Pedagogia da Autonomia com as más companhias

Em uma praça da cidade onde moro, instalaram um armário de madeira muito bonito e decorado com cores vibrantes. Bem no meio da praça. Ele tem uma porta de vidro e uma cobertura. Um abrigo do conhecimento. Uma casinha.
A primeira vez que abri esse armário observei a presença de alguns livros que foram best sellers. Também havia alguns livros de escritores brasileiros e estrangeiros renomados e considerado clássicos, como Machado de Assis ou Agatha Christie. Era um ambiente descolado para um livro estar, onde um bom livro poderia ter conversas produtivas com seus colegas livros.
Um dia passei por lá e peguei Um Gato Entre os Pombos, de Agatha Christie. Peguei também Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire. O livro da Agatha Christie eu li super rápido,já que essa incrível escritora tem o poder de prender nossa atenção e nossa imaginação.
Já o do Paulo Freire, que anteriormente eu conhecia apenas trechos, demorei um pouco mais. Que livro! Esse homem merece o título de patrono da educação e nossas escolas seriam as melhores do mundo se conseguíssemos aplicar as coisas que ele escreveu.
Chegou o dia de devolver os livros à sua casinha. Eu imaginava os dois livros ansiosos para reencontrar os amigos livros da casinha. Confesso que demorei mais do que eu gostaria, pois fiquei pouco mais de 1 mês com os dois livros. Quando cheguei na casinha, tive uma surpresa desagradável. Não, não foi depredação. A casinha estava intacta por fora e parecia até mais bonita. Mas quando abri, só encontrei livros religiosos. E falo daqueles livros bem doutrinadores, material de escola dominical e catequese, livros sobre o que é proibido ou não, livros para educar através medo do inferno.
Eu deixei Agatha Christie lá. Mas fiquei com medo de deixar Paulo Freire. O mantive para mim, decidi que iria reler alguns trechos para compreender melhor (a escrita do nosso barbudinho não é fácil). Eu temo pela vida de Paulo Freire, em meio à todas aquelas coisas tão antagônicas ao título que eu tenho em minhas mãos. Eu imaginei uma pequena rebelião, com livros religiosos criando bracinhos e rasgando as páginas de Paulo Freire em meio a uma fúria com gritos escandalosos de aleluia.
Eu salvei a vida daquele livro, por enquanto. Sonho em passar pela praça outro dia e encontrar companhias melhores dentro daquela casinha para então devolvê-lo.
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Recentemente gravei um Spin de Notícias em que falo daquela famosa organização mediúnica que afirma prever o tempo (?). Clique aqui para ouvir.
