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A “Cientista” Grávida (segunda temporada) – Por que pesquisamos tanto sobre maternidade? (episódio 2)

Linda ilustração de uma mulher grávida em um campo de flores. Fonte: Stock Unlimited

Outro dia me deparei com essa ótima reportagem do El País que fala sobre a solidão das mães. E eu me identifiquei muito com a reportagem, mesmo contendo apenas relatos de mães espanholas. É incrível como a gente se sente conectada com mães de outros países tão distantes. A solidão e as dúvidas parecem ser algo sempre presente em todas nós, trazendo um sentimento de empatia e união. Entretanto, acredito que ainda falamos pouco sobre a solidão. A seguir, vou falar um pouco de minha experiência pessoal e vocês vão entender porque acho que falamos pouco sobre a solidão materna e vão entender porque eu acho que essa solidão acaba se relacionando com o fato de pesquisarmos tanto sobre maternidade no Google.

Essa reportagem me fez pensar sobre um monte de coisas e me fez desabafar com algumas amigas. Eu me senti sozinha já durante minha primeira primeira gravidez. Minhas amigas mais próximas e minhas primas que cresceram comigo não eram mães (agora eu tenho uma prima que é mãe de um menino de 1 ano e meio e meu filho mais velho tem 3 anos) e a maioria não é nem casada. Elas não compreendiam a dificuldade de conviver ao lado de alguém e não conseguiam entender o que era estar grávida. Eu me sentia um peixe fora d’água e às vezes ainda me sinto.

As maioria de minhas amigas mais próximas também não é mãe. Das amigas mais próximas que estudaram comigo na faculdade, eu sou a única que já é mãe. Graças a Deus a vida me deu mais amigas queridas tempos depois, que hoje apesar da distância física, sempre nos falamos e nos compreendemos e elas são mães. Hoje a situação melhorou um pouco, mas se eu for voltar atrás há mais de 3 anos atrás quando eu estava grávida de meu primeiro filho, eu vou ter certeza que a solidão era minha companhia.

Então vocês vão argumentar: mas e sua mãe? e suas tias? Bom, o que a reportagem do El País disse é verdade. O estilo de vida dos dias de hoje faz com que muitas de nós saiamos das localidades onde crescemos em buscas de melhores oportunidades profissionais e pessoais. Isso não é necessariamente ruim, fico feliz de poder ter melhorado de vida. Mas para tudo há um ônus: isso me fez ficar longe de minha família. Logo que você se casa e ainda não tem filhos, é até bacana estar longe da família, porque eu acredito que a gente precisa de espaço e privacidade para vivermos nosso estilo de vida, conquistarmos nossa independência e identidade familiar. Mas depois que você tem seus filhos, você sente muita falta de ter uma rede de apoio por perto.

Além da distância física, acredito que há uma distância emocional. Não me levem a mal, amo minha mãe e minhas tias. Mas a questão é que elas viveram uma época em que não era muito incentivado ou permitido falar sobre os próprios sentimentos e sobre as próprias angústias. Dizer que você era uma mãe cansada era um enorme tabu, logo diriam que você é relaxada ou não gosta de seus filhos. Se você dissesse então que se sentia sozinha, diriam que você está sendo ingrata ou que “deveria ter pensado nisso antes de ter filhos”.

Acredito que só agora, 2018, minha mãe e minhas tias começaram a falar sobre sentimentos. Penso que problemas relacionados à saúde mental em alguns membros da família e amigos próximos fizeram com que elas compreendessem mais a respeito da importância de falar sobre os sentimentos. Mas mesmo assim, eu sou reflexo dessa criação e ainda hoje sinto dificuldade em falar sobre o que sinto. Eu já fui muito desrespeitada quando tentava tirar o peso de dentro de mim, as pessoas diziam que eu era ingrata, que eu estava reclamando à toa, que a vida é difícil mesmo, etc. Diziam não, as pessoas ainda dizem isso. Eu tentei desabafar com algumas pessoas e ouvi essas coisas bem recentemente.

