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Documentário sobre Rachel Dolezal na Netflix

Máscaras: até quando elas se sustentam? Por que a usamos? Porque alguns usam máscaras maiores e mais pesadas do que outros? Sempre usamos máscaras com o intuito de tirar proveito próprio ou há outras razões? Indiretamente, vamos discutir essas questões no post de hoje. 
Cortesia de Pixabay

Hoje é mais um post onde não vou falar sobre meteorologia. Eu sei, muitos de meus leitores recorrentes querem saber de meteorologia! Há muitos posts sobre o assunto e semanalmente falo de Meteorologia aqui e portanto tem vários posts sobre essa maravilhosa área do conhecimento em que atuo profissionalmente.

No entanto, eu sempre convido vocês a participarem de minhas reflexões sobre outros temas. E hoje nós vamos falar do caso Rachel Dolezal, sem o intuito de ser um dossiê completo a respeito do tema ou algo assim. Vamos falar dos desdobramentos dessa história a partir de um documentário sobre o assunto que assisti recentemente.

Falar do caso Rachel Dolezal é difícil, pois para mim é um assunto super delicado. E assistindo ao documentário O Caso Rachel Dolezal, disponível na Netflix, percebi que o caso dela é cheio de nuances e desdobramentos, o que realmente torna o assunto difícil de ser discutido. Eu vou tentar fazer isso aqui no blog de maneira muito respeitosa e me limitando muitas vezes a apenas indicar fontes que podem tratar de alguns temas que vou abordar com mais propriedade.

Caso você não tenha acompanhado a polêmica, vou resumir. A norte-americana Rachel Dolezal era ativista e presidente da NAACP  (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas Negras) na cidade de Spokane, Washington. Ela também era professora da Eastern Washington University na área de Estudos Africanos e também atuava na comissão para investigar abusos policiais na cidade de Spokane. Ela participou ativamente dos protestos do movimento Black Lives Matter.

Em outras palavras, ela era uma proeminente membro da comunidade, atuando para o mundo fosse um lugar mais justo. Ela se apresentava como uma mulher negra, embora aparentemente não desse muitos detalhes a respeito de seu passado e de sua família. Alguns especulavam que ela fosse mestiça, enquanto outros especulavam que ela pudesse ser albina. Nesse verbete da Wikipedia vocês podem ver uma foto dela e saber mais sobre sua biografia.

Ocorre que Rachel não é uma mulher negra. Não é biologicamente negra, como ela preferiu afirmar depois de encurralada pela imprensa. Ela bronzeava-se, usava maquiagem para escurecer a pele, fazia penteados afro e conseguia transmitir a ideia de ser uma mulher mestiça, embora com certa desconfiança por parte de outros membros do escritório local da NAACP que ela presidia.

A farsa racial de Rachel caiu por terra quando ela foi pega em uma primeira mentira. Ela afirmou que recebeu cartas com conteúdo racista direcionadas à ela e à NAACP. Ocorre que quando a polícia foi investigar, percebeu que as cartas não tinham nenhum indício de terem sido processadas pelos correios. Em outras palavras, alguém simplesmente colocou a correspondência na caixa postal da NAACP de Spokane. Como apenas ela (Rachel) e outra pessoa tinham como abrir essa caixa postal, logo as suspeitas recaíram sobre ela. E os jornalistas, nada bobos, logo foram investigar mais a fundo a vida de Rachel e perceberam que muita coisa não batia. Investigaram sua vida e contataram seus pais biológicos, um casal de brancos oriundo daqueles recônditos norte-americanos onde a maioria dos moradores são descendentes de norte-europeus. Eles mostraram uma foto que desmascarou a farsa racial de Rachel: uma adolescente loira, de cabelos lisos, olhos azuis esverdeados e pele bem clara e era bastante evidente que aquela garota era Rachel.

Rachel foi desmascarada por um repórter com uma simples pergunta: você é afro-americana? Ela se desestabilizou, não soube responder e saiu de cena. O trecho da reportagem viralizou (pode ser visto aqui) e Rachel foi publicamente humilhada. Perdeu o cargo na NAACP, perdeu o cargo na Universidade, etc. Resumindo, perdeu todo o prestígio e a credibilidade. E no documentário que menciono, foi dito inclusive que ela estava grávida (o bebê nasceu no começo de 2016 e toda essa história que contei aconteceu em 2015) e que ela estava com dificuldades para pagar o aluguel e não conseguia emprego. A ironia da situação é que a situação socioeconômica dela acabou se assemelhando a de muitas famílias afro-americanas.

Apesar de a situação socioeconômica dos afro-americanos ter melhorado nas últimas décadas, esse grupo ainda é o mais sujeito a violência e a pobreza {x}.

