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Junk journal: colecionando memórias e histórias da minha vida

Sempre tive uma tendência a juntar papeis que tenham algum significado para mim. Esse significado pode ser profundo ou muito superficial (i.e. achei o papel bonito). De qualquer maneira, há uma subjetividade atribuída à cada objeto de celulose que seleciono.

Mexendo em algumas de minhas pastas, encontrei esse papel branco e verde claro, com flores no canto superior esquerdo e no canto inferior direito. No cabeçalho, lemos a palavra “Date” e “Weather”. Essa é uma das páginas que sobraram de um caderninho que comprei em uma loja de R$1,99 no ano de 2000. Eu frequentava um dentista no centro da Penha de França, bairro de São Paulo. Para voltar pra casa ou para ir à estação de metrô, eu tinha que pegar um ônibus num local que era próximo a essa loja e também havia um sebo ali perto (alguns de meus livros do Jornada nas Estrelas vieram de lá). Eu recebia algo como uns 10 reais por semana, além do passe de ônibus – que era moeda na época – e da marmita. Bom, teve uma semana desconhecida em que parte desse orçamento foi usado para comprar um diário que tinham essas páginas.

Eu cheguei a escrever em algumas dessas páginas. Porém eu tenho um irmão 3 anos mais novo que era terrível e frequentemente mexia nas minhas coisas, lia meus diários e descobria os nomes dos meus crushes. Essas violações de privacidade, que pareciam ser até certo ponto incentivada pelos meus pais, prejudicaram minha escrita e, consequentemente, a possibilidade de desabafar através dela.

Rasguei as páginas, por vergonha. Eu me arrependo tanto de tê-las destruído, adoraria saber o que eu escrevi. Adoraria poder acolher aquelas palavras. Adoraria poder rir das coisinhas de adolescente. Pelo menos tenho boa memória e tenho adquirido algum senso crítico e autoacolhimento.

Anos depois entrei na USP e já cursava bacharelado em Meteorologia. Acabei usando o diário inacabado na disciplina de Métodos de Observação Meteorológica (creio que era esse o nome da cadeira). Bom, foi uma disciplina de extrema importância para mim e eu nem suspeitava na época em que cursei. Alguns de vocês sabem, mas trago a informação para quem é novato, eu trabalhei por 10 anos com observações meteorológicas, dando conta da compra e manutenção de instrumentos meteorológicos convencionais, fazendo o controle de qualidade das observações e do banco de dados, etc.

Numa dessas amarrações que ocorrem nos diversos pontos da vida, o caderno parece que foi feito para a disciplina. Uma das atividades que a gente tinha que fazer era observar o céu ao longo de uma sequência de dias e anotar os tipos de nuvens presentes. Não havia celular com máquina fotográfica na época, isso teria tornado essa atividade bem mais interessante. Eu gostei muito de fazer essas atividades e observar nuvens e ensinar seus tipos e sua importância na compreensão da atmosfera são alguns dos assuntos recorrentes aqui no blog.

Há significado no pedaço de papel velho. Por isso que um junk journal também pode ser considerado um diário visual. Em 1996 eu já guardava embalagens de bala Freegels com cantadas toscas. Já guardava os primeiros envelopes de chá vazios (chá em saquinho eram novidade pra mim, na época). Lembro que levei minha agenda pra escola e uma colega se assustou, por achar que o envelope de chá fosse uma embalagem de camisinha.

Essa página de agenda onde lê-se “Januar” (janeiro, em alemão) faz parte de um antigo material de divulgação de uma marca de instrumentos meteorológicos. O idioma também me faz lembrar de uma amiga muito presente em minha vida, a Jaque. Uma página de Morte no Nilo foi de um livro todo arrebentado que encontrei no lixo de uma biblioteca (que eu li em 2022). Os recortes, a planta, a carta de baralho, etc. Tudo tem um significado. Eu até lembro de uma pessoa que fez parte de minha vida (quando éramos muito jovens) e falava muito sobre a importância de pequenos gestos e de pequenos objetos. Nossas conversas possuíam subjetividade e reflexão, mesmo que ela estivesse muitas vezes num lugar religioso. Hoje ele se tornou um direitista desses de família dentro da lata, hoje tem muito gay, escola não ensina nada, Brasil de Jesus e etc.

A vida…

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2 Comentários

  1. Eu amo fazer diários. Pena que os meus de adolescente foram jogados fora num ataque de Feng shui entre mil mudanças de casa hahahaha

    Preciso te mandar mais coisinhas escritas em alemão.

  2. Nem me fala! Eu já tive essas loucuras ‘Mary Kondo’ e joguei fora (papeis, coisas de escola, diários) ou doei várias coisas. Outro dia mesmo estava lembrando de uma sacola de tecido q eu tinha q eu adorava rs.
    Ahh, manda sim se vc puder, vou amar <3
    Bjos

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