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O grande fedor de Londres

Ilustração em preto e branco de um barqueiro esqueleto, com uma capa preta (lembra a figura da Morte), navegando pelo Rio Tâmisa todo sujo (destaque para
Cartoon da Punch Magazine publicado em 10 de julho de 1858

Pelo Brasil todo, temos problemas de poluição nos cursos d’água. De acordo com o Atlas dos Esgotos da ANA, apenas 43% da população brasileira tem seu esgoto coletado e tratado. Em outras palavras, temos muitos rios doentes, o que prejudica a sustentabilidade das cidades. O rio passa a ser chamado simplesmente de esgoto e deixa de fazer parte da vida nas cidades.

Meu pai, que cresceu em São Paulo-SP, conta que quando ele era criança era comum poder pescar em vários córregos lá da Zona Leste. Atualmente esses mesmos córregos por onde ele pescava estão poluídos, sem peixes e um terrível odor se levanta em dias mais quentes e secos. Esses rios, que poderiam ter suas águas aproveitadas de maneira sustentável, passam a serem vistos como um problema pela população. É como um cadáver, que as pessoas querem enterrar de qualquer jeito. E talvez seja por isso que muitos dos rios de São Paulo se tornaram subterrâneos.

Eu vivo em uma pequena cidade de 50 mil habitantes do Triângulo Mineiro e vejo com pesar que os rios daqui estão seguindo o mesmo destino triste. Já há pelo menos um córrego subterrâneo (pelo o que observei) e tantos outros poluídos. A cidade até tem investido em tratamento do esgoto, coletando o que chegaria aos rios em uma rede que corre paralela aos rios, mas não sei se vai funcionar. A cultura de “jogar no córrego” é muito forte, as pessoas acham que não tem um problema jogar sujeira, pois já é um esgoto mesmo.

Certo, mas o que toda essa conversa tem a ver com a imagem que abre o post e com o título? Eu quero mostrar que esse problema de poluição massiva dos cursos d’água não é uma questão recente. Eu estava fazendo algumas pesquisas para preparar uma aula sobre Revolução Industrial e soube de um acontecimento na Londres de 1858 que ficou conhecido como O Grande Fedor.

As águas do Rio Tâmisa foram se tornando cada vez mais fétidas a medida que a industrialização ia se consolidando. As águas ficaram cada vez mais contaminadas com efluentes industriais e domésticos. Precisamos lembrar que a população de Londres cresceu muito, pois era uma das cidades que concentravam muitas empresas. Pessoas pobres provenientes de espaços rurais iam para as grandes cidades em busca de oportunidades de trabalho nessa nova etapa do capitalismo, o que fez aumentar muito a população das cidades e consequentemente aumentando a quantidade de esgoto residencial. Epidemias de cólera eram muito comuns no século XIX, além de doenças relacionadas com a poluição do ar.

Em 1855, na mesma Punch Magazine, foi publicada uma charge de Michael Faraday (o mesmo do eletromagnetismo) dando seu cartão de visitas ao “mostro do rio”. Poucos sabem, mas Faraday investigou a poluição industrial e foi um dos pioneiros das Ciências Ambientais dentro daquele contexto londrino.

Michael Faraday dando seu cartão para o Pai Tâmisa (um monstro que representa o rio), com o objetivo de que o rio se consulte com o professor. Punch, em 21 Julho1855.

Observe que a charge de Faraday também foi publicada em um verão, porém 3 anos antes. O tempo quente e mais seco favorece que os odores apareçam, como mencionamos anteriormente. Talvez você tenha observado isso em sua cidade, se há um curso d’água poluído onde você mora.

Com essa curiosidade sobre a Londres do século XIX, quero apontar que a questão é que a poluição do ar, do solo e da água não são problemas recentes. Acontecimentos do passado devem ser um exemplo para que não cometamos os mesmos erros, visando cidades mais sustentáveis e mais saudáveis para as pessoas.

Notas

As charges que ilustram esse post foram obtidas nesse verbete da Wikipedia.

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