Não existe pergunta idiota

“A única pergunta idiota, seus bobinhos, é aquela que a pessoa não faz.”
Stephen King – O vento pela fechadura
Anitta e a Gabriela Prioli participaram de uma live sobre política (assista aqui). A primeira, celebridade brasileira conhecida internacionalmente, convidou Gabriela Prioli para conversar sobre conceitos básicos de política. Gabriela Prioli, que é advogada, professora e comentarista política, ficou famosa nacionalmente após participar de um programa de debates da recente CNN Brasil. Ela é uma profissional articulada, respeitada e que fala de política com muita propriedade e de maneira muito didática.
Num determinado momento da live, Anitta faz uma pergunta muito honesta a respeito da estrutura do Poder Judiciário e da divisão dos Três Poderes. É uma pergunta que para muitos é básica, e dessa maneira Anitta foi alvo de chacota por parte de alguns, que debocharam dela por sua ignorância. Fiquei alguns dias pensando a respeito disso e desde que soube do caso, queria muito escrever a respeito disso. Bom, concluí que muitos daqueles que debocharam da cantora também não saberiam responder perguntas sobre o Poder Judiciário ou sobre qualquer um Três Poderes. Também concluí que a gente precisa aprender a perguntar e que provavelmente nós não temos esse costume.
Eu sei muito pouco de política. Eu ainda tive a sorte de ter um professor muito interessado no Ensino Médio que se dedicou a nos ensinar esse básico, pois ele dizia que era fundamental saber essas coisas. Na época, final dos anos 90, a gente debatia muito pouco sobre política. O mantra comum na época era que religião, política e futebol eram assuntos a serem evitados num grupo de amigos. Ninguém debatia se era de esquerda ou de direita, por exemplo. Era um mundo diferente e esse professor já nos dizia que nós deveríamos nos interessar sobre o tema. Ele nos fez pesquisar a respeito dos vereadores que representavam nosso bairro, por exemplo. Ele nos incentivou a cobrar melhorias, escrever, pressionar, etc.
O tempo passou e o mundo mudou. Chegamos a uma situação insustentável no Brasil, em que pessoas com mentalidade fascista tiveram coragem de aparecer. Além disso, a ignorância fez muitas pessoas seguirem a maré e se apegarem a figuras políticas com muita idolatria. O mundo está bem diferente de quando eu era adolescente. E eu acho ótimo que uma celebridade como a Anitta se preocupe em fazer uma live onde ela pode aprender e ajudar várias outras pessoas a aprenderem também.
Eu aplaudo a Anitta por isso. E eu lamento pelas pessoas soberbas que debocham de quem faz uma pergunta honesta, sincera, querendo realmente aprender. O que é óbvio para você talvez não seja óbvio para outras pessoas. Vou usar como exemplo minha própria área, a Meteorologia. Eu já atendi muitas pessoas ao final de palestras que dei e já falei com outras tantas através do blog e das redes sociais. Muitas pessoas me fazem perguntas cujas respostas para mim são óbvias, tais como: “A moça do tempo é meteorologista?” ou “As nuvens são feitas de vapor?”. No começo da minha formação, quando eu vivia na minha bolha de outros estudantes de Meteorologia ou áreas relacionadas, eu achava esse tipo de ignorância um absurdo. Quanta soberba! Eu que não sei tantas coisas sobre tantos assuntos…
Com o passar dos anos e o maior contato com pessoas de outras áreas, mas que gostam de aprender e obter conhecimento geral, fui notando que conversar sobre a minha área de formação me tornava uma pessoa interessante. Eu tenho a ensinar, posso trocar com os outros. Eu ainda estou aprendendo a trocar.
Eu fui uma péssima aluna de graduação. Não porque tirava notas ruins. Pelo contrário, nunca reprovei um curso e fiz 2 ou 3 trancamentos parciais porque o semestre estava sobrecarregado. Eu era uma aluna eficiente, dentro das minhas possibilidades. Quando eu digo que eu era uma péssima aluna de graduação, digo isso porque eu percebi, fazendo uma análise do passado, que eu quase não fazia perguntas. Eu tinha muita insegurança em perguntar.
Para começar, eu sentia que eu não pertencia à USP. Era a tal Síndrome de Impostor. Eu, de família pobre e moradora da periferia paulistana, como podia estar na USP? Só podia ser um erro, era um curso pouco concorrido, por isso eu estava lá. Essa merda de pensamento continuou por anos, chegou até o Mestrado. Então como eu, que não deveria estar lá pra começo de conversa, poderia fazer perguntas? Se eu perguntasse algo idiota iriam perceber que eu não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo lá. Como eu fui idiota!
Esse pensamento me prejudicava e me fazia perder tempo. Eu tinha que procurar os monitores das disciplinas para fazer as perguntas, porque pelo menos seríamos apenas o monitor e eu. Em outras ocasiões, nem o monitor eu procurava, pois ficava sozinha, batendo cabeça, tentando responder as perguntas por conta própria. Estudar em grupo? Sim, eu estudava, mas até parece que eu ia perguntar qualquer coisa para alguém e parecer burra. Pois é, caros leitores, eu era assim.
Hoje vejo que essa minha postura pode ter demonstrado, para alguns professores, um certo desinteresse ou soberba. Não era o caso, eu só não queria que achassem que eu era burra. Ou melhor, na minha cabeça, eu não queria que percebessem que eu era burra.
Claro que tudo isso foi um erro meu, mas eu estou aqui procurando explicações. Somos frutos do nosso meio, isso é inegável. Outra coisa que me prejudicou muito foi o machismo. Eu era uma moça relativamente bonita, com uma cobrança absurda em não “demonstrar burrice” num ambiente predominantemente masculino (sobretudo nas disciplinas de Física e Matemática). Um pensamento lamentável de minha parte, que claro, infelizmente fazia com que eu julgasse outras pessoas.
Na Universidade eu tive contato com os escritos do físico ganhador do Nobel Richard Feynman. Além de suas notas de aula serem excelentes e ajudarem muitos estudantes até hoje (consulte aqui), há uma curiosidade interessante sobre sua vida. Ele morou no Brasil por um curto período de tempo na década de 50, voltou na década de 60 pra passear, pulou carnaval e tudo o que tem direito (esse texto conta tudo). Quando lecionou no Brasil, ele observou que os alunos sabiam mas não sabiam (leia essas observações de Feynman aqui). O que quero dizer com isso? O aluno era capaz de citar leis da Física de cór e salteadas, de trás pra frente, de cabeça pra baixo, etc, mas não era capaz de relacionar isso com observações da natureza. Era incapaz de fazer um gedankenexperiment. Ou seja, tudo muito baseado na decoreba, o que infelizmente persiste até hoje. Em suas observações sobre o comportamento dos alunos dos cursos de Física no ensino superior brasileiro, Feynman notou que os alunos faziam poucas perguntas. Ao investigar isso, conversando com os próprios alunos, Feynman percebeu que havia esse medo de fazer uma pergunta idiota e parecer burro. Bom, nem preciso dizer que na minha opinião essa é a ideia que persiste até os dias atuais.

