E o mapa de cabeça pra baixo do IBGE?
Essa semana, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou um mapa com o Hemisfério Sul voltado para cima. Esse mapa foi notícia em diversos portais, como na UOL. Para esse portal de notícias, o IBGE declarou:
“Esse lançamento integra uma série de ações estratégicas para a reflexão e o debate sobre a importância do Sul Global, em meio à crescente importância do Brasil no cenário internacional e às mudanças geopolíticas mundiais”, declarou o IBGE. “O lançamento é feito em ano que o Brasil tem ativa participação nos debates e perspectivas do Sul Global e do cenário mundial, em especial por presidir o BRICS e o Mercosul. E recebe a COP 30”, justificou o instituto.

O mapa pode ser adquirido na loja do IBGE e destaca os países integrantes do BRICS, o Mercosul e do G20. Um mapa com o Brasil no centro não é novidade, recentemente noticiei um novo material também elaborado pelo IBGE. A grande novidade aqui é mudar a perspectiva, colocando o planisferio “de cabeça pra baixo”, para reforçar a importância do sul global.
Se você estranhou esse mapa, provavelmente não é o único. Nossa mente se acostuma com padrões, então parece natural ver a Europa no centro e o Hemisfério Norte voltado para cima. Um mapa é apenas uma representação da realidade e se formos pensar no espaço, não há isso de “em cima” ou “em baixo”, pois são apenas convenções dos seres humanos. Essa mudança de perspectiva nos convida a uma reflexão a respeito da importância de nosso país e da não-neutralidade da cartografia. Essa reflexão não é nova, por exemplo, na década de 1940 o artista uruguaio Joaquín Torres Garcia propôs a América Invertida, como uma crítica sociopolítica para combater o imperialismo estadounidense.
Na divulgação no perfil do IBGE no Instagram, algumas pessoas protestaram. Evidentemente foram protestos feitos na maioria das vezes por pessoas que desconhecem cartografia e não entendem que essa não é uma ciência neutra. Algumas dessas pessoas certamente já introduziram em suas mentes que existe uma conspiração para destruir o ocidente ou alguma coisa maluca assim (nesse ponto, não tem o que fazer com a mente do sujeito). Alguns afirmaram que com esse mapa, as crianças não vão aprender nada. Outros falam que o Brasil assinou convenções internacionais (não mencionam quais, vozes da cabeça) e que esse mapa está errado. Uma pessoa ainda chegou a sugerir que esse mapa poderia atrapalhar o GNSS (Global Navigation Satellite System, como o GPS que nós usamos cotidianamente), o que não faz nenhum sentido já que esse é apenas um mapa (que em última instância é apenas um DESENHO) e evidentemente não houve qualquer alteração nos sistemas de coordenadas que nós utilizamos. Seria muito mais honesto e humilde que essas pessoas simplesmente dissessem que esse mapa novo do IBGE é esquisito pois é diferente do que estamos acostumados a ver.
O mapa do IBGE possui todos os elementos cartográficos necessários: apresenta a orientação (rosa-dos-ventos no canto superior direito), legenda, título, fonte, sistema de coordenadas utilizado, etc. Nós não poderíamos esperar algo diferente disso, já que o IBGE é a autoridade nacional no mapeamento de nosso território.
Como eu disse anteriormente, um mapa em última instância é somente um desenho. É uma representação estática da realidade em um determinado momento, que não leva em conta todas as complexidades existentes em cada um dos lugares representados, não leva em conta os conflitos por territórios, por exemplo. Esse mapa pode mudar a qualquer momento, uma vez que o G20 pode mudar sua configuração, o BRICS ou o Mercosul pode incorporar mais países, novos países podem ser criados, etc.
Achar o novo mapa do IBGE esquisito não é um problema. O problema é ser extremamente arrogante e não procurar entender porque esse mapa foi feito dessa maneira e porque mesmo não atendendo suas expectativas pessoais, ainda assim é um mapa válido. Se você está acostumado com os planisferio político tradicional, o IBGE também tem, assim como tem vários outros mapas em seu atlas.

Eu achei esse mapa tão legal! Me lembrou imadiatamente uma matéria que assisti muitos anos atrás (acho que no Globo Reporter) que mostrava que em escolas japonesas usava-se um mapa em que o Japão aparecia no centro.
Isso é tão legal! Tantos países pelo mundo tem essa ideia de se colocar no centro, isso representa valorização da cultura, da história e da identidade. Também fiquei muito feliz com a iniciativa do IBGE. Abraços =)