Para decolonizar o ensino de estações do ano: faias-austrais avermelhadas no outono chileno

Quando falamos em decolonialismo, estamos falando de ” conjunto de práticas, conceitos, pesquisas e estudos que tentam diminuir, e até reverter, os efeitos da colonização nas sociedades em que este processo histórico ocorreu”. Essa é a definição organizada pelo Prof. Alexandre Barbosa, do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. Inclusive, o texto dele está bem legal. Ele faz uma revisão histórica bem interessante, citando os autores que começaram a discutir essa ideia.
Talvez você tenha ouvido falar em decolonialismo na literatura, quando por exemplo se estimula a leitura de livros de escritores do sul global, que tratam nossos assuntos. Essa ideia pode ser estendida para o cinema, quando a gente fala de filmes que saem do eixo EUA-Europa para contar outras narrativas (inclusive seria um sonho a Filmicca me convidar para fazer uma publi, divulgar filmes, etc). No entanto, o decolonialismo pode facilmente ser incorporado a outras áreas, como no ensino de Geografia e eu me refiro aqui especialmente ao ensino das estações do ano.
Nesse post aqui, eu mostro quatro fotografias muito interessantes de uma ilha finlandesa, cada foto em uma estação do ano. Também destaquei que isso de quatro estações do ano bem definidas só funciona em áreas subtropicais. Por exemplo, no Brasil a gente consegue perceber as quatro estações na Região Sul. Já na Zona Tropical, o que conseguimos observar é a estação seca e a estação chuvosa.
Em outras palavras, nas regiões subtropicais do planeta a temperatura é o elemento climático que melhor ajuda a descrever os climas, porque nós temos uma variação muito expressiva da temperatura média ao longo do ano. Quero dizer, realmente faz calor no verão e muito frio no inverno. Por outro lado, na Zona Tropical, a temperatura média não apresenta variações muito expressivas ao longo do ano e a precipitação é o elemento climático que mais varia, portanto temos a estação seca e a estação chuvosa bem definidas.
Claro, estou falando especialmente do fator climático latitude. Se considerarmos continentalidade, maritimidade, altitude e correntes marítimas, teremos outros pontos a discutir. Por isso temos classificações climáticas, como Köppen-Geiger, para ajudar a sintetizar essas questões.
A latitude tem relação com a quantidade de radiação solar que chega em cada ponto da superfície terrestre e essa quantidade de radiação que chega até nós também está diretamente ligada com o eixo de inclinação da Terra. A inclinação desse eixo se refere ao plano do movimento de translação e eu falo sobre isso em detalhes nesse post.
Já ao lecionarmos as primeiras aulas sobre Climatologia, precisamos falar das diferenças na percepção das estações do ano na Zona Tropical e na Subtropical. Quando a gente vai falar da parte subtropical, é bastante comum usarmos exemplos do Hemisfério Norte, mencionando Europa, EUA ou Canadá. Mas, e se a gente falasse de nossos vizinhos? E se falássemos do sul da América do Sul?
Agora sim chegamos ao que eu queria falar, que é a imagem que abre esse post. Trata-se de uma imagem do Landsat 9 do dia 12 de abril de 2026 divulgada pelo Earth Observatory, da NASA. A área imageada faz parte da Patagônia, no Chile, situada por volta da latitude de 55°S. A Patagônia possui as florestas temperadas mais ao sul do planeta. Uma das espécies de árvores encontradas por lá são as faias-austrais. São árvores muito adaptadas a uma grande variedade de climas e elas são decíduas, o que significa que perdem as folhas no inverno. Só que antes de perderem as folhas no inverno, elas ficam avermelhadas e amareladas no outono. Exatamente a mesma coisa que a gente vê no Canadá, com aquelas belas folhas de bordo caídas pelo chão. O que a gente vê na imagem de satélite são as faias bem avermelhadas, mostrando o poder do outono em terras chilenas.
Gostei dessa imagem porque ela nos permite esse decolonialismo no ensino de conteúdos sobre estações do ano e Climatologia. Ao invés de mostrar imagens europeias ou norte-americanas, mostre aos seus alunos imagens dos nossos vizinhos para que eles saibam o quão diversa é a América do Sul.
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Também já falei sobre decolonialismo no ensino da Cartografia. Aqui falo do mapa de “cabeça pra baixo” do IBGE e aqui falo de quando o IBGE fez o mapa de “cabeça pra baixo” com o Brasil no centro.

Passando pra matar a saudade de ler um blog tão bom quanto e pra saber como que você está, já que sumiu das redes!
PS: adorei o novo template do blog. 🌷
Oi Sybylla, que bom recever uma visita.
Dei uma sumida mesmo das redes. Ainda estou no instagram (com outra @) mais pra postar e ver coisas de junk journal. Vou te seguir lá porque acho que não estou seguindo… E muito obrigada pelo elogio ao template. Advinhe qual blog me inspirou a mudar e tornar o visual mais atual? O seu! 🙂
Beijos <3