Nós debochamos de quem faz perguntas simples ou básicas, demonstrando realmente querer aprender, como debocharam da Anitta nesse caso recente que citei no começo. Preferimos fingir que sabemos quando nós não sabemos de nada. Ninguém tem coragem de ser a criança na fábula de Hans Christian Andersen, A roupa nova do Rei. Sim, muitas vezes a dúvida de um é a mesma dúvida dos outros e ninguém se manifesta.
Há dias em que abro o Twitter e só vejo gente sabe tudo na timeline, parece que não há um ignorante sequer. A soberba é tamanha que há brasileiros que ousam ensinar Cristianismo ao Papa e coisas do tipo.
O ensino nos colégios de alto padrão apenas treinam alunos para o formato das provas dos vestibulares. Ensino Médio e Ensino Superior ainda reproduzem esse modelo de “decoreba” do material didático, que estimulam muito pouco o raciocínio crítico. Ainda temos muito o que aprender.
Enquanto isso, pessoas que fazem perguntas sinceras e que querem aprender são desrespeitadas. Vejam, a Anitta não chegou na live se achando, sendo grosseira e impedindo que a Gabriela falasse (como fazem muitos entrevistadores e apresentadores famosos). Ela ouviu atentamente o que a Gabriela tinha a ensinar, interrompendo-a apenas quando tinha alguma dúvida ou colocação pertinente. Mesmo no formato live, foi possível notar o interesse e a atenção da cantora. Anitta foi educada e humilde e ainda assim foi motivo de deboche de muitas pessoas. Um comportamento desses tinha que ser copiado.
Parabéns, Anitta. Apesar desses comentários maldosos, tenho certeza que você incentivou outras pessoas a aprenderem. Por mais lives desse tipo, onde um artista usa sua fama e notoriedade para ensinar.
***
Créditos da foto: Photo by Camylla Battani on Unsplash
Gostaria também de agradecer ao Caio Gomes, O Físico Turista, por compartilhar o texto do Feynman com suas observações sobre os alunos brasileiros que menciono no post.

Desta vez, desculpe-me.
Você cometeu, como muitos, o erro da utilização do termo fascista.
O fascismo é um regime onde o estado é tudo. No Brasil atual, desde o milênio passado, não temos o estado como tudo e nada fora do estado.
Mas não se preocupe, é um erro comum. E nessa época de polarização temos a visão de que ou você é comunista ou é fascista, não existindo meios termos.
E como dizia um professor: “as perguntas são grátis. E se não tiverem eu tenho várias que estarão na prova.”
Nemo
o chaaaaato
Entendo que o termo tem endereço certo na História (local e período). E não quero fomentar essa polarização, ainda mais porque muita gente sequer compreende a origem desse termo. A questão é: como você sugeriria que eu escrevesse isso? Naturalmente você compreendeu o que quero dizer com mentalidade fascista. Mentalidade conservadora? Acho que se eu dissesse isso estaria criando um problema e não estaria explicando nada. Vou pensar com carinho nesse trecho.
Obrigada