Após não conseguir emprego em lugar nenhum, Rachel passou a fazer penteados afro, vender doces e trabalhos artísticos. Rachel parece ser uma habilidosa artista e o documentário mostra alguns de seus trabalhos que são muito bonitos.

O triste de toda essa história é que quando uma pessoa é pega numa mentira tão grande como essa, tudo o que ela fez de bom é esquecido e tudo o que ela diz ou disse passa a ser automaticamente questionado. No documentário, um jornalista até comenta que pode até ser que as cartas racistas que ela recebeu poderiam ser verdadeiras, pois casos semelhantes foram registrados com outras pessoas. A questão é: quem vai acreditar em Rachel Dolezal depois de tudo isso?

Por que mentir?

O documentário aborda as várias camadas da história de Rachel. Quando ela era adolescente, seus pais adotaram quatro crianças negras. Ela diz que se aproximou da cultura negra para se aproximar dos irmãos, pois os pais não tinham o menor conhecimento a respeito do assunto. Rachel parece ser uma mulher muito inteligente: leu, fez aulas de estudos africanos na universidade e sempre se identificou com a cultura afro-americana em geral. No documentário, pelo menos dois de seus irmãos adotivos demonstram gostar muito dela e ela inclusive tem a guarda de um deles.

Parece claro que ela não tem uma boa relação com sua família biológica e isso é anterior ao fato de os pais dela terem contribuído para desmascará-la. Seu único irmão biológico abusou sexualmente de sua irmã adotiva (e aparentemente, de Rachel também) e seus pais eram agressivos. A família é aparentemente caótica e dividida.

Também como uma maneira de distanciar-se dessa família biológica, Rachel começou a se identificar como negra. E é aí que entra o polêmico termo transracial, como um paralelo ao termo transgênero. Eu realmente não sei o que pensar, mas eu estou inclinada a concordar com Alisa Bierria, professora e diretora-adjunta do Centro de Raça e Gênero da Universidade de Berkeley (veja declaração aqui):

Segundo a especialista [Alisa Bierria], transgêneros questionam a ideia de que gênero é binário, expandindo o que significa ser homem ou mulher. Esse sistema binário é a causa de violência contra mulheres, que são vistas como opostas e inferiores aos homens, e a exclusão de indivíduos que não se enquadram em definições específicas e limitadas de gênero. Mas com raça é diferente porque a cultura negra foi uma “commodity” explorada historicamente. “Pessoas brancas que dizem ter ‘virado’ negras perpetuam violência racista contribuindo para a mercantilização da negritude. Mudar a identidade de gênero não perpetua misoginia, e a prática social e individual da transição de gênero tem o potencial de desafiar as bases políticas e culturais da misoginia e outras formas de violência de gênero”, diz. {x}

Aqui entra toda a discussão a respeito de apropriação cultural, outro tema bastante polêmico. Eu não tenho uma opinião formada a respeito desse tema, mas conversando com uma prima/amiga minha que é negra (oi, Esther❤) ela me explicou que quando uma negra usa um turbante, muitos a olham com desconfiança, curiosidade exótica e chegam até a querer ofender fazendo comentários de mal gosto ou descabidos (chamando de macumbeira, por exemplo). Já quando uma branca usa um turbante, ela é tida como uma pessoa descolada, na moda. Gostei muito do exemplo da Esther e por isso o trouxe ao blog!

Houve um caso de uma moça que disse ter sido ofendida por mulheres negras porque usava turbante. E no caso dessa moça, o turbante era usando como acessório para esconder a queda de cabelos devido uma quimioterapia. Eu sempre questiono essas histórias de textões de Facebook (veja bem, pode ter acontecido isso sim, só estou dizendo que questiono), porém considerando que essa história seja verídica, é totalmente inaceitável chegar até alguém desconhecido e fazer qualquer tipo de comentário sobre suas roupas e acessórios (na minha opinião). Ok, poderíamos entender que se alguém estivesse usando um símbolo racista ou uma camiseta com dizeres racistas, a abordagem poderia ser outra e uma intervenção poderia ser necessária.

Enfim, o caso da apropriação cultural é um tema muito polêmico. No caso do turbante, os povos da África não foram os únicos a usá-lo. Além disso, a moda sempre se apropriou de itens de outras culturas em suas coleções. É uma discussão enorme e que não me sinto capacitada para opinar a respeito, mas acho que na dúvida, se você é branco é melhor não usar turbantes, dreads e outros símbolos da cultura afro-americana ou afro-brasileira. Como eu não tenho a intenção de desrespeitar alguém, eu prefiro adotar essa postura.

