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Dúvida do leitor: baixa pressão e a formação de chuva

A dúvida de hoje é do leitor Samir. Vou reproduzir a mensagem abaixo:

Qual a origem das baixas pressões que causam chuva? elas atingem São Paulo várias vezes por ano, mas de onde elas vem? como e por que se formam?
Já li que se formam pelo ”choque” de duas massas de ar, tipo uma frente fria, mas duas massas de ar quente, imagino que seja a alta da Bolívia com a mTa, porquê parece que essas baixas pressões são mais frequentes no Sul, SP e MS, mas ninguém nunca deu uma explicação mais ”oficial”, o que você acha que é a causa?

Olá Samir, obrigada por acompanhar o blog.

Então, sempre que temos uma área com tempo ruim, temos uma área de baixa pressão. Baixa pressão em superfície significa que temos ar ascendente e esse ar ascendente favorece a formação de nuvens. Quando acompanhamos a tendência de pressão ao longo de vários dias e notamos uma tendência de queda de pressão ao longo desses dias (tirando é claro os efeitos da maré barométrica), isso significa que dias com tempo ruim estão se aproximando. É possível, por exemplo, que uma frente fria esteja se aproximando da região (no caso de São Paulo e outras áreas que são afetadas diretamente pelas frentes frias).

Por outro lado, se temos tendência a aumento da pressão ao longo dos dias, é provável que dias com tempo bom estejam se aproximando. Dias com tempo bom são aqueles quase sem nuvens e bem ensolarados.

Um local dominado por uma área de baixa pressão significa que o lugar está dominado por correntes ascendentes de ar. Se esse ar ascendente for suficientemente úmido, ele pode formar nuvens na medida que sobe e assim podemos ter a formação de nuvens de tempestade. Todas as vezes que temos uma tempestade, temos a atuação de uma área de baixa pressão que pode ter formação local (o ar aquece devido a um efeito de ilha de calor por exemplo, fica leve e sobe) ou pode ter relação com um fenômeno de escala maior, como no caso da frente fria (o ar quente e úmido é forçado a subir pela cunha de ar frio e favorece a formação de nuvens).

A Alta da Bolívia é uma outra coisa, mas que tem sim relação com a estação chuvosa, conforme veremos.  A Alta da Bolívia é uma região de alta pressão na alta troposfera e que está climatologicamente localizada mais ou menos sobre a Bolívia e o Chile:

Localização média da Alta da Bolívia para um determinado período (entre 1 e 11 de janeiro de 1996). Na figura, está indicada pela sigla AB. A Alta da Bolívia fica fortalecida no verão. Fonte: ]

A Alta da Bolívia fica portanto localizada mais ou menos no centro da América do Sul. Durante o verão, a convecção na região amazônica sofre um aumento gerado pelo aumento do aquecimento radiativo da superfície. Essa convecção gera movimentos convergentes em superfície (o “ar se une” para subir) e movimentos divergentes em níveis mais altos. Nos níveis mais altos da troposfera, temos portanto uma região de alta pressão.

Lembre-se, na Amazônia temos ar quente (ainda mais quente no verão) e úmido e o aumento da convecção faz com quem mais nuvens se formem!

Ocorre que essa região de alta pressão em altos níveis gerada pela convecção na Amazônia não fica centrada exatamente na região amazônica e isso tem a ver com vários fatores: rotação da Terra e a própria topografia do continente (os Andes atuam como um paredão que “canalizam” os ventos) são os principais fatores. Então a alta pressão em altos níveis gerada pela convecção na Região Amazônica acaba ficando mais deslocada para sudoeste da bacia Amazônica. E essa alta pressão em altos níveis é a própria Alta da Bolívia.

Nesse link,  a Prof. Rita Ynoue, do IAG-USP explica um pouco sobre o fenômeno Alta da Bolívia e propõe alguns artigos como bibliografia. Recomendo a leitura!

Nem sempre a Alta da Bolívia está totalmente presente e nem sempre ela está exatamente no mesmo lugar. O meteorologista precisa fazer uma boa análise sinótica levando em conta cartas de altos níveis e de superfície para comprovar sua presença. A Alta da Bolívia é mais definida no verão e ela tem relação sim com o favorecimento de formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul que por sua vez é responsável pelas chuvas em boa parte da área mais central do Brasil.

Ou seja, a Alta da Bolívia normalmente aparece bastante durante a estação chuvosa, o que explica o regime de precipitações do norte da Região Sul, região Sudeste, Região Centro-Oeste e sul/sudoeste da Região Nordeste. A estação chuvosa nessas regiões ocorre entre setembro e março, aproximadamente, com maiores acumulados nos meses de janeiro e fevereiro. No entanto, quis deixar claro ao longo do texto que a baixa pressão tem a ver com tempo ruim, dias chuvosos e/ou com tempestade e não tem necessariamente a ver com a atuação da Alta da Bolívia. Pode ser um fenômeno totalmente local e eu acredito que outros textos que já escrevi para o Meteorópole podem te ajudar nessa interpretação:

Espero que eu tenha te ajudado a responder essa dúvida, Samir. E muito obrigada por visitar o blog. Visitem e compartilhem os links!

Se vocês quiserem ler todas as respostas que já dei até hoje no quadro Dúvida do Leitor, cliquem aqui. E como sempre: se tiverem algo a acrescentar, esclarecer ou corrigir, deixe nos comentários.

 

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