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Grilagem: uma expressão nada romântica

Uma das coisas com a qual a gente brinca bastante nesse universo junk journal é com a ideia de envelhecer o papel. Ou melhor dizendo: você pega um papel novo e faz ele parecer um papel antigo, amarelado e manchado. Fazemos isso para dar aquele aspecto retrô ao trabalho final e há várias maneiras de fazer isso. A maioria das moças que acompanho usam tinta Distress Ink da Tim Holtz (ou marcas similares), amassam o papel e/ou aplicam corantes marrons/amarelados. Em um post anterior eu expliquei como fiz algumas tinturas naturais usando materiais encontrados em casa.

Meu marido olha essas coisas e acha muito engraçado. Ele brinca que quanto menos ele souber, menos vai precisar explicar ao juiz. Disse que estou operando um esquema de grilagem aqui em casa. Como professora de Geografia, comecei mentalmente a pensar em todas as questões relacionadas com as disputas no campo.

Quando pensamos em grilagem, talvez a primeira coisa que surge na cabeça é uma artimanha de falsificação de documentos com o objetivo de que eles pareçam mais velhos. O papel guardando junto com insetos. As fezes dos insetos, seus parasitas e insetos que morrem acabam deteriorando o papel. Nessa apostila de um curso sobre conservação de documentos, isso tudo é explicado. Brocas, cupins, baratas, traças e outros bichinhos de um modo geral podem causar estragos enormes em acervos de bibliotecas e de documentos em geral.

O processo de deterioração do papel causado pelos insetos e pelos seus dejetos o deixa amarelado, manchado e com um aspecto gasto nas bordas. Na minha mente vem uma cena (que talvez apareça em sua mente também, cara leitora) de uma novela de época na qual o picareta coloca um documento dentro de uma gaveta de madeira infestada de grilos (o close é dado na gaveta). Talvez porque grilos sejam insetos grandes e mais fáceis de capturar, daí a escolha por esse animalzinho.

Mas será que grilagem é só isso, diríamos que é um tipo de estelionato e que ninguém se machuca? Será que é assim mesmo? Sinto dizer que não.

Grilagem é a “usurpação da terra pública, dando-lhe a aparência de particular”, de acordo com Rogério Reis Devisate, no livro Grilagem de Terras e da Soberania. Isso é feito através da falsificação de documentos como o objetivo de fazer parecer que terras públicas ou de terceiros tenham outro proprietário. A figura do grileiro surge aí, pois é quem comete a atividade de grilagem.

Frequentemente a violência é empregada nesse processo. Povos originários e populações tradicionais que vivem nas terras griladas são tratados com violência para que deixem a terra. A grilagem frequentemente ocorre em dois biomas muito ameaçados, o Cerrado e a e a Floresta Amazônica, e as áreas griladas são ilegalmente desmatadas ou queimadas.

Acho que ficou bem claro que grilagem tem tudo a ver com violência. E também acontece nas zonas urbanas, com o poder paralelo tomando conta de áreas da cidade e fazendo negociações com a população mais pobre.

Como pensar nos leva a caminhos distantes! Meu marido, que não é professor de Geografia, fez só um comentário engraçado. Mas minha mente me levou para longe, já em assuntos que vou precisar tratar.

Bibliografia

Dicas

Algumas dicas bem legais para minhas leitoras. Estamos em um momento tão difícil, com uma grande ameaça à democracia (infelizmente alguns compatriotas não percebem o que está em jogo) e muitas de nós estamos sofrendo com problemas de saúde mental. Vou dar algumas dicas legais que nada tem a vez com política. Só pra divertir, fazer rir, entreter e aprender.

  • Man x Bee: meus filhos e eu assistimos essa minissérie da Netflix duas vezes. Rowan Atkinson (Mr. Bean) continua nos fazendo rir.
  • Johanna Clough: mais um canal incrível para quem gosta de junk journal e de dicas relacionadas com esse universo.
  • Jardim Consciente: instagram da Dra. Neusa Tamaio, que fala sobre procrastinação e mindfulness. Gosto muito da maneira que ela entrega sua mensagem, muitas vezes com pequenas histórias que nos fazem refletir sobre nós mesmas.

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