situação antiga e parece que tinha até um perfil de advogado marcado nesse vídeo, certamente fornecendo uma orientação e uma ajuda na limpeza do leite derramado.

Quando eu era criança, uma vez ouvi uma história sobre boatos. Era uma espécie de parábola sobre você escrever uma mensagem em uma folha de caderno. Depois, picote essa folha e jogue os pedacinhos de papel do alto de um prédio. Será impossível recolher todos os pedacinhos. Assim é o que a gente posta nas redes, sobretudo quando se trata de algo polêmico, que divide opiniões e que mexe com nossos medos mais profundos.

Após o compartilhamento dos prints e do áudio, o pavor e a comoção nos grupos de WhatsApp foram imediatos. Tentei tranquilizar as mães que conheço, reforçando que não havia qualquer tipo de informação concreta e verificável naquelas mensagens. Uma mãe tem contatos no Fórum, na Polícia Civil e na Militar e sabiamente entrou em contato com essas pessoas, que lhe disseram que não havia qualquer ocorrência sobre crianças desaparecidas ou prisões relacionadas a isso aqui na cidade. Outra mãe disse que eles não falavam nada porque estavam tentando abafar o caso.

Eu logo me lembrei daquele caso do Guarujá, em que lincharam uma mulher porque um boato dizia que uma pessoa com as características físicas dela estava raptando crianças. Já imaginei um trabalhador qualquer vestindo a camiseta da empresa que a mulher mencionava sendo agredido por pessoas assustadas e raivosas. Já pensei em mim e em vários amigos e colegas, pois somos ‘estrangeiros’ aqui e obviamente temos a maior probabilidade de sermos considerados suspeitos em situações desse tipo.

Essa situação, que aparentemente já foi contornada, mais uma vez me fez refletir na responsabilidade que temos ao compartilhar certas coisas. A situação pode sair do controle rapidamente e pessoas podem se machucar de todas as formas. O jeito que a gente consome e produz conteúdo hoje em dia favorece todos os tipos de ações sem reflexão. Por mais que eu não seja uma influencer ou qualquer coisa do tipo, o que eu falo repercute em minha bolha de contatos e pode sair fora dessa bolha. Temos que ter noção e responsabilidade.

Imagem que abre o post: Foto de Hartono Creative Studio na Unsplash

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4 Comentários

  1. Que história doida! realmente precisamos ficar atentos com o que a gente compartilha…é muita responsabilidade e podemos destruir a vida de uma pessoa.

  2. Pois é, doida mesmo. E ainda mexe com os medos naturais das pessoas, que nesse caso é o de criança ser sequestrada. Acho que isso mexe com alguma parte do nosso cérebro que faz querer compartilhar o conteúdo por uma sensação de urgência.

    Vez ou outra aparece alguma história local desse tipo por aqui. Imagino que em outras cidades deve ocorrer o mesmo.

    Obrigada pela visita 🙂

  3. E hoje, com o advento das IAs, evidências podem ser criadas a fim de dar força à um boato, o que pode deixá-lo ainda mais real.

  4. Isso é ainda mais assustador. Podem pegar a voz de um jornalista famoso para criar uma notícia por IA, podem fazer qualquer coisa. Se tem gente acreditando que tem bebê que já nasce andando (vi isso por IA), acreditar em outras coisas é um pequeno passo.

    Obrigada pelas visitas 🙂

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