Panic at the Microtube Park*

Depois que me tornei mãe e a medida que meus filhos estão crescendo, finalmente entendi na prática significado do termo gatilho. A história que vou lhes contar hoje tem a ver com um assunto que creio que é um gatilho para mim: drogas.
A maioria das pessoas da minha geração cresceu com a chamada Guerra às Drogas. Quero dizer, até hoje as drogas são tratadas como um problema de segurança pública e não como um problema de saúde pública. Certo é que essa questão envolve essas duas áreas e muitas outras, mas você talvez também cresceu ouvindo que quem usa drogas é vagabundo, que é uma questão de escolha pessoal e más companhias e que é o viciado que alimenta o tráfico. Seria portanto um problema moral, ligado à falta do que fazer, falta de Deus no coração ou seja lá o que for.
Em minha adolescência e infância em uma escola na periferia de São Paulo, vi muita coisa relacionada ao uso e à venda de drogas. Colegas meus começaram a usar drogas muito cedo. Outros entraram para o tráfico e um deles até morreu em uma disputa com traficantes. Eu entendi rapidamente que drogas tem a ver com problemas e que é melhor ficar longe delas.
Apenas adulta compreendi que o uso de drogas não é simplesmente uma questão relacionada com a moralidade. Compreendi também que não é uma questão somente relacionada com segurança pública. Assisti algumas palestras do grupo Acolhe USP quando era aluna e depois como funcionária da instituição e aprendi muitas coisas sobre o uso de drogas e questões de saúde pública. Depois tive contato com mais debates sobre esse tema enquanto cursei a Licenciatura.
Quando eu achava que estava totalmente preparada para abordar essa questão com meus filhos quando o momento chegasse, algo aconteceu. Meus filhos tem a mania de pegar coisinhas do chão, qualquer coisinha colorida ou brilhante ou diferente que lhes chamem a atenção. Acho que toda criança é assim.
Guardem essa informação.
Semana passada meu filho mais velho fez um passeio guiado por laboratórios da UFU. Ao final da visita, encontrei com ele em um local combinado, uma espécie de praça. Estávamos procurando por amoras, eu olhava pra cima. Apanhei algumas e quando ia entregar-lhe, olhei para as mãos dele e vi um microtubo.
Foi quando eu REAGI ao invés de PENSAR E AGIR e disse:
_ O que é isso, joga isso fora, isso é porcaria, filho!
Eu nem lhe dei a chance de explicar. O guia que o acompanhou durante visita monitorada ainda estava por perto e entrou na conversa explicando que aquele era um tubinho que as crianças tinham ganhado em um laboratório que visitaram.
Pelo amor de Deus, ele estava VISITANDO LABORATÓRIOS!
_ Mãe, é um tubo usado para estudar amostras de DNA de soja.
Fiquei um tanto constrangida por assumir que qualquer microtubo só pode ter relação com armazenamento de doses de cocaína. Esse é apenas um material usado em laboratório, que é seu uso original. Eu simplesmente entrei em pânico na hora, porque eu queria que meu filho ficasse longe daquele produto que só traz problemas. Depois nós até demos risada e tivemos mais uma conversa sobre essas questões. São conversas que temos sempre, da maneira mais aberta que eu consigo nos momentos em que os assuntos aparecem.
* Referência ao filme Panic at the Needle Park (1971), estrelado por Al Pacino.
