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E quando sua “desculpa” é uma questão de saúde mental?

Eu ouvi minha vida toda: “não dê desculpas, estude”. E eu já falei isso para muitas pessoas. Claro que é importante ter força de vontade, mas se a gente pensar melhor nessa filosofia “no excuses, just results“, vamos ver que ela é injusta e cruel.

Essa ordem de não dar desculpas é empregada para muitas coisas (trabalho, exercícios físicos, emagrecimento, etc). É como se dentro de cada um de nós existisse uma força de vontade, como um gigante adormecido, que obedece imediatamente à ordens ou comandos. Ou como se essa força de vontade fosse um soldado do exército que atende às ordens dadas da maneira correta. Ou como se fosse uma criatura mágica adormecida, que acorda quando são mencionadas as palavras mágicas do mesmo jeito que estão escritas num pergaminho misterioso.

E quando sua “desculpa” é um problema de saúde mental? Uma pessoa deprimida ou ansiosa não consegue organizar todas as habilidades e competências necessárias para ter a força de vontade necessária.

Além disso, vivemos em um país tão injusto que não é possível determinar que uma pessoa pobre que não tomou um bom café da manhã e pegou 2 ônibus para chegar na escola ou no trabalho tenha força de vontade. Não dá para querer que uma pessoa simplesmente estude quando não há maneiras de mantê-la na escola ou não há incentivo familiar.

O psicólogo norte-americano Abraham Maslow propôs uma hierarquia de necessidades, frequentemente conhecida como Pirâmide de Maslow. Falando de maneira bem simplificada, não é possível atingir um nível de realização pessoal se não tivermos atendidas outras necessidades antes disso. Nossas primeiras necessidades são as necessidades básicas fisiológicas (respiração, comida, sono, sexo, excreção, etc) que são seguidas pelas necessidades de segurança (moradia, família, dinheiro, etc), depois pelas necessidades de amor e relacionamento (amizades, intimidade com pessoas, conversa), depois pelas necessidades ligadas à autoestima para finalmente chegar na realização pessoal.

Fonte: Pirâmide de Maslow – Wikimedia Commons

Assim, uma criança que não se alimentou pela manhã não vai conseguir atingir os outros níveis da pirâmide ou um trabalhador que não sente segurança em seu lar, porque mora em uma área de risco, não vai conseguir pensar em outra coisa.

Antes de falarmos qualquer coisa sobre motivação intrínseca, precisamos que as necessidades básicas do indivíduo sejam atendidas. Nosso país é muito desigual, muitas pessoas não conseguem sair do segundo nível da pirâmide de Maslow.

Além disso, muitas pessoas tem problemas de baixa autoestima. Há alguns anos falei de minha relação com a síndrome do impostor e sobre como me sinto incapaz e insuficiente em muitos momentos do meu dia a dia. Falando como mulher, muitas de nós não somos respeitadas no mercado de trabalho, muitas vezes consideradas como menos inteligentes ou menos capazes. E esse é um processo histórico que ainda está se desenrolando, pois ainda estamos conquistando muitos espaços (e faltam conquistar tantos outros).

Chegar no topo da pirâmide, com uma sensação de realização pessoal, com motivação real para aprender, é um grande feito e eu diria que é privilégio para poucos. É uma busca diária por isso, porém uma busca desigual, pois nosso país é pautado por uma grande desigualdade social que impedem a busca por boas ferramentas de saúde mental.

Portanto, nem sempre é uma simples “desculpa”. As pessoas guardam dentro de si questões muito particulares e é necessário agir com empatia e respeito.

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