O celular absorve nossas vidas

Esse texto vai ser muito lugar comum, porque é sobre algo que muitas pessoas já repararam: estamos abusando do uso do celular e isso está acabando com nossas relações presenciais. Sabe aquela história de que fumar faz mal à saúde e a pessoa continua fumando porque é difícil parar? Então, eu tenho a impressão que com o celular é a mesma coisa.
Outro dia estava ouvindo um programa de entrevistas e um dos participantes disse que fica tempo demais nas redes sociais e que numa ocasião ele reparou que ficou 3h pra lá e pra cá nos ícones do celular, de rede em rede. Ao final, ele nem se lembrava o que havia consumido ao longo dessas 3h. Ou seja, é muito tempo gasto com coisas de baixo valor, coisas que pouco agregam nas nossas vidas.
Aconteceram algumas coisas recentemente que foram para mim um exemplo claro do vício em celular. A primeira delas foi comigo. Eu tive que esperar algum tempo em um consultório médico e estava sem celular e também não havia levado um livro. Como os consultórios hoje em dia não tem mais revista Caras, só me restou ficar pensando com meus botões. Constatei que ao usar o celular, estou constantemente fugindo de mim mesma, deixando de ser caçadora de mim.
Foi bom ficar sem o celular naquela sala de espera.
Dias depois, eu estava em uma outra sala de espera. Uma espera rápida, eu precisava de um documento, assim como outras pessoas que estavam naquele lugar. Um senhor sentou para esperar. Ele pegou o celular e ficou paralisado, acho que eu até pude ver um pouco de baba no canto da boca dele. A funcionária do local o chamou 3 vezes e precisou tocar em seu ombro para que ele percebesse que o documento estava pronto. Um documento que era do interesse dele. Não havia qualquer indício que aquele senhor fosse surdo, pois observei a hora que ele chegou e conversou no balcão.
A última foi hoje. Eu estava em um ônibus com meus dois filhos. O motorista parou, eu desci, ajudei o mais velho e ia ajudar o mais novo que já estava quase se jogando dos degraus. Um rapaz queria “ajudar” e não largava o celular dele da mão, parecia colado. Na tal “ajuda”, ele iria acabar empurrando meu filho. Na verdade ele queria descer e me parece que maioria das pessoas não tem o menor respeito por crianças e idosos (é o que observo na prática). Só que o fato de ele estar com o celular grudado na mão feito um idiota colaborou com sua total ausência de empatia.
O celular está destruindo a gente. E aqui é pura especulação minha, mas vou comparar novamente com o tabagismo. No passado, a indústria do cigarro abafava a divulgação de qualquer pesquisa que mostrasse os perigos do fumo, quero dizer, as doenças associadas à esse hábito. O celular nas nossas mãos o tempo todo gera muito dinheiro para as Big Techs, especialmente para as GAFAM. Somos bombardeados o tempo todo com anúncios e nossos dados são usados de maneiras que nem desconfiamos. Vocês acham que pesquisas contundentes sobre os perigos do uso das telas vão ser facilmente divulgadas? Vocês acham que as pessoas tem interesse em se informar sobre algo que contraria o que elas fazem? Porque o ser humano adora um viés de confirmação, gostamos de informações que chancelam aquilo que já fazemos.
Tudo isso é para refletir, não é para demonizar a internet ou o uso do celular. Precisamos nos comunicar com as pessoas, trabalhar, produzir e consumir entretenimento. Mas até que ponto? Qualquer conteúdo é válido? Quem são as pessoas que nós deixamos famosos nesse processo? Penso que chegamos em um ponto muito perigoso desse infomar onde podemos nossas jangadas podem nos levar para caminhos sem retorno.
