Eu demorava até 4h para chegar na USP

Outro dia concluí que quando conto uma história para alguém (uma amizade ou um terapeuta) ou somente a escrevo, acabo percebendo nuances que eu não havia observado antes. Acabo encontrando beleza onde eu não havia notado, acabo percebendo que certos momentos foram muito difíceis ou até mesmo encontro a origem de traumas que me afetam.
Uma das histórias que contei que me fez chegar nessa conclusão é sobre meus longos trajetos de Itaquera até o CUASO (principal campus da USP, que fica no bairro do Butantã). Eu demorava cerca de 2h para chegar na USP, com sorte. Com azar (congestionamento e dias de chuva), podia chegar a 4h.
São Paulo: choveu, fodeu. Era o que dizia uma comunidade do Orkut.
Eu tive ajuda nessa época, meu pai me encontrava no meio do caminho e voltávamos de carro e em muitas situações ele ia até lá me buscar. Sou muito grata por isso, porque a realidade é que o carro proporciona mais conforto que o transporte coletivo. Porém essa ajuda não foi o suficiente para me garantir uma qualidade de vida melhor, porque o mais apropriado seria que eu morasse no Butantã. Isso não aconteceu por falta de dinheiro e até mesmo por falta de incentivo de meus pais, que tinham muito receio sobre minha segurança, não confiavam em mim e também desconhecimento e preconceito sobre o que realmente é a vida universitária.
Ao relembrar dessas histórias, contando-as para um amigo que não viveu essa realidade e para uma amiga que viveu algo semelhante, eu percebi que eu sofri muito mais do que eu me recordava. Lembrei das vezes que eu chorava no metrô porque estava muito cansada e gostaria de estar em casa ou praticando um hobby, atividade física, qualquer coisa.
Congestionamento, o cheiro da poluição da cidade, extremamente nauseante.
Eu não sei como consegui passar por tudo isso. Sou mais forte do que eu imagino. Mas eu não queria ter passado por nada disso, ninguém merece tanta precariedade e desconforto.
Atualmente, a vida melhorou um pouco para um jovem de Itaquera que deseja fazer ensino superior em uma instituição pública. Vai ter campus do IFSP na Cidade Tiradentes (parece que vai ter UNESP também), tem FATEC perto do metrô Itaquera, tem campus da USP perto da Penha, tem estação de metrô no Butantã, dentre outras coisas. Sei que essas coisas ainda não são suficientes, mas há muito mais possibilidades do que existia no início dos anos 2000. No entanto, acho que vivemos em um mundo de tanto desencanto e desespero com pitadas de deslumbramento que desmotiva alguns jovens a procurar formação no nível superior.
Sobre as coisas que contei aqui, eu não desejo que ninguém passe pelo o que passei. Não acho que sofrer fortalece caráter, sofrer é apenas algo que em muitas circunstâncias é inevitável. Eu queria realizar um sonho e tive que passar por tudo isso, porque eram as possibilidades que se apresentavam naquele momento.
“Eu não sei de onde vem essa mentalidade branca de que o sofrimento ensina. (…) Essa ideia, eu não tenho nenhuma simpatia com ela. Se for pra sofrer, eu não quero aprender nada.”
Aílton Krenak {x}
Hoje entendo que minha dificuldade em fazer a gestão do meu tempo tem relação com essa época, assim como as dificuldade de entender que hoje tenho tempo para fazer mais coisas e que eu posso relaxar um pouco mais. Certas coisas marcam a gente. Obviamente que esse não é um trauma seríssimo (estou falando isso porque citei a palavra trauma no primeiro parágrafo), mas foi uma vivência que me afetou negativamente, até hoje há um stress remanescente. Falar e escrever sobre essas vivências me ajuda a compreender como elas me afetam.
[*] Esse tipo de imagem me provoca tristeza, revolta, desespero, pânico, palpitação, diversos tipos de dores, coceira na cabeça, coceira na pele, etc etc etc.
