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Na minha época, eu não tinha mochila, eu usava saquinho de supermercado

Se você, como eu, é de família de classe trabalhadora (no contexto rural ou urbano) que já passou muita dificuldade nessa vida mas deu uma melhoradinha, já deve ter ouvido histórias do tipo:

  • No meu tempo, eu caminhava 4km pra ir pra escola, atravessava até rio;
  • No meu tempo, eu usava sacolinha de mercado pra guardar o material;
  • No meu tempo, eu usava o lápis até acabar todinho;

(e essa é infelizmente a realidade de muitos brasileiros ainda hoje, continuemos)

Enfim, vocês já sacaram. São histórias que a gente ouve dos pais, dos tios e dos avós. No caso dos avós então, mais comum ainda são histórias de “parei de estudar na quarta série pra trabalhar na roça“. Quando eu era mais nova, geralmente eu ouvia essas histórias porque meus pais tinham o objetivo de que eu valorizasse os confortos mínimos que eu tinha porque eles deram muito duro para que eu pudesse usufruir dessas pequenas benesses.

Alguns leitores talvez se lembram de quando contei que eu demorava horas para chegar até a USP. Foi muito difícil, muito mesmo, mas eu consegui. Antes mesmo de entrar na USP, eu já usava ônibus e/ou metrô para chegar em minha escola pública um pouco melhor (tinha até vestibulinho para ingressar) e demorava cerca de 40min pra chegar na escola.

Eu não romantizo as dificuldades que passei e nem as dificuldades ainda maiores que atravessaram meus pais e meus avós. Ninguém deveria ter que guardar o material escolar numa sacolinha. Ninguém deveria ter que demorar horas pra chegar na escola. As coisas deveriam ser mais seguras e mais tranquilas para que todos possam alcançar seu potencial.

Pois bem, corta pra mim em 2026.

Lembrando que não romantizo pobreza, ok? Também espero que quem ler esse texto consiga compreender meu ponto e dialogue antes de apedrejar.

Vamos lá.

Só minha opinião, ok?

Eu acho que por terem a vida muito fácil, muitos adolescentes de classe média e média alta não valorizam as oportunidades que tem. Esse excesso de facilidades está deixando os adolescentes extremamente preguiçosos, apáticos e sem planos para o futuro.

Imagine que seu pai pode pagar o melhor colégio de sua cidade. Só o material escolar é caríssimo e a mensalidade, nem se fala. Você então pensa com seus botões: “ora, meu pai também pode pagar aquela faculdade particular ‘fácil’ ali por mais 4 ou 5 anos, ele já pagou até aqui”. Por essa razão, você não estuda direito, não tem comprometimento e ainda leva pro buraco seus amigos influenciáveis que são de classe trabalhadora e cujos pais se esforçam muito mais para pagar pela instrução.

Vocês entenderam, acho. Principalmente se tem a minha idade e principalmente se são professores.

Tá com fome? Ah, pede no app. Quer uma blusinha roxa de borboletas azuis que brilha no escuro e a influencer divulgou? Só clicar que já compra e chega na sua casa rapidinho. Quer ir na casa do colega que fica 3km de distância? Ah, só pedir um carro de app. Enfim, tudo é fácil. Não precisa improvisar pra nada, não precisa passar por qualquer tipo de microprivação ou espera, nada. Não consegue desenvolver um parágrafo? A inteligência artificial faz. Tudo se consegue. Eu não acho que viver assim fortaleça o caráter. Papo de boteco aqui, papo de alguém com alguma experiência na vida, não fui atrás de fontes.

Frequentemente fico achando que virei a idosa do saquinho de supermercado. Por outro lado, eu acredito sim que tem algo muito errado. Falta élan. Falta perrengue.

Muitos dizem “ah, mas quando sair da escola, vão ver como é o mundo de verdade”. Imediatamente penso nisso:

Pathetic earthlings. Hurling your bodies out into the void, without the slightest inkling of who or what is out here. If you had known anything about the true nature of the universe, anything at all, you would’ve hidden from it in terror.

Só que… eu não acho que eles vão ver como é o mundo de verdade. Não se estamos falando de pessoas com dinheiro. Elas vão estudar em uma universidade menos competitiva e particular, vão tirar notas bem meia-boca, vão conseguir empregos tranquilos por indicações de familiares e amigos endinheirados ou empreender com facilidade. Essas pessoas não vão conhecer anything about the true nature of the universe. Porque quando você tem dinheiro, você cria um monte de barreiras e limites físicos e metafísicos para não ter contato com a true nature of the universe. Ming, você estava errado. Você nunca deve ter usado uma sacolinha pra carregar seu caderno de capa verde dado pelo Estado, com o hino nacional de Mongo na contracapa, nunca.

***

Lembrei desse documentário também.

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3 Comentários

  1. Oi Samantha,

    Sobre a questão geracional, você acha que talvez o sistema japonês tenha seus méritos?
    Como a questão de que os herdeiros precisam provar seu valor para não serem deserdados e a possibilidade de adotarem alguém mais competente (geralmente homem, por causa do machismo estrutural) no lugar do filho para dar continuidade nos negócios da família?

  2. Oi Pedro,

    Como outro dia eu conversava com uma conhecida que é advogada: é necessário preparar sucessores e não herdeiros. Acho que faz todo sentido.

    Obrigada pela visita =)

  3. Por nada.
    Mas acho que depende, para os negócios, sim. Só que não precisa ser tão extremo a ponto de adotar, pode usar o esquema norte americano de só passar a direção da empresa para fora da família.
    Justamente na questão familiar e de afeto, acho que não se aplica, o amor deve ser incondicional, não importa quão inútil sejam seus filhos, ame-os sempre e deixe algo para eles não ficarem na miséria.
    Por isso a lei brasileira não permite a deserção, os filhos são herdeiros obrigatórios, sempre.

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