Essa questão da apropriação cultural é até mencionada por uma das ativistas da NAACP que foi entrevistada no documentário. Ela sugere que Rachel conquistou muito pela associação porque ela não era lida como “totalmente negra” (e até entram questões relacionadas com colorismo, conforme discutirei a seguir). Essa moça entrevistada diz que muitas outras mulheres negras já fizeram reivindicações semelhantes a de Rachel no passado, porém não foram ouvidas.

O documentário acompanha Rachel em uma entrevista que ela concedeu a um professor de uma Universidade (no formato debate, com a participação do público), já depois de toda a farsa ter sido revelada. Nessa entrevista (como em várias outras ocasiões ao longo do documentário), Rachel se identifica como transrracial. Uma das moças da plateia diz que ela não sabe o que é ser negra desde o começo de sua vida, sendo condicionada a não gostar da própria aparência e a sofrer preconceito. Achei essa observação muito pertinente, o que tem tudo a ver com a colocação da Prof.  Alisa Bierria que mencionei anteriormente.

O negócio de “raça” não é uma balela?

“O racismo leva a distúrbios cognitivos e causa incompetência.” Feito com o Canva

Do ponto de vista biológico, é uma total balela e diversos estudos já mostraram isso (leia aqui para saber mais). Entretanto, do ponto de vista social, a coisa fica mais complicada já que ocorre uma classificação das pessoas de acordo com sua aparência. No Brasil, mesmo que você tenha ancestrais negros, você é considerada branca desde que a sociedade te identifique como uma pessoa branca, que é o meu caso. Eu sou branca, porém tenho ancestrais não muito distantes que são negros (meu avô materno, no caso). Já nos Estados Unidos, na época da segregação racial, havia uma rígida hierarquia social. O termo one drop rule  que referia-se a lei anti-miscigenação fazia que qualquer pessoa com ancestrais negros fosse automaticamente considerada negra (mesmo que essa pessoa tivesse a pele clara, como eu).

Vejam, usei meu exemplo familiar apenas de maneira ilustrativa. Eu não estou aqui me afirmando como negra, isso seria extremamente desrespeitoso. Eu não sei o que é passar pelo preconceito estrutural diário, que se apresenta tanto de maneira sutil quanto de maneira escancarada, porém dói de todas as maneiras. Meu papel nessa vida é apenas ser anti-racista, tentando ajudar na conscientização das pessoas, mas não quero um protagonismo de luta que não é meu!

E olha como os EUA são diferentes, quando comparamos com o Brasil: a cantora Mariah Carey é considerada negra (seu pai é negro). O mesmo para a modelo Kimora Lee, que tem ancestrais asiáticos e negros. Meghan Markle, a Duquesa de Sussex, esposa do Príncipe Henry, é filha de uma mulher negra e um homem branco. Todas essas lindas mulheres provavelmente seriam consideradas brancas (ou asiática, no caso da Kimora) no Brasil.

É claro que nos EUA (assim como no Brasil), a tonalidade da pele é um fator para o preconceito e o nome disso é colorismo. Ou seja, negros de pele clara em geral sofrem menos preconceito do que negros de pele escura. Enfim gente, são tantas questões e é melhor vocês procurarem por mais informações no Blogueiras Negras, no Geledés e em outros grupos e blogs que podem falar sobre o assunto com propriedade. Um canal do Youtube que tem falado muito bem sobre esse assunto é o da Luci Gonçalves e eu tenho gostado muito de acompanhá-la.

Meu ponto aqui foi apenas mostrar que o conceito biológico de raças realmente não faz sentido. Já o conceito social de raça, que segrega as pessoas de acordo com sua aparência, infelizmente está vivo.

Eu me identifico com outra cultura

O caso da Rachel me fez pensar também em um episódio de Star Trek – TNG que eu já discuti anteriormente aqui no blog. Trata-se do episódio Sub Rosa. Vou destacar o trecho importante para nossa discussão:

Um episódio bastante interessante, que relaciona “fantasmas” e “controle do clima” é  Sub Rosa, episódio da sétima temporada de  Star Trek – Nova Geração. Nele, uma colônia em um mundo chamado Caldos II é como a Escócia. Os moradores de lá, muitos de origem escocesa, escolheram aquele mundo para viver. Nem todos são escoceses, o que é muito interessante. Maturin, governador da colônia, nem humano é. Não é dito qual sua espécie, mas seu rosto mostra que ele evidentemente não é humano. Ele visitou a Terra com os pais, quando era criança. Ficou encantado pelas Highlands escocesas e sentiu-se em casa. Decidiu que pertencia àquela cultura. O interessante é que conheço muitas pessoas que já me relataram sensações semelhantes: ficaram encantadas com a cultura de um determinado povo e decidiram mudar para o local onde aquelas pessoas vivem. {x}

