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O terremoto de Monte Carmelo e o eterno “Eu quero acreditar”

Estou participando de um sorteio literário no IG do Paulo Angelito (ele mesmo, o auditor fiscal que aparece na série Aeroporto – área restrita) e ele perguntou aos seguidores sobre o livro que mudou a visão de mundo de cada um. Pergunta extremamente difícil, mas ali na rapidez do post e da resposta para a dinâmica da promoção eu respondi que foi O Senhor das Moscas, de William Golding (falei desse livro aqui). Foi um livro muito importante para mim, não tenho dúvidas. Porém se me fizessem a mesma pergunta agora, enquanto escrevo esse texto com calma, eu teria respondido O Mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan. Eu cito esse livro com bastante frequência aqui no blog e em conversas com amigos, como por exemplo, contei que eu estava relendo no final do ano passado.

Esse livro sempre retorna nas minhas conversas e nos meus pensamentos. Por exemplo, pensei muito nele semana passada, quando foi registrado um tremor de terra de magnitude 2,2 na Escala Richter aqui na minha cidade. Tremores de terra acontecem a todo momento no Brasil, mesmo que estejamos bem ‘no meio’ de uma placa tectônica, a placa Sulamericana.

Quero dizer, terremotos são mais comuns nas bordas das placas, em locais com Japão, Indonésia, Califórnia, Turquia, Itália, etc. São mais intensos nesses lugares, alguns provocam muito estrago e causam tsunamis. No entanto, terremotos também acontecem no interior das placas e tem a ver com o processo de acomodação dessas placas. O Prof. Emerson Rodrigo Almeida, professor de Geofísica do curso de Geologia da UFU (Universidade Federal de Uberlândia), falou sobre esses processos na rádio local.

Antes da explicação desse professor e de outros cientistas da área, havia um boato na cidade de que um avião supersônico de uma base militar secreta chinesa poderia estar fazendo exercícios de guerra. O boato era mais ou menos esse, com mais ou com menos detalhes, dependendo da imaginação de quem o repassasse. Esse não é o primeiro e nem será o último boato a correr aqui na cidade, infelizmente. Criar boatos também não é uma ação exclusiva desta ou daquela cidade, pessoas que aumentam, inventam e repassam estão por aí desde antes das redes sociais. A questão aqui é que mesmo após a explicação do professor e mesmo após a repercussão de dados científicos públicos sobre o assunto (estão lá na reportagem do G1), algumas pessoas ainda preferiam continuar se apegando à versão de que não foi um terremoto, mas sim fim dos tempos ou algo relacionado à guerra.

O que tem a ver com Sagan?

Em O Mundo assombrado pelos demônios, Sagan fala muito sobre essa vontade de acreditar. As pessoas querem ter razão e elas se apegam às suas próprias teorias e tem muita dificuldade em desapegar. Ele discute como os seres humanos têm uma forte tendência psicológica a acreditar no que desejam que seja verdade, mesmo quando as evidências não sustentam essa crença.

Muitas crenças não surgem a partir de evidências sólidas, mas sim de necessidades emocionais e cognitivas. As pessoas querem que determinadas coisas sejam verdadeiras por várias razões e destaco ao menos quatro delas, de acordo com as ideias de Sagan:

  • Querem acreditar porque dá sentido ao mundo;
  • Querem acreditar porque isso reduz a incerteza e o medo;
  • Querem acreditar porque isso reforça a identidade pessoal ou cultural;
  • Querem acreditar porque isso gera uma certa sensação de controle sobre fenômenos complexos.

Outro ponto importante discutido por Sagan é que as pessoas frequentemente se identificam com suas próprias ideias. Quando alguém questiona uma crença, isso pode ser percebido como um ataque pessoal. Afinal de contas, a pessoa passou algum tempo pensando sobre aquilo, seja frequentando grupos de internet, frequentando igrejas, lendo livros, etc. Isso gera dois comportamentos comuns: resistência a novas evidências e defesa emocional da crença. Assim, abandonar uma ideia pode ser psicologicamente difícil porque implica admitir que se estava errado.

Sagan também ressalta o grande diferencial da ciência é que é o de criar mecanismos institucionais para combater essas tendências humanas. Mecanismos como a exigência de evidências verificáveis, a reprodutibilidade, a revisão por pares (quando a gente submete um artigo científico) e a disposição em abandonar hipóteses quando os dados não se sustentam são exemplos de medidas que visam reduzir o impacto da vontade de acreditar.

Os seres humanos não são naturalmente céticos. Nós somos naturalmente inclinados a acreditar. A ciência, portanto, não surge de forma espontânea. Ela é um esforço cultural para disciplinar nossa tendência de aceitar aquilo que queremos que seja verdade.

Percebam que estamos vivendo um cenário onde se desenha uma guerra entre os Estados Unidos e Israel x Irã. Temos outros atores envolvidos, países que disputam poderio geopolítico e econômico. Não é uma análise fácil de se fazer, esse conflito pode se desenrolar de diversas maneiras nos próximos meses. Muitos brasileiros se preocupam com o papel de nosso país no armistício e as redes sociais amplificam a cobertura desse assunto, trazendo muito ruído e boatos. Nesse cenário, espalhar que um terremoto tem a ver com o fim dos tempos ou com exercícios de guerra pode ser uma ideia que confirma as desconfianças políticas de muitas pessoas.

O mundo assombrado pelos demônios é um livro muito atual, apesar de ter sido escrito há pouco mais de 30 anos. Certamente deve ser por isso que sempre me lembro dele em situações como essa do terremoto. Não tenho dúvidas que é uma das minhas maiores referências e um dos livros que mais indico.

Imagem que abre o post: Image by Kati from Pixabay. Escolhi essa imagem porque o subtítulo do livro em inglês é “Science as a candle in the dark“. Mesmo com todos os seus defeitos, o processo científico é a melhor ferramenta que dispomos para enxergar e compreender alguma coisa na escuridão do universo.

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