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Quem foi Joan Clarke? – a matemática que aparece no filme O Jogo da Imitação

Na primeira metade do século XX, muitas mulheres atuavam somente como donas de casa, mesmo que as guerras tenham pressionado nossa presença no mercado de trabalho. Poucas mulheres estavam na Universidade, principalmente em alguns cursos de exatas. Essa história dos cursos de Exatas ainda acontece, principalmente nas Engenharias. No começo do ano, meu primo mandou uma foto de sua turma de calouros de Engenharia e havia menos de 10% de meninas no grupo.

Mas não é dos dias de hoje que pretendo falar. Gostaria de falar da Segunda Guerra Mundial. Há alguns meses escrevi outro post sobre esse período histórico, quando citei o papel da Meteorologia em alguns momentos do armistício. Um filme muito interessante ambientado nesse período é O Jogo da Imitação (2014), que conta a história real do brilhante e complicado Alan Turing e o desenvolvimento da Enigma, uma máquina que possibilitou que o código nazista fosse desvendado.

Turing mereceria um post a parte. Sua história é a de um homem muito inteligente e difícil de se relacionar. Foi desprezado pelo seu próprio país, o Reino Unido, pois na época ser homossexual era crime. Recomendo demais o filme, caso você não tenha assistido.

Hoje é de Joan Clarke que pretendo falar, que no filme tem um relacionamento de muita amizade e carinho com Turing. Vou falar um pouco da vida dessa matemática, de sua formação e de seu papel na decodificação das comunicações nazistas. Essa decodificação foi decisiva e especialistas afirmam que sem esse trabalho, a Segunda Guerra Mundial poderia ter durado mais tempo. Ao estudar a Segunda Guerra, nota-se que o Eixo estava ganhando várias batalhas até metade da guerra mais ou menos. No final, os Aliados ganharam reforços e estavam indo muito bem. A decodificação das mensagens nazistas pode ter sido uma das responsáveis por essa reviravolta na guerra.

Joan Clarke nasceu em Londres, no ano de 1917. Era muito estudiosa e demonstrava habilidades em Matemática desde pequena. Conseguiu uma bolsa de estudos para estudar no Newnham College, uma faculdade para mulheres que faz parte da Universidade de Cambridge. Ela se formou como uma das primeiras da turma e queria continuar seus estudos, fazendo um doutorado em Matemática, mas isso só era possível aos homens naquela época.

O trabalho de decodificação era algo rotineiro nos serviços de inteligência naquele tempo em que as mensagens eram transmitidas por rádio e telégrafo. Podemos dizer, fazendo uma analogia com a atualidade, que as mensagens eram criptografadas e decodificadores (hackers?) faziam o trabalho de decodificar as mensagens do inimigo, encontrando padrões e chaves de codificação. Esse trabalho era feito por equipes compostas por linguistas, enxadristas e matemáticos que se destacavam academicamente.

Um dos melhores matemáticos de de Cambridge era William Gordon Welchman e por essa razão, foi convidado para supervisionar as operações de decodificação em Bletchley Park. Era um lugar cuja natureza do que acontecia lá era tão secreta que apenas em 2009 o Governo Britânico reconheceu oficialmente a contribuição das pessoas que trabalharam por lá. No auge da Segunda Guerra Mundial, mais de 10 mil pessoas trabalharam lá e cerca de 75% eram mulheres. Welchman conhecia as habilidades de Joan Clarke pois era seu orientador e em 1940 a convidou para a integrar a Government Code and Cypher School (GCCS) e depois desse treinamento, integrar a equipe em Bletchley Park. A força de trabalho das mulheres foi muito empregada nessa área: além do Reino Unido, nos Estados Unidos foram também cerca de 10.000 mulheres trabalhando nessa área, empregadas pelas Forças Armadas.

Joan integrou um grupo que ficou conhecido como “The Girls” e cada uma recebia 2 libras por dia para realizar algumas tarefas administrativas. Pouco tempo depois ela foi conquistando espaço e foi trabalhar na Hut 8, onde conheceu Alan Turing, de quem ficou muito amiga. E na Hut 8 ela realmente se torna a única mulher integrante das equipes que lidaram diretamente com a quebra de códigos. Ela nunca recebeu um salário equiparado aos dos homens da equipe.

Joan chegou a ser noiva de Alan Turing, que lhe revelou sua homossexualidade. O noivado foi rompido, mas os dois mantiveram a amizade. Quando a guerra acabou ela foi trabalhar no Government Communications Headquarters (GCHQ), onde conheceu seu marido, o tenente-coronel John Kenneth Ronald Murray. Ela fica viúva em 1986 e vem a falecer em 1996.

Fiquei conhecendo a história de Joan apenas pelo filme e eu acredito que foi o caso de muita gente. É importante lembrarmos que Joan não foi a única. Margaret Rock, Betty Webb, Mavis Batey e Audrey Briggs são algumas das outras mulheres que usaram seu talento e trabalharam arduamente na quebra de códigos que salvaram muitas vidas e diminuíram a duração da guerra.

E vocês sabiam que foi uma mulher a primeira a noticiar o fim da guerra nos Estados Unidos? Em 14 de agosto de 1945, Virginia D. Aderholt decifrou uma mensagem histórica. Essa mensagem tinha sido interceptada pela U.S. Army e era uma mensagem do Japão para a Suíça. A mensagem falava em rendição incondicional e Virginia a decodificou e traduziu.

Infelizmente somos invisibilizadas e apagadas pela narrativa que coloca a guerra como um conflito onde há apenas homens nas trincheiras. É importante lembrar que guerras são vencidas principalmente por meio da estratégia.

Referências

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