Por eu ter uma postura geralmente muito otimista e positiva com relação à vida em geral, tenho a impressão que muitas pessoas próximas acham que eu não devo reclamar. Como se ser otimista me tirasse esse direito! Curioso é que muitos já reclamaram sobre suas próprias vidas para mim, mas me negam esse direito.

Bom, nós mães nos sentimos sozinhas em nossas dores e dúvidas. E nos sentimos sozinhas fisicamente também, porque depois que o bebê nasce, a gente acaba ficando sozinha mesmo. Não dá pra levar um recém-nascido a uma festa ou grande reunião familiar (na minha opinião: eu não conseguiria) e não temos condições de receber visitas o tempo todo. Nem temos tempo de ligar para uma amiga! Acordar de madrugada para amamentar é uma experiência solitária, cansativa e até mentalmente difícil porque muitas de nós temos sintomas de depressão após o parto. Nessa solidão, a internet acaba sendo companhia e acabamos pesquisando muita coisa, lendo sobre tudo. Quantas mulheres de minha geração não amamentaram o bebê quase adormecido enquanto seguram um celular, para “folhear” o Instagram? Olha, acho que esse hábito do Instagram em particular pode até fazer mal, já que alguns perfis exibem aquela ideia de “vida perfeita” e “mulheres impecáveis” e bem, quando estamos no puerpério não estamos exatamente deslumbrantes. Na verdade, meu filho mais velho tem 3 anos e eu estou grávida de cerca de 20 semanas do segundo e eu não apareço chiquérrima em eventos como a Duquesa de Cambridge. A vida da gente muda, não tem jeito e a gente precisa encontrar maneiras de viver com isso. Desabafar com outras pessoas, se conectar a uma rede de apoio e encontrar relatos semelhantes aos nossos são maneiras de se sentir melhor, ao meu ver.

Além da internet poder ajudar a conviver com essa solidão, ela também é uma grande fonte de informação. Lembro especialmente de ler muita coisa no Baby Center e no blog Mil Dicas de Mãe. Eu também acompanhava blogueiras que se tornaram mães ao longo de sua “jornada blogueira”, uma delas é a Barbara Saleh que hoje já não escreve mais sobre maternidade, mas se tornou uma importante amiga. Através dela e de uma amiga que temos em comum, a Jaqueline, também me tornei amiga da Marrie Ometo. Ou seja, a internet me ajudou muito: me trouxe conhecimento, me deu paz e me fez conhecer conteúdos e pessoas incríveis.

Por outro lado, nessas “buscas desenfreadas por informação” (também falei sobre excesso de informação nesse outro post mais recente), acabei tendo acesso a conteúdos muito ruins, que me trouxeram angústia a preocupação descabida. Eram conteúdos anticientíficos, cheios de radicalismos, mal escritos, comentários maldosos e julgadores, fofocas, etc. Lembro especialmente de ter feito parte de um grupo onde apenas mães que praticassem o BLW e a cama compartilhada eram totalmente abraçadas. Ah sim, nesse grupo também o uso do tal colar âmbar era totalmente disseminado (até criei um mal estar no grupo por criticar esse colar) e se ainda por cima seu bebê usasse somente fralda de pano e não tomasse suco, você poderia ser considerada uma rainha no grupo. Claro, a amamentação era estimulada (o que é bom) mas se você desse fórmula por alguma razão, te tratariam com certa condescendência e evidentemente te julgariam. Parto em casa, mamadeiras de colher e outras coisas eram pregadas nessa seita (ou melhor, grupo). Saí do grupo porque estava me causando angústia, revolta e felizmente saí antes que começassem a falar sobre antivacinação (que me parecia a evolução natural das coisas naquele grupo).

Vejam, nem todas as coisas que mencionei no parágrafo anterior são ruins. Algumas, não são totalmente ruins e outras até são boas dependendo das circunstâncias. A questão é que eu não gosto de radicalismos. Eu já vi relatos de pessoas angustiadas porque a criança de 1 ano comeu uma bolacha maisena na casa da avó. Vejam, não sou a favor de comer um pacote inteiro de bolacha maisena durante o lanche, mas eu não vejo problema em comer uma “bobeirinha” na casa da avó. É questão de conversar com a avó e observar para que excessos não sejam cometidos. Sou a favor da amamentação, mas há mulheres que por vários fatores não conseguem amamentar. Sei por exemplo do um caso do irmão de uma amiga, adotado quando recém-nascido, que nunca tomou leite materno. Hoje é um adulto saudável, feliz, correto e amoroso. Há questões muito particulares de cada um que nos fazem tomar essa ou aquela decisão e se a gente está em paz com a decisão, não tem porque uma pessoa em um grupo de internet te dizer que você está errada.

Outra coisa: vão falar mal de você de qualquer maneira, então faça o que está dentro de suas possibilidades e seja feliz com isso! Porque mesmo que você crie um ideal de mãe perfeita e tente alcançá-lo, vão te criticar!

Eu sou muito a favor do bom senso, do meio termo e da flexibilidade. Sobre a questão dos alimentos, claro que a gente tem que proporcionar uma dieta rica em frutas, verduras, legumes, carnes magras e grãos. Claro que alimentos ultraprocessados não são bons para saúde. Mas comer brigadeiro e um pedacinho de bolo na festa de aniversário do amiguinho não vai estragar todos os seus esforços em termos de alimentação saudável (dependendo, claro, da idade da criança). A questão é colocar limites desde cedo (na minha opinião).

Esse lado julgador e radical da internet materna definitivamente não é pra mim. Fico até pensando que muitas mães são um pouco imprudentes ao compartilharem certos conteúdos, pois acabam expondo seus próprios filhos e/ou compartilhando desinformação e sendo até não-intencionalmente cruéis com outras mães pela maneira que se posicionam. Há um tempinho atrás a atriz Karina Bacchi postou uma foto onde seu bebê de 4 meses comia melancia. Caíram em cima dela nos comentários, falando que ela estava errada e muitas da seguidoras da atriz expuseram suas opiniões de maneira grosseira e invasiva. É verdade que recomendam que a introdução alimentar ocorra após os 6 meses, mas não sabemos o que o pediatra do bebê dela disse. Além disso, é só uma foto e talvez o bebê só estivesse com a boquinha encostada na fruta, sem de fato estar comendo.

Esses julgamentos e comentários grosseiros expõe um dos pontos perversos de nossa sociedade patriarcal que as feministas em geral ajudam a combater: a falta de sororidade.

Sendo assim, use a internet com sabedoria. Evite grupos maternos (a não ser que sejam de pessoas que você já conhece e que sejam equilibradas e tenham bom senso). Procure sites informativos, como o Baby Center, Revista Crescer, Revista Pais e Filhos e alguns blogs que são escritos de maneira responsável e educada (o da Marrie Ometto e o Mil Dicas de Mãe são dois bons exemplos atuais). Evite ficar muito tempo em cima do celular procurando informação, siga seus instintos e substitua uma pesquisa desesperada no Google por uma conversa com o pediatra e dependendo da dúvida até com a leitura de um bom livro, conversando com uma conhecida que já seja mãe ou com aquela amiga que não é mãe mas que tem bastante empatia. Não encha seu coração de angústia e desespero, procure bons conteúdos e fique longe de “maluquices e modismos”. Seu coração certamente já está cheio de dúvidas e preocupações e falo isso como mãe de duas crianças, sei que passam um milhão de coisas em nossa cabeça e é por isso que a gente precisa se blindar ao máximo de coisas que trazem ainda mais preocupações, muitas vezes totalmente infundadas.

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Acompanhem a primeira temporada da série  A “Cientista” Grávida – A Série  aqui (posts sobre minha primeira gravidez). E acompanhem também a segunda temporada (posts sobre minha segunda gravidez).

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