Eu não sabia de nada quando eu me formei

Apenas para contextualizar, no título do texto, ao dizer “quando me formei” eu me refiro à ter concluído a graduação em Meteorologia, ainda na primeira década desse século.
Pois então, eu não sabia de nada quando eu me formei em Meteorologia.
Eu era uma moça de 20 e poucos anos e vivia dentro de uma dualidade esquisita. Parte de mim sentia-se impostora, por ter estudado em um lugar onde eu achava que pessoas como eu não poderiam estudar (sou da periferia de São Paulo). Porém, outra parte de mim, sentia-se muito acima dos outros, como se eu fosse melhor que outras pessoas que não tiveram acesso à mesma educação. Hoje consigo admitir isso, mas é impressionante como talvez a arrogância seja uma máscara para a impressão de sentir-se impostora.
Certa vez, acho que eu estava no último ano da graduação (ou havia me formado fazia pouco tempo, não lembro bem), soube de uma iniciativa de um determinado órgão público de um determinado estado. Não vou identificar o estado, o personagem ou a instituição do causo, para não expor ninguém. Também não lembro detalhes exatos, essa história que estou contando tem uns 20 anos. A iniciativa em questão tinha como objetivos capacitar a população para identificar sinais de deslizamentos de terra, instalar pluviômetros de baixo custo e ensinar líderes comunitários a operá-los, criar planos de fuga em casos de enchentes, coisas assim.
Lembre-se, estou falando de coisas de 20 anos atrás. Não existiam smartphones, poucas pessoas tinham celular e nós nos comunicávamos por SMS. Então essa iniciativa existia dentro desse contexto, para tentar evitar tragédias, como o deslizamento de terra em Angra dos Reis (2010).
Iniciativas de engajamento comunitário acontecem o tempo todo em diversas áreas e com bons resultados. Essas iniciativas podem ser desde cobrar as autoridades para melhorar a segurança de um bairro, unir a vizinhança para limpar uma praça, organizar uma vaquinha virtual para uma pessoa que está doente, etc. A ciência cidadã pode acontecer paralelamente com o engajamento comunitário. Por exemplo, um grupo de astrônomos amadores que busca por asteroides pode também ajudar-se mutuamente, compartilhando conhecimento e técnicas de observação. Esse grupo pode também oferecer-se para palestrar em escolas públicas, organizar oficinas de divulgação científica com a comunidade, criar um canal de divulgação no Youtube, etc. Um meteorologista amador também pode fazer ciência cidadã, por exemplo, pode realizar observações meteorológicas em sua casa e divulgar esses dados, pode voluntariar-se para digitar registros meteorológicos antigos, dentre outras coisas. Esse texto dá alguns exemplos de iniciativas de ciência cidadã na Meteorologia e provavelmente (se você gosta do assunto), deve ter pensado em outras ideias também. Bom, todas essas coisas que eu disse estão sendo ditas pela Samantha de 2025. Na época da história que comecei a contar (desculpem pela longa digressão), eu não sabia sobre ciência cidadã, nunca tinha refletido sobre engajamento comunitário, enfim, não sabia muita coisa sobre a vida. Só que eu não tinha noção da minha ignorância, já que eu me achava importante demais por ter estudado na USP e também impostora demais pelo mesmo motivo, como já disse.
Continuando a história, lembro que mandei um e-mail para o responsável pela iniciativa que mencionei, falando que era um absurdo, que deveriam empregar meteorologistas e praticamente disse ao responsável que ele não sabia de nada, devo ter sido irônica, aquela coisa toda de jovem besta. Lembro que ele me respondeu com um tom duro, embora educado, listando todas as suas formações acadêmicas e conquistas profissionais e também falou sobre essa questão de engajar a comunidade.
Eu não dei continuidade à essa conversa por e-mail, mas eu me lembro de ter achado que venci uma discussão ou algo assim. Lembro de ter pensado que a pessoa não sabia nada. Infelizmente perdi esses e-mails, faz muito tempo. Eu gostaria de relê-los e compartilhar alguns trechos com vocês, embora certamente sentiria muita vergonha.
Que tola que eu fui! Quanta arrogância!
Eu ainda continuo com a convicção de que os órgãos públicos deveriam contratar meteorologistas para lidar com questões relacionadas à prevenção de catástrofes ambientais. Nem preciso repetir que com as mudanças climáticas essas catástrofes estão cada vez mais recorrentes, vemos todos os anos as coisas se repetirem sempre na mesma época. Por exemplo, choveu muito no Rio Grande do Sul nos últimos dias, com enchentes e consequentemente, pessoas desabrigadas. Investir em profissionais especializados e equipamentos ajuda a prever catástrofes. Eu falo em contratar meteorologistas por ter essa formação, mas claro que se trata de montar uma equipe capacitada e multidisciplinar.
Só que mesmo investindo em profissionais especializados e equipamentos, outras pessoas, como professores e lideranças comunitárias também podem ajudar muito, principalmente no que diz respeito ao monitoramento e observação, planos de evacuação e na conscientização ambiental. Um meteorologista (por exemplo) lá no escritório dele pode não conseguir falar com toda a comunidade, mas um professor, um líder religioso, um líder comunitário ou um morador mais antigo do bairro pode ajudar no trabalho de conscientização e pode engajar a comunidade para que torne o bairro mais resiliente e seguro.
Eu não entendia nada dessas coisas quando eu tinha 20 e poucos anos. Eu achava que só os grandes iluminados que frequentavam a Universidade tinham o direito de falar sobre as áreas que estudaram e que todo o saber só podia partir dessas pessoas (a tal da “Torre de Marfim“). Certamente, alguma semente sobre coletividade foi plantada em mim na época da USP, mas eu ainda não reunia todas as condições necessárias para que ela germinasse. Fui entender essas coisas muito tempo depois e para ser bem sincera, ainda estou aprendendo. Creio que só fui compreender que o coletivo importa quando compreendi que eu mesma sou feita de multitudes.
