O “mistério” da nuvem eterna do Rio de Janeiro

Imaginem uma nuvem que está sempre no mesmo lugar. Pois esse é o caso intrigante que trago hoje. Normalmente a gente olha para o céu e a quantidade de nuvens observada é variada. Mas nesse caso, estamos falando de uma nuvem que aparece sempre no mesmo lugar, no alto de uma ilha de Arraial do Cabo chamada Ilha do Farol.
Em 1830, a fragata inglesa Thetis naufragou nas proximidades dessa ilha. Outros acidentes já haviam ocorrido e a causa tinha relação com a baixa visibilidade pela presença de uma neblina na ilha, que a população local chamava erroneamente ‘neve’. Os indígenas da região evidentemente já haviam observado esse fenômeno, muito antes da chegada dos colonizadores.
Com esse e tantos outros naufrágios na região, em 1836 decidiu-se construir um farol nessa ilha (que não por acaso hoje se chama Ilha do Farol). No entanto, a população local avisou a respeito da provável inutilidade desse farol, uma vez que a tal ‘neve’ era tão espessa que provavelmente nem seria possível vê-lo.
No entanto, o Major Bellegarde, engenheiro militar português, ignorou os conselhos e decidiu construir o farol. Vários negros escravizados subiram o morro da ilha com muita dificuldade e construiram o farol em 3 anos. E os alertas se confirmaram: o farol de nada adiantou. Trocaram até os vidros da construção pra ver se o farol funcionava melhor, usaram a melhor tecnologia disponível à época e não houve sucesso. Chegaram a cortar árvores do entorno, mas nada venceu a nuvem. Acabaram abandonando aquele farol e construindo um novo num outro lugar da região, que funciona até hoje.
Mas como essa nuvem se mantém no mesmo lugar há tanto tempo? Como a Ciência explica?
Meteorologistas da Marinha do Brasil baseados em Arraial do Cabo tiraram centenas de fotografias da ilha do Farol ao longo de 3 anos e monitoraram dados meteorológicos de uma estação do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) ali instalada. Com os dados meteorológicos, os meteorologistas calcularam o Nível de Condensação por Levantamento (NCL). Eles verificaram que 80% das vezes em que o NCL estava abaixo de 390m (que é a altura do morro da ilha), o farol estava encoberto pela nuvem. O NCL é uma maneira de estimar a base das nuvens, que é onde começa a condensação.
A presença da montanha permite a formação da nuvem, já que massas de ar úmido são forçadas a subir a montanha, empurradas pelo vento. Quando atingem alturas mais elevadas, o vapor d’água presente nessa massa de ar se condensa, formando a nuvem.
Pesquisadores da UFRJ também pesquisam a nuvem que se forma nessa ilha, usando modelos meteorológicos. O meteorologista líder desse grupo de pesquisadores da UFRJ, Wallace Menezes, destaca que a nuvem se forma sempre em dias ensolarados, sendo um sinal de ausência de frentes frias e correntes de umidade.
Em termos de classificação de nuvem, essa é nuvem é uma mistura de nuvens Stratus e Stratocumulus, que são nuvens baixas e que não estão associadas com precipitação intensa (talvez uma garoa, no máximo).
De acordo com o pesquisador:
“A Marinha, quando identificou a formação da nuvem em Arraial do Cabo, percebeu que ela sempre aparecia em dias de céu limpo, em ‘bom tempo’. Isso acontece por causa da estabilidade atmosférica, pois a única interferência que o ar sofre é a da montanha, do relevo. Nada mais força o deslocamento do ar para cima, então, o céu fica “aberto”, ensolarado, e no entorno da montanha é possível observar a nuvem”. [x]
Em outras palavras, essa é uma nuvem formada pelo efeito orográfico. Ou seja, sem a presença obstáculo (no caso, o morro), ela não se fomaria. Nesse post em que conto as situações em que as nuvens se formam, também menciono a formação de nuvens através do levantamento forçado de massas de ar ao serem empurradas montanha acima.
Para concluir, vemos mais uma vez que a imprensa (no contexto da cultura caça-cliques) muitas vezes vende fatos científicos como um mistério sem explicação. A Ciência não explica tudo de uma vez, já que a pesquisa científica é uma união de pequenas peças de um quebra-cabeças. Aqui temos o exemplo de uma pesquisa feita pela Marinha que explicou uma parte do fenômeno, enquanto outra pesquisa feita na UFRJ explicou outra parte. Peças novas desse quebra-cabeças podem aparecer e peças antigas podem ser redesenhadas, a medida que novas evidências surgem. E isso ocorre em todas as áreas do conhecimento.
Fontes:
- Spin de Notícias #1911, onde falei sobre o assunto (esse post foi feito a partir do roteiro que escrevi)
- Nuvem aparece há quase dois séculos no mesmo ponto do Rio de Janeiro – Gizmodo
- Rio de Janeiro tem uma nuvem que se encontra no mesmo lugar há séculos e que já atrapalhou planos do antigo Império – Diário do Rio
- Nuvem que aparece sempre no mesmo lugar vira lenda em Arraial do Cabo; entenda – G1
- Nuvem no RJ que está no mesmo lugar há 186 anos intriga cientistas – Terra