Eu fiquei pensando que talvez fosse esse o caso. Rachel se apaixonou pelo material que estava lendo sobre cultura africana e passou a identificar-se com essa cultura. Se a gente olhar apenas sob esse ponto de vista, isso é muito bonito. Além disso, lutar contra o racismo é obrigação de todos. Inclusive há membros não-negros na NAACP e ela poderia atuar na comunidade e nos protestos do movimento Black Lives Matter sem precisar mentir sobre a sua identidade e sobre sua origem. Se vocês olharem fotos dos protestos do Black Lives Matter vão ver pessoas brancas em meio a multidão, apoiando a luta sem tomar o protagonismo.  Se ela fizesse isso, seria acusada de apropriação cultural? Acho que não, desde que não tentasse se apropriar do protagonismo da causa, rumo esse que suas ações acabaram tomando.

Como Rachel tem 2 filhos adolescentes que são negros (um deles é um de seus irmãos adotivos, que ela posteriormente obteve a guarda), muitos a acusam de ter usado os filhos no protesto. Eu acredito sim que há uma preocupação legítima por parte de Rachel com a segurança de seus filhos, como toda mãe decente. No entanto, a acusam de ter usado os jovens para sua própria promoção.

Perseguição

No documentário fica claro o quanto ela foi (e ainda é) perseguida devido suas mentiras. A comunidade negra de Spokane e provavelmente dos EUA como um todo ficaram indignados com as mentiras dela. Desde quando é necessário mentir a respeito de correspondências racistas, uma vez que tantas pessoas são agredidas nas redes sociais, por exemplo? Não é necessário mentir sobre situações de racismo, uma vez que situações envolvendo racismo ocorrem todos os dias em diversos lugares do mundo. E mentir sobre sua identidade racial foi o fim da picada, como costumamos dizer popularmente.

Rachel diz que não é aceita pelos brancos e nem aceita pelos negros. Na internet, sua história ganhou dimensões grandiosas. Ela virou meme, é vítima de críticas e difamações, etc. A vida dessa mulher tornou-se um inferno por causa de sua mentira, o que também me faz pensar como é lamentável essa ânsia em sermos juízes e algozes das pessoas.

Até seu filho recém-nascido é vítima de comentários maldosos e muito agressivos. Os mais velhos também são vítimas pelo simples fato de serem filhos de Rachel Dolezal. O mais velho, Izaiah, foi visitar a Howard University pois pretendia cursar Direito por lá e foi hostilizado nas redes sociais. O rapaz não fez nada de errado até onde se sabe e é muito triste ver alguém ser punido pelos atos de seus familiares.

Ora, o fato de ela ter perdido todo o prestígio já não é uma punição suficiente? A impediram de estacionar o carro na frente da barbearia onde ela levou seus filhos (isso é retratado no documentário). Já acho esse tipo de ação um enorme exagero e até perigosa. Imagine, ela estava grávida e ela estava sujeita a hostilidades na rua, porque a galera estava revoltada mesmo. Depois que que seu bebê nasceu, até a criança foi hostilizada nas redes sociais. Um repórter ficou insistindo para que ela revelasse o nome do pai da criança. Muito triste, foram muito desumanos e grosseiros com ela. Vejam bem, não estou dizendo que ela está certa, mas eu acho que as pessoas foram longe demais na ‘punição’.

Sendo assim, achei o documentário muito importante, até para que possamos entender melhor a história dela e compreender o que a fez agir da maneira que agiu (mesmo não concordando com suas ações). Eu até acredito que ela agiu com boa fé, apesar das mentiras. O ser humano tem realmente muitas facetas, é difícil colocar pessoas em caixas. Não que eu acredite nesse conceito de transrracialidade, mas há aspectos da história de Rachel que evidentemente não podem ser negligenciados e nos ajudam a entender porque ela agiu assim.

Outra coisa, o mundo mudou e muda tanto! Quem sabe no futuro realmente o preconceito racial e o conceito social de raças caiam por terra. Quem sabe no futuro seja possível assumir-se como Rachel, ao exemplo do personagem Maturin de Star Trek: TNG? Não sabemos, mas pode ser até que no futuro Rachel seja considerada uma pioneira.

Acredito que Rachel já teve a punição necessária e cabível e agora basta acreditar que ela pode refletir sobre suas ações. Bom, depois de ter sido pega na mentira, ela apareceu com essa ideia de ser transracial (ideia que foi pessimamente aceita). Se ela apenas tivesse parado em “sou uma mulher branca que se identifica com a cultura negra e levei isso longe demais”, talvez ela pudesse se reerguer mais facilmente.

Bibliografia  

 

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