|

O diário de Anne Frank: um livro que eu gostaria de ter lido na adolescência

Esse é provavelmente o diário mais conhecido do mundo.

Recentemente li O Diário de Anne Frank, nessa interessante edição da Viseu. Quando comprei, a opção para Kindle estava custando somente cinquenta centavos. No entanto, esse é um livro que você encontra gratuitamente pela internet e com certeza há uma edição esquecida na casa de alguém que você conhece ou em algum sebo próximo a sua casa.

Mesmo sem ter lido, acredito que muita gente sabe do que se trata. São as memórias autobiográficas de uma menina judia que precisou se esconder por cerca de 2 anos, durante a Segunda Guerra Mundial. Eu lembro que no ensino fundamental ouvi alguma professora dizer que ela havia se escondido lá com sua amiga. Por muito tempo eu criei em minha imagem a visão de duas adolescentes escondidas, completamente sozinhas. A professora estava totalmente equivocada. No anexo secreto, o esconderijo que ficava atrás de uma estante de livros num prédio de escritórios em Amsterdã, estavam Anne, seus pais, sua irmã, um casal de amigos de seus pais, o filho adolescente deles e depois chegou por lá para se esconder também um dentista de meia idade.

Com a ajuda de um grupo de amigos de Otto Frank (pai de Anne) e também com o uso de recursos financeiros, esse povo todo ficou escondido lá dentro. Tinha alguns cômodos que usavam como quartos, mas a família compartilhava sala e cozinha. Anne começa a escreve em seu diário ainda fora do esconderijo, falando de suas amigas, de sua escola e de suas primeiras paixonites. Ela tinha apenas 12 anos. Pouco tempo depois sua família vai para o esconderijo, que estava sendo preparado e organizado por meses. Ela evidentemente leva o diário pra lá e começa a escrever sobre a vida dentro do anexo secreto, sobre os conflitos entre os moradores, sobre os medos de todos que viviam ali dentro e principalmente sobre ela mesma. Ela tem sua primeira menstruação enquanto está lá, ela sente seu corpo e seus pensamentos se transformarem. Mesmo em meio a guerra e à perseguição, a gente se conecta com Anne porque percebe que compartilha muitas das questões que ela vive como adolescente.

Eu queria ter lido esse livro na adolescência. Vivi minha adolescência nos anos 90 e percebi que até mesmo um adolescente de hoje vai perceber que tem muito em comum com essa fascinante garota que viveu sua adolescência em um momento muito difícil dos anos 40. Quero dizer, mesmo dentro do esconderijo ela sente coisas que qualquer adolescente sente e ela escrevia sobre essas percepções.

Há um universo paralelo em que Anne Frank migrou pros EUA com sua família, naturalizou-se, tornou-se uma importante jornalista, ganhou um Pulitzer, tem um monte de livros publicados e tem 97 anos.

Anne lê muito e fala sobre isso no diário. Lê sobre mitologia, lê romances, lê sobre genealogia de família real, etc. Sua família era muito culta e com recursos, ela tinha acesso a livros, que foram escondidos no anexo secreto meses antes, enquanto o local estava sendo preparado para receber as pessoas. Além disso, seus protetores (os amigos holandeses cristãos que os ajudavam) também levavam livros. Ela lê até sobre o Brasil e chamou sua atenção a malária e o fato de mais de 50% da população ser analfabeta.

Mesmo não estando lá com sua amiga (como me disseram), Anne lembra-se dessa sua melhor amiga (essa história virou até filme da Netflix) e ela é mencionada em suas memórias.

Vejo como um livro que todo adolescente deveria ler, pois há diversas camadas para serem discutidas. Não é apenas um debate sobre os horrores da guerra e a opressão contra o povo judeu, naquela época. Para mim, trata-se de uma reflexão sobre expressar-se por meio da escrita, sobre sentimentos turbulentos da época da adolescência, sobre momentos difíceis e sobre termos o direito de elaborarmos nossas próprias opiniões e manifestá-las quando é pertinente.

Posts Similares